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Queima das Fitas. O lugar onde se expõe o corpo em troca de álcool
Portugal 9 min. 13.05.2019

Queima das Fitas. O lugar onde se expõe o corpo em troca de álcool

Queima das Fitas. O lugar onde se expõe o corpo em troca de álcool

Foto: Lusa
Portugal 9 min. 13.05.2019

Queima das Fitas. O lugar onde se expõe o corpo em troca de álcool

Desafios sexuais a troco de álcool e até suspeitas de violação sexual. Episódios que marcam pela negativa as festas universitárias e denigrem a imagem das mulheres. Especialistas explicam ao Contacto como é que nos dias de hoje elas ainda "são vistas como objetos sexuais".

A última edição da Queima das Fitas do Porto, que se realizou entre 5 e 11 de maio, ficou marcada pelas piores razões: a suspeita de uma violação e um cenário de sexismo no Queimódromo. O assunto levou mesmo a Federação Académica do Porto (FAP) - a organizadora do evento - a tomar atitudes extremas em resposta aos "comportamentos indignos" e "atentados aos valores humanos" para com as jovens mulheres.  

Desafios sexuais a troco de bebidas alcoólicas para as jovens com os vídeos a correr nas redes sociais. E muitas queixas de sexismo. Assim foi a Queima das fitas do Porto, que todos os anos se realiza no início de maio na cidade uma celebração direcionada aos estudantes universitários. Houve até suspeitas de uma possível violação. 

No dia 8  de maio a Federação Académica decidiu, numa atitude inédita, mandar eliminar imediatamente as fotos e filmagens destes desafios sexuais que correram as redes sociais. Houve, inclusive, sanções e algumas barracas foram mesmo encerradas durante o evento devido aos comportamentos "indevidos" e "indignos", considerou a FAP em comunicado

Algumas associações de apoio às vítimas de violência sexual em Portugal congratularam-se com a tomada de posição da FAP, considerando-a um "feito histórico", mas dizem que ainda há muito para fazer. Um passo já foi dado no Queimódromo, com o "Ponto Lilás", um projeto de promoção da igualdade de género e prevenção de violência sexual e apoio aos jovens no recinto.

A iniciativa inédita é uma parceria entre três projetos: Sexism Free Night, UNi+ Programa de Prevenção da Violência no Namoro em Contexto Universitário e EIR- Emancipação, Igualdade e Recuperação, da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). 

Suspeitas de violação: polícias em contradição

O caso da suspeita de violação de uma jovem de 20 anos, aconteceu na manhã de quarta-feira, dia 8, e levou a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Polícia Judiciária (PJ) a entrarem em contradição. A jovem foi encontrada nua, da cintura para baixo e embriagada, numa zona de vegetação lateral ao Queimódromo, gerando suspeitas de possível agressão sexual. A jovem estava com "escoriações no corpo", sangue e apresentava "alguns sinais de agressão", segundo declarações do INEM ao jornal Observador.

Em declarações prestadas naquele dia à Lusa, a PSP falava em "indícios de crime" resultantes "da observação feita à jovem". "Devido a estar alcoolizada não foi possível falar com ela e apurar as circunstâncias" pelas quais estaria seminua e naquele estado quando foi encontrada, frisou um responsável.

A jovem foi levada pela PSP para o Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e o caso passou para a PJ do Porto, que, após diligências considerou "não haver indícios da prática de crime". Fonte da PJ garantiu ao jornal Público que nem as declarações prestadas pela jovem estudante à PJ, nem as perícias realizadas no hospital apontam para qualquer crime, evidenciando antes um caso muito elevado de intoxicação alcoólica.

"Para já não há qualquer confirmação de violação sexual. Se se mantiver as suspeitas, a polícia deve estar a continuar a investigar para obter informação mais fidedigna. E a haver [violação] poderá permanecer na esfera privada, para preservar a privacidade da vítima", explicou, por sua vez, ao Contacto, Ilda Afonso, responsável pelo projeto Emancipação, Igualdade, Recuperação (EIR). A iniciativa é coordenada pela UMAR do Porto, uma das entidades responsáveis pelo Ponto Lilás durante a Queima das Fitas na Invicta. 

Na sexta-feira, dia 10 demaio, e numa ação conjunta responsáveis do "Ponto Lilás", 200 estudantes da comissão executiva da FAP e agentes da PSP passaram a fiscalizar as atividades da Queima das Fitas do Porto até à hora do fecho do recinto, "para combater com tolerância zero qualquer violência sexual, de género e física" no local.

Desafios sexuais e vídeos "indignos"

Beijos lésbicos a troco de shots, bebidas em copos em forma de pénis para simulação de sexo oral, álcool grátis para quem mostrasse os seios ou simulasse atos sexuais. As jovens aceitavam estes e outros desafios nas barracas universitárias em troca de bebidas alcoólicas. Os rapazes acotovelam-se para ver enquanto outros nos pontos de venda filmavam. 

Como defenderam alguns empregados destes pontos de venda ao Jornal de Notícias, os vídeos dos excessos e de "cenas explícitas" nas barraquinhas de venda de álcool invadiram as redes sociais "numa estratégia de marketing". 

Só que perante tantas queixas ao "Ponto Lilás" e noutros locais, na quase totalidade por jovens mulheres que tinham participado nos desafios sexuais, a FAP decidiu, então mandar eliminar as fotos e vídeos das redes sociais. Houve multas e algumas barracas foram mesmo encerradas. 

Tal foi confirmado por Ilda Afonso, a coordenadora do EIR da UMAR Porto. "No dia seguinte, as jovens iam ao "Ponto Lilás" queixar-se por causa das imagens e dos vídeos. Algumas, por causa do excesso de álcool, não se lembravam de ter dado autorização, outras admitiam ter dado consentimento, mas não estavam em plena consciência dos seus atos", disse esta responsável. "Estas jovens no dia seguinte sentem-se culpadas, mas não se deviam sentir. O problema é que ainda continuamos a ter uma sociedade que normaliza os comportamentos sexistas", acrescentou. 

