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Crónica da silly season: da vacuidade das ideias ao talento das novas gerações
Opinião Portugal 6 min. 03.09.2021
Rentrée política portuguesa

Crónica da silly season: da vacuidade das ideias ao talento das novas gerações

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Crónica da silly season: da vacuidade das ideias ao talento das novas gerações

Foto: Lusa
Opinião Portugal 6 min. 03.09.2021
Rentrée política portuguesa

Crónica da silly season: da vacuidade das ideias ao talento das novas gerações

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
A emigração, enquanto indicador de uma insatisfação e modo de camuflar os índices do desemprego, não merece uma única palavra. E, mais grave do que tudo o resto, a revelação acerca da pobreza infantil contém em si as marcas de um falhanço político de décadas.

Ideias políticas vagas, fidelidade ao PS e uma forte intenção de atrair e satisfazer as novas gerações, por razões eleitorais, parecem ser três das características das recentes entrevistas de António Costa. Porém, não se vislumbram no seu discurso medidas concretas que traduzam reformas estruturais. Não se percebe, aliás, como é que este governo vai contribuir para uma mudança estrutural da economia, até ao final da década. A emigração, enquanto indicador de uma insatisfação e modo de camuflar os índices do desemprego, não merece uma única palavra. E, mais grave do que tudo o resto, a revelação acerca da pobreza infantil contém em si as marcas de um falhanço político de décadas.   

Por exemplo, a entrevista dada pelo primeiro-ministro António Costa ao Expresso (20-8-21) ficará nos anais desta silly season como um documento único. Impecavelmente vestido e fotografado, o filho de um escritor de origem goesa e de uma jornalista de referência, em funções desde 2015, explicou, com grande à-vontade, o seu mundo.  

À cabeça, encontra-se o Partido Socialista. A começar pela capacidade de o mesmo se renovar através de gerações mais novas e a terminar na genealogia dos grandes feitos dos governos de Guterres e Sócrates, respectivamente, com a sua paixão pela educação e o parque escolar. 


Costa pede mobilização para as autárquicas e ânimo para a recuperação do país
“Este não é o tempo de desanimarmos. É o tempo de nos animarmos. Este é o tempo de arregaçar as mangas, não só daqueles que estão no Governo, mas também daqueles que estão nas freguesias e nas câmaras ou em todos os locais em que se pode fazer a diferença”, especificou o líder socialista.

A fidelidade com que se referiu ao PS mais parece um elemento que faz parte integrante do sistema totémico das tribos australianas. De facto, há um século atrás, o sociólogo Émile Durkheim demonstrou que, ao adorar o seu totem, as tribos de aborígenes se celebravam a si mesmas. Nos dias de hoje, essa auto-celebração não passa, para muitos, de uma bazófia, para efeitos de propaganda ou de alienação. Contudo, estou convencido de que Costa acredita mesmo no seu totem, a quem dedicou uma vida de serviço ao país, em troca de uma carreira bem-sucedida.             

Claro que se afigura muito redutor interpretar a entrevista apenas como uma forma de Costa celebrar o PS, onde nos garante – com uma evidente falsa modéstia – que não é insubstituível. É que da mesma forma que, desde Guterres, o país criou uma geração mais qualificada (pela educação no sentido geral do termo, a culminar nos doutoramentos), parece não faltarem ao PS potenciais candidatos à liderança (Costa dixit).  

Algumas ideias, mais ou menos, consensuais e de caráter genérico – reconheça-se – vieram à baila. Pela sua repetição, noutros órgãos de comunicação elas formam já uma espécie de cassete. Refiro-me ao combate à pandemia, à questão demográfica, à questão das desigualdades, à atenção com as alterações climáticas, à insistência no famigerado plano para orientar os investimentos públicos financiados pela bazuca europeia, à “inovação e qualificações como motores do desenvolvimento”, etc. Há, ainda, a expectativa de que, lá para o final da década, exista “uma economia com uma estrutura profundamente transformada”. Porém, sempre que os jornalistas o procuraram confrontar com medidas concretas, as respostas foram vagas. Por isso, o salário mínimo de 750 euros ficou como uma meta a alcançar... mas no fim da legislatura.             

Só num ponto se parece ter aberto uma brecha nessa visão do mundo construída com base na celebração dos feitos dos governos socialistas, acompanhada de algumas ideias genéricas; em contraste com a oposição acusada de não ter ideias, e de um Bloco de Esquerda reduzido a uma expressão quase caricatural. Foi quando o primeiro-ministro formulou a questão social, propriamente dita. Fê-lo com base em duas grandes prioridades, definidas para “não desperdiçarmos o talento das novas gerações”. E insistiu, mais adiante, “a maior oportunidade que o país tem é mesmo o talento destas jovens gerações”.               

Por um lado, declarou ser uma das prioridades do próximo Orçamento intervir para resolver a questão da habitação, da precariedade no mercado do trabalho e definir uma nova política para a infância. Esta última pensada não só em termos de equipamentos sociais e creches, mas também dos abonos e incentivos fiscais às famílias. Neste mesmo âmbito, António Costa definiu como uma das prioridades do seu governo “o combate à pobreza infantil”.  Assim, sem mais, como se de repente descesse do mundo do totem e das ideias vagas, para entrar no da caverna e se descobrisse a brutalidade da pobreza, logo, do trabalho infantil. Tal como se a escola e a obra dos anteriores governos socialistas, reconheça-se, não tivessem suscitado o abandono escolar, que convive a paredes meias com o trabalho infantil. Neste sentido, como pode um primeiro-ministro andar a celebrar os feitos socialistas em matéria educativa, quando admite, mesmo que de forma velada, como uma prioridade aquele que é, sem dúvida, um dos mais injustos e violentos resultados da pobreza e do abandono escolar, ou seja, o trabalho infantil?      

Por outro lado, sempre apostado em seduzir as novas e “talentosas gerações”, António Costa revelou que está atento à falta de reconhecimento salarial dos mais qualificados e dos técnicos superiores. Só escaparam a uma espécie de achatamento da curva salarial – admitiu – os que conseguiram reivindicar para si o estatuto de carreiras especiais. A este mesmo quadro, mas disso o entrevistado não falou (tal como nunca tocou na questão, muito sensível, dos altos índices da emigração), pertencem os professores dos diferentes ciclos de estudo, mal pagos e pouco reconhecidos socialmente.  

Não é por acaso que a proletarização e o descontentamento dos professores – que são o resultado de uma expansão do sistema de ensino, no último meio século, feita à custa de mão de obra barata e que nenhum governo socialista procurou resolver – se constituiu num dos últimos bastiões do sindicalismo comunista. Mas também se apresenta, doravante, como terreno onde o populismo do Chega se quer expandir. Por isso, não se esqueça um facto óbvio: um professor do secundário em fim de carreira ganha menos que um jovem magistrado (tido como carreira especial) colocado em primeiro posto.

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