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Relato de uma portuguesa. "Orgulho-me dos enfermeiros todos os dias"
Portugal 4 min. 24.03.2020

Relato de uma portuguesa. "Orgulho-me dos enfermeiros todos os dias"

Relato de uma portuguesa. "Orgulho-me dos enfermeiros todos os dias"

Foto: AFP
Portugal 4 min. 24.03.2020

Relato de uma portuguesa. "Orgulho-me dos enfermeiros todos os dias"

Ana Patrícia CARDOSO
Ana Patrícia CARDOSO
Uma enfermeira portuguesa conta ao Contacto como têm sido os dias de trabalho intensos para combater a pandemia da Covid-19 em Portugal.

Sofia Gomes é enfermeira na Urgência de Pediatria no Hospital de Vila Franca de Xira e esteve recentemente em férias na Ásia, no momento em que a pandemia começou a escalar em todo o mundo. Num momento em que Portugal e o mundo atravessam um cenário de pandemia nunca vivido, os profissionais de saúde estão na linha da frente do combate. 

A lidar com pacientes infetados com o Covid-19 e à espera que a situação piore nos próximos dias ou semanas, a enfermeira sabe a importância do seu trabalho e reitera a necessidade de cumprir as medidas de prevenção. Portugal tem, até ao momento, 2060 casos confirmados e 23 mortes, e as previsões apontam para um aumento nas próximas semanas.

Esteve nas Filipinas em férias mas acabou por ter problemas ao voltar. O que aconteceu? 
Foi decretado estado de emergência na capital (Manila) e quarentena, o que levou ao "fecho" da cidade. Ou seja, Manila foi encerrada por terra, ar e mar até dia 14 de abril e todos os voos domésticos cancelados, ficando apenas permitidos alguns voos internacionais. A maioria dos turistas não está na capital, está nas ilhas que são longe e maioritariamente acessíveis apenas por voos domésticos. Ao encerrar a capital, os turistas corriam o risco de ficar "presos" nas ilhas onde ao existirem aeroportos secundários estes não têm voos internacionais. 

Qual era o clima social que se vivia na capital? 
Foi uma decisão governamental com apenas 66 casos [de infetados]. Mas dada a proximidade com a China e o aconselhamento com o governo chinês foi decretada uma medida mais drástica numa fase precoce. Mas as pessoas estavam aparentemente tranquilas. Existia muito policiamento e alguma "contenção" na circulação das pessoas. 

Quais os cuidados médicos que tiveram de seguir?
Era avaliada a temperatura em todos os aeroportos, barcos e outros meios de transporte (por vezes mais do que uma vez). Eram efetuados questionários também... Se tínhamos sintomatologia (febre, tosse, etc) e onde tínhamos estado nos últimos 15 dias. A maioria da população usa máscara. 

Sendo enfermeira, viu a situação [em Portugal] a piorar ao longe...
É uma sensação de grande impotência. Acho que era mesmo essa a pior sensação. Saber que aqui os meus colegas estavam a viver um caos e eu não conseguia ajudar. 

Quando chegou foi imediatamente trabalhar? Qual foi a primeira impressão quando voltou ao ativo?
Quando cheguei aguardei a decisão da medicina do trabalho. Após parecer positivo (com cuidados, por exemplo, terei de usar máscara sempre durante 14 dias), voltei ao ativo no dia seguinte. A impressão é de incerteza... Ainda estamos numa fase muito precoce em relação a outros países e por isso numa situação de pensar circuitos e soluções, ao mesmo tempo que vamos quase "testando" nos casos que nos vão aparecendo. 

O que está diferente na vossa prática do dia-a-dia? Falo de cuidados, horários, turnos...
Basicamente tudo. Neste momento a afluência é muito menor mas sempre que existem casos suspeitos isso consome a equipa a todos os níveis. Tentamos fazer menos turnos, tentamos estar sempre a fazer turnos com as mesmas pessoas. Foi alterado o fardamento para conseguirmos mudar diariamente de farda. Usamos máscaras quase o tempo todo porque estamos na urgência. Evitamos deslocações dentro do hospital. Temos circuitos diferentes dentro dos serviços que recebem estes utentes. Até quem não trazia comida e ia ao bar ou refeitório neste momento acaba por trazer para conseguir não sair do serviço. Também é muito difícil trabalhar com os kits de protecção que usamos (mas que são tão necessários).

A situação ainda pode piorar...
O cenário expectável é que piore. O cenário que desejamos é que não. Mas achamos e temos noção de que a probabilidade de piorar é a maior de todas.

Num momento como este tem ainda mais orgulho da profissão que exerce?
Sei do que somos feitos e para o que somos feitos. Sei que nestes momentos só existe uma forma de resposta. É estarmos cá e ajudarmos. É fazer o nosso trabalho. Orgulho-me dos enfermeiros todos os dias. 

O que os portugueses ainda estão a fazer de errado? 
O não respeitarem o "ficar em casa" (algumas), e o uso indevido ou incorreto de máscaras e luvas. Acaba por dar um sentimento de falsa proteção ou até mesmo acaba por prejudicar essa proteção.

Na sua opinião profissional como travamos isto?
Com a ajuda de todos, de todos mesmo. Dos profissionais que irão ajudar a travar os infetados e a tratá-los, e da população que tem de travar a disseminação do vírus. 

Tem convivido com casos na pediatria? 
Por agora, apenas casos estáveis, na maioria adolescentes. 

 

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