Este cenário é um reflexo da sociedade atual, frisou esta responsável, acrescentando também que o "Ponto Lilás" "recebeu muitas queixas pela linguagem sexista usada pelas barracas de venda de álcool". "Muitos jovens, na maioria raparigas, mas também rapazes, mostraram-se indignados primeiro pela linguagem e depois pelos vídeos e pela sua divulgação. Recebemos muitos alertas", referiu Ilda Afonso. 

A responsável da UMAR congratulando-se com a decisão da FAP, "uma posição histórica", mas sublinhou que "ainda há muito a fazer". Uma das lutas da organização tem sido, aliás, "para que haja no ensino superior, sobretudo nas áreas das ciências sociais e humanas, formação em igualdade do género, para haver mais respeito e relações mais saudáveis". 

No mesmo sentido, a socióloga Isabel Ventura, autora do primeiro estudo sobre legislação portuguesa sobre a violação, lamenta que ainda hoje a mulher seja vista "como um objeto sexual", por uma "sociedade sexista". Isabel Ventura lançou recentemente o livro  "Medusa no Palácio da Justiça ou uma História de Violação Sexual", em consequência da sua tese de doutoramento. 

"A grande questão é que hoje, em 2019, é inaceitável conceber a ideia que num evento haja barracas a fazer tais negócios, promover este tipo de dinâmicas e divulgar imagens na internet com desculpa de estratégia de marketing. A falar das jovens mulheres como não pessoas", lamenta. 

O problema é que, como explicou Isabel Ventura – cuja tese venceu o Prémio APAV Investigação e o Prémio Lamas - as raparigas e os rapazes são socializados de maneira diferente. "Elas crescem a serem ensinadas que o maior valor é a sua aparência, e investem muito nela. E essa aparência é para seduzir e conquistar os rapazes. Já eles crescem preparando-se para serem dominantes e agressivos", explica.

Tanto Isabel Ventura como Ilda Afonso alertam para o sentimento de culpa "errado" que as jovens sentem quando são vítimas de violação sexual.

Apesar de não ter havido registo de violação sexual, no "Ponto Lilás", na Queima das Fitas no Porto, ao longo há casos de jovens que procuram a  Umar para relatar estes casos em que dizem sentir-se extremamente culpadas. "E elas não são culpadas. Algumas guardam silêncio anos a fio, com consequências muito graves a nível psicológico. Estas jovens têm de entender que não são culpadas", insiste Ilda Afonso.

Isabel Ventura acrescenta mesmo muito deste sentimento deve-se a uma "cultura de violação", com raízes ancestrais. "Há uma desculpabilização da violência sexual do homem em relação à mulher" e a tendência "para se culpabilizar a vítima, o que é errado e incompreensível", vinca."Quem comete o crime é que é o culpado, nunca a pessoa abusada", remata.

A socióloga considera "muito positivo e histórico" a iniciativa "Ponto Lilás" no Queimódromo e o facto de a FAP ter tido uma "ação tão pró-ativa em relação aos comportamentos sexistas". Mas estes não ocorreram "só ali, naquela Queima, nem são só de hoje", reitera. 

Outros casos de sexismo

Em 2017, também durante a Queima das Fitas do Porto, uma estudante universitária terá sido abusada sexualmente quando estava inconsciente  num autocarro, enquanto outros jovens assistiam e filmavam, segundo o Correio da Manhã. O vídeo circulou pela internet e a PJ tomou conta do caso. Posteriormente, a jovem maior de idade decidiu não apresentar queixa e o caso foi encerrado, segundo o Expresso.

Dias depois, uma outra estudante da Universidade do Minho apresentou queixa à polícia após ter descoberto um vídeo seu a circular na internet onde aparecia seminua no recinto da Queima das Fitas de Braga, e para o qual não teria dado autorização para ser filmada. A estudante declarou à PJ de Braga que no momento da filmagem não estava em perfeitas condições psicológicas e nem sequer sabia que estava a ser filmada.

Na altura, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, "repudiou veemente" o sucedido e pediu à Inspecção-Geral de Educação e Ciência para analisar o caso, de acordo com o Público.

Envolto em muita polémica esteve também, no ano de 2017, o Encontro Nacional de Direções Associativas (ENDA), devido a comportamentos sexistas durante a reunião e à "publicação de conteúdos machistas e discriminatórios" na página oficial do ENDA. "Apenas os homens devem votar", "Comissão das Violadas", ou "Alguém que mande as gajas da AEFCSH ir fazer o jantar", acompanhadas por fotos das respetivas representantes da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (AEFCSH) foram alguns dos comentários partilhados na página oficial do ENDA, denunciados pela direção da AEFCSH. Na altura, a direção desta associação considerou que as publicações visavam "a descredibilização política das mulheres intervenientes, incluindo fotografias tiradas em plenário às mulheres presentes" pelo que apresentou o caso à Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género.

De forma a prevenir episódios de violência sexual e ajudar os jovens vítimas de atos sexuais ou sexistas que se sintam desorientados ou precisem de apoio, o projeto Ponto Lilás vai continuar a sua missão por outros eventos noturnos, nomeadamente no Festival NOS Primavera Sound, de 6 a 8 junho, no Porto.

A iniciativa inédita é uma parceria entre três projetos: Sexism Free Night, UNi+ Programa de Prevenção da Violência no Namoro em Contexto Universitário e EIR- Emancipação, Igualdade e Recuperação, da UMAR. 

Paula Santos Ferreira