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Políticos da democracia tardia
Opinião Portugal 4 min. 01.09.2021
Rentrée política

Políticos da democracia tardia

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Políticos da democracia tardia

Foto: Lusa
Opinião Portugal 4 min. 01.09.2021
Rentrée política

Políticos da democracia tardia

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Neste momento, não há muita diferença entre o discurso do PSD e o da extrema-direita. Isso diz muito sobre o PSD.

 O candidato do PSD à Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, disse esta semana, sobre uma das cidades mais seguras do mundo: “Cabe-nos afirmar em cada rua, cada freguesia, cada cidade que as pessoas não têm que ter medo. Nós estamos cá para as defender.” Medo de quê? Em Portugal as pessoas só têm um medo: de perder o emprego. E o PSD não parece estar na linha da frente para as defender.

Nas redes sociais, sigo alguns grupos de Vizinhos de freguesias em Lisboa. Interessa-me saber o que se passa no meu bairro, mas também noutros que me são próximos, onde vivem amigos. Ali vizinhos queixam-se da ciclovia ou do ruído das festas Erasmus, mas também para procuram ou oferecem serviços: de bolos de aniversário, de costura, de limpeza. Como as paredes de cortiça onde antes púnhamos anúncios com pionés.

Estes grupos estão cheios de simpatizantes do Chega. Num deles, o partido da extrema-direita defendia “implementar videovigilância na freguesia para prevenir a criminalidade”. É uma das suas bandeiras para Lisboa. O que diz Moedas e o que diz o Chega não difere: a ideia é continuar a alimentar a retórica do medo e da insegurança, quando todos sabemos que 31 mil crimes por ano em Portugal ocorrem em família e dentro de casa, porque são quase todos de violência doméstica (dados de 2020 do INE). Para esses não há videovigilância, nem o Chega ou o PSD para nos defender.

A campanha de Moedas está à deriva: a cópia dos outdoors de Fernando Medina do PS é disso exemplo, a que se junta depois a Iniciativa Liberal que, por sua livre iniciativa, decidiu copiar a cópia da cópia dos cartazes de Medina, numa espiral em abismo ou de reflexo no espelho como se a IL fosse uma espécie de PSD made in Taiwan. A deriva populista materializa-se na campanha de memes que o PSD está a fazer no Seixal, autarquia da CDU. Cada cartaz com o Che Guevara a fumar charutos em Varadero é menos um ponto na dignidade do PSD. Nem vamos falar no candidato a Oeiras com os outdoors à José Cid, ou do salto de paraquedas que só mesmo uma coligação com a extrema-direita será capaz de amparar.


The show must go on
Há um momento no ano civil mais previsível que um bolo-rei na época natalícia. Lá vêm os políticos exibir os seus bronzeados, trazendo a política de volta aos palcos. A maioria dos partidos, à excepção de um, não quis chamar rentrée à rentrée, usando eufemismos e iniciativas, que se confudem já com a campanha eleitoral. E todos aproveitam para criticar o primeiro-ministro de ter um discurso eleitoralista. Previsão do tempo: chuva no molhado.

Tentar ser fun piscando o olho ao populismo trumpista do Chega e da Iniciativa Liberal é a arma dos campaign managers do PSD com vários anos de atraso. E não há nada mais infeliz do que um cota que quer parecer cool e ter menos 20 anos.

O PSD, um partido do centrão e do arco da governação, decidiu também colocar um cartaz em frente à Assembleia da República – sim, o Parlamento da República, em Lisboa – de uma candidata à câmara da Amadora dizendo que no dia das eleições, 26 de Setembro, “o sistema vai tremer”.

Qual sistema? Aquele do qual o PSD, de Moedas a Suzana Garcia, nos vai “defender”: do qual o PSD faz parte e ajudou a criar e consolidar, distribuindo dividendos pelos seus acólitos, sucessivos governantes que passaram de pastas ministeriais para gestões de empresas públicas e privadas, com sete primeiros-ministros em 11 governos desde 1975, e cuja figura central do partido, Cavaco Silva, governou durante três mandatos de primeiro-ministro (com duas maiorias absolutas) e dois de Presidente da República? Foram 20 anos de PSD em 46 anos de democracia. Não é o sistema que vai tremer com o PSD na Amadora, é o próprio PSD.

Antevejo uma hipotética fotografia de Rui Rio, num daqueles almoços da rentrée política, ao lado de Suzana Garcia, a jogar o seu charme de economista de pacotilha, contando-lhe como pôs ordem nas contas da Câmara do Porto à custa de cortes em centenas de projectos sociais, uma austeridade rigorosa, hirta, salazarenta, com muito circo sem pão, como os popós na avenida da Boavista e os aviões da Red Bull. Este PSD da democracia tardia, que cheira a extrema-direita todos os dias, só se poderá explicar com o facto de Rui Rio ter certamente faltado às aulas de história do século XX, quando andava no Colégio Alemão.

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