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"Quero estar entre os melhores do mundo"

"Quero estar entre os melhores do mundo"

Foto: Maria Conceição Pires
Portugal 6 min. 21.02.2018

"Quero estar entre os melhores do mundo"

Paulo Jorge PEREIRA
Paulo Jorge PEREIRA
Haller está encantado com o ambiente à sua volta e não se desvia um instante da ambiciosa meta.

“Mais rápido! Vamos! Bora lá!! Sixty-five! Cadência, cadência, cadência!! The same pace, ok?” Os incentivos de Lino Barruncho, treinador de triatlo, ecoam pelo Estádio Nacional, dirigidos a um grupo que realiza séries de corrida na pista. A manhã está parda, o céu é de cinza. Há uma névoa que, de repente, escorre chuva miúda. Não há só portugueses envolvidos e, entre os estrangeiros, lá está o luxemburguês Bob Haller que chegou em novembro com uma missão: “Estar entre os melhores do mundo e ir aos Jogos Olímpicos em 2020.”

Em 2016, a participação no Rio de Janeiro fugiu por pouco conforme recorda o próprio Haller com uma certa amargura. “Faltou-me um lugar e 80 pontos no ranking para beneficiar de um bónus.” Respira fundo. “Já passou. Foi duro, porque senti que estava tão perto, mas deu-me força para lutar ainda mais pela presença em Tóquio, daqui por pouco mais de dois anos.”

“A presença do Bob aqui resulta de um protocolo entre as Federações dos dois países para uma parceria e permite-lhe absorver conhecimentos técnicos e a qualidade do grupo, mas também absorvemos os seus argumentos, ou seja, os benefícios são mútuos”, conta Barruncho, vice-campeão mundial de duatlo e cuja carreira terminou de súbito em 2011 após ser atropelado na marginal de Cascais.

Melanie Santos, que integra o projeto olímpico da seleção, dá uma outra visão sobre a chegada do triatleta: “O Bob já nos conhecia, gostava dos nossos métodos, perguntou se havia condições para vir e foi aceite. É muito boa pessoa, compreensivo e ajuda-nos a evoluir em conjunto. Está a tentar crescer no plano internacional e sabe que pode chegar ao lugar desejado.”

As séries, entrecortadas por pequenas pausas para recuperar, vão deixando marcas e não só de tempo. Colunas de fumo exalam dos corpos, o suor escorre em bica. Haller relembra: “Trabalhei tanto e os resultados foram tão maus no ano passado que, em julho, numa prova no Canadá, decidi mudar. Das soluções que surgiram, o Arizona e Portugal eram as melhores e, pela proximidade, optei pela segunda. E tem sido fantástico”, confessa.

Antes da pista ficaram para trás o aquecimento e meia hora de corta-mato no Jamor. A seguir vão descer até à piscina – vem aí quase hora e meia de natação. O treinador não tem dúvidas: “É um miúdo cujas capacidades foram mostradas logo como júnior, também como Sub-23, mas depois andou algo perdido a treinar-se em diversos grupos.Tem muita margem de progressão, pode melhorar em tudo, já conseguiu presenças no top 10, como ainda agora na Taça do Mundo da Cidade do Cabo, embora lhe falte a consistência necessária. O grande objetivo é fornecer-lhe essa consistência, pois só o talento não chega. É muito bom corredor e ciclista, ainda que, por vezes, se perca no plano tático, sofrendo muito desgaste em momentos inapropriados. A natação é o seu ponto mais fraco, porque se treinou sozinho demasiado tempo.”

Bob confessa que esteve “em tantos grupos internacionais” que ficou conhecido como “o nómada do triatlo”. Mas aponta a evolução “a todos os níveis” desde que chegou. “Era isto que procurava: um treinador que me acompanha, compreende as minhas limitações e o desgaste, um grupo onde me sinto sempre apoiado”, sintetiza quem corre desde criança, experimentou o duatlo, depois o triatlo que, desde 2005, se “tornou paixão”.

