Escolha as suas informações

Portugal. Suspeitos de covid-19 “abandonados” em pleno isolamento
Portugal 6 min. 22.10.2020

Portugal. Suspeitos de covid-19 “abandonados” em pleno isolamento

Portugal. Suspeitos de covid-19 “abandonados” em pleno isolamento

Foto: dpa-tmn
Portugal 6 min. 22.10.2020

Portugal. Suspeitos de covid-19 “abandonados” em pleno isolamento

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Doentes de risco sem acompanhamento, utentes a quem se pede que regressem ao trabalho ainda infetados e queixas sobre isolados a quem as autoridades não querem justificar faltas de trabalho. São várias as denúncias que chegaram ao Contacto quando o número de casos dispara e aumenta a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde.

Perante o aumento exponencial de infeções em Portugal, o primeiro-ministro defendeu ter havido um relaxamento por parte dos portugueses. A mensagem não foi bem recebida por alguns quadrantes políticos e sociais que alegam haver falta de meios e descoordenação. Com as autoridades a rejeitarem a necessidade de um novo confinamento no país, sobe a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e surgem cada vez mais denúncias de que algo não está a correr bem no combate à pandemia.

À conversa com o Contacto, sem querer dar o nome, uma advogada que está infetada com covid-19 afirma que está de cama na sua casa em Lisboa. A sua história é a de muitos outros com que este jornal falou e é o retrato de um país que não coincide com as declarações de António Costa e das autoridades da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Logo que começaram os sintomas, a 2 de outubro, ligou para a linha telefónica SNS24 e informou que "estava com todos os sintomas menos febre e falta de ar". Também explicou que sofre de doença autoimune com imunossupressão biológica com necessidade de medidas acrescidas. "Disseram-me para beber líquidos e não me voltaram a ligar. Não me encaminharam para um centro de saúde, nem para um hospital. Nada, zero", recorda.

Sem qualquer acompanhamento médico e sem que lhe tivessem pedido para fazer qualquer teste, ligou no dia seguinte para uma médica de gastroenterologia do Hospital de Santa Maria, onde é acompanhada habitualmente, que afirmou que "não iria prescrever o teste" naquele centro hospitalar porque "os tempos de espera eram muito elevados". A opção desta profissional de saúde foi recomendar que esta paciente recorresse ao privado. "Aconselhou-me a fazer o teste a minhas expensas e não respondeu mais".

Em pleno fim-de-semana prolongado, devido ao feriado de 5 de outubro, esta advogada de 39 anos diz ter vivido dias complicados com "dores horríveis no corpo, suores, diarreia e vómitos". Foi então que recorreu por via telefónica a um centro de saúde de Santa Maria da Feira, donde é proveniente, e conseguiu uma credencial para realizar o teste. Só na terça-feira de manhã é que conseguiu deslocar-se às urgências do Hospital São Francisco de Xavier, do qual saiu com um teste positivo cinco horas depois.

A partir daqui, o acompanhamento passou, de facto, a ser diário e "satisfatório", na opinião desta advogada mas no dia 18, quando já haviam passado duas semanas da infeção, voltou a haver problemas. "Ao fim de dez dias e três dias sem sintomas ou tomada de medicação, deram-me alta sem qualquer teste conforme a norma recentemente aprovada pelo Governo. Eu referi a questão da imunossupressão e ninguém disse nada. Até que vou ler a norma toda e reparo que o ponto 53 da norma exceciona especificamente da alta pessoas que façam imunossupressão biológica obrigando a que a alta seja dada mediante apresentação de teste negativo", explica.

Depois de contestar a alta médica com esta alínea da norma, o médico que acompanha esta mulher de 39 anos anulou a decisão e prescreveu um teste. Voltou a dar positivo. Ou seja, sem teste, teria sido obrigada a regressar ao trabalho e poderia ter infetado outras pessoas. 

Para esta advogada o problema radica "na falta de políticas públicas concretas" e afirma não compreender "como é que o Estado opta por continuar a pagar milhões de euros aos laboratórios privados para a testagem ao invés de fazer a aquisição das zaragatoas e contratação de técnicos de diagnóstico e terapêutica para os hospitais". É um retrato desolador: "os centros de saúde praticamente suspenderam a atividade à conta disto sendo que são fundamentais nos cuidados de saúde primários. E as autarquias estão a ser chamadas, sem meios nenhuns".

Uma mudança atribulada

São inúmeros os casos de utentes que se queixam de que não recebem qualquer indicação para fazerem teste, alguns deles até com orientação para regressarem ao local de trabalho. Foi o caso de Rita Governo e Nuno Silva, um jovem casal que vive em Vila Franca de Xira, nos arredores de Lisboa, e que ajudaram outro casal amigo a fazer uma mudança de casa. Dias depois, este casal amigo deu positivo no teste de covid-19. 

Logo que soube, Rita Governo, de 31 anos, ligou para o seu local de trabalho, uma importante IPSS na região de Lisboa, que contacta com dezenas de idosos. De seguida, pegou no telefone para se informar sobre o que fazer junto da linha SNS24 que mandou esta jovem psicóloga ficar em isolamento durante três dias até receber uma chamada do delegado de saúde. "Caso não ligasse, contactava eu o meu centro de saúde. Eu e o Nuno ficámos em isolamento doméstico sob vigilância ativa do SNS", descreve Rita.

Passaram os dias e não receberam qualquer chamada. Até que decidiram ligar para o centro de saúde. Depois de muitas tentativas, só depois Nuno conseguiu falar com o seu médico de família. "Disse-nos que estávamos na plataforma trace covid e que lá estava escrito que nos iam