João Silva, mais experiente, sabe bem do que fala Bob. “A vida não se limita aos treinos, todos somos muito mais do que isso.” João reconhece que “toda a gente tem a ganhar com as diferenças e novas maneiras de fazer as coisas” e Bob pode beneficiar “também das vivências deste país”. Considera a sua presença “impecável” e crê que “vai ser capaz de retirar o melhor do grupo”.

O luxemburguês aprende com todos e guarda ensinamentos como os de Vanessa Fernandes. “Não esqueço a sua mensagem de que, quando se é o melhor do mundo, fica-se muito só.”

Nómada do triatlo

Melanie desvenda um pouco dos segredos para a obtenção de bons desempenhos e lembra as primeiras brincadeiras para deixar à vontade o recém-chegado. “A amizade, a dedicação, o companheirismo tornam tudo mais simples. Brincávamos a ensinar-lhe palavrões como se fossem palavras normais, mas ele depressa se apercebeu (risos).”

E agora? “Já entende as tarefas do treino e, como sabe vários idiomas, também nos ajuda a praticar – eu andava esquecida do meu alemão e aproveito para o aperfeiçoar. Nas provas puxamos uns pelos outros e ficamos felizes quando os resultados surgem.” Para ilustrar como o luxemburguês está a adaptar-se, a triatleta refere: “Foi ao seu país no Natal e, como adora Portugal, disse à mãe que não voltaria a passar lá essa data!”

Há uma série de explicações para que Bob se sinta em casa no território português. “O tempo é maravilhoso, a comida ótima, adoro bacalhau à Brás! Mas também pastéis de nata, travesseiros e tantas outras coisas boas de que não posso abusar.” Tem ido muitas vezes ao Chiado ou a Sintra e sente-se fascinado com a Baixa, aproveitando para ir ao cinema em grupo sempre que pode. “Compramos bilhetes para áreas mais espaçosas que incluem jantar e é sempre especial”, conta.

“Conheci a minha namorada cá e, no dia 14, o João e a Melanie convidaram-nos para um jantar em que estiveram talvez umas 12 pessoas e cada qual contribuiu com pratos diferentes. Eu também levei algumas coisas que trouxe do Luxemburgo”, recorda.

Reconhecimento

No circuito mundial, todos acabam por se conhecer. “Também estão cá dois belgas (Christoph e Erwin), no caso deles em estágio, e aproveitam não só as excelentes infraestruturas de que dispomos como o ótimo clima. Já tivemos por cá austríacos e húngaros, também já houve presença nossa em grupos lá fora e, por exemplo, a Vanessa vai competir na Austrália, estando no grupo sul-coreano treinado por um belga”, descreve Barruncho.

Bob conhece Christoph desde 2008 e Erwin desde 2012, têm sido adversários por diversas vezes. Os belgas riem com o reencontro e elogiam os métodos de treino dos portugueses. “Vivo em Bruxelas, o Erwin em Liège, era difícil o trabalho em conjunto. Sabíamos das condições e dos resultados de Portugal e resolvemos apostar”, conta Christoph, corroborado pelo compatriota.

“Ter aqui triatletas estrangeiros representa o reconhecimento pelo trabalho de excelência que este país, apesar da pequena dimensão e dos escassos recursos, tem vindo a fazer com ótimos resultados”, resume o treinador. “Existem vários grupos de treino multinacionais pelo mundo e isso ajuda os interessados.”

Claro que Bob Haller já se imaginou no topo do pódio do triatlo, “mas a imaginação é sempre mais fraca do que a realidade”. Na tropa aprendeu a economizar, a executar tarefas a que não estava habituado, a ser pontual. “Se não vou chegar a horas, aviso”, acentua. A mãe, reformada bancária, organiza as suas viagens e vai gerindo os contributos de Comité Olímpico, Federação e patrocinadores para controlar os cerca de 70 mil euros/ano que custa a presença do filho em Lisboa.

Entretanto, Haller quer “aprender português”, talvez “ficar para lá de 2020” e, sobretudo, “ser um dos melhores do mundo e chegar longe”. Sem o ouvir dizer isso, Lino Barruncho deixa um ditado africano que se aplica na perfeição ao jovem. “Se queres ir rápido, vai sozinho; se queres ir longe, vai acompanhado.” Aos 24 anos, o luxemburguês tem muito boa companhia. 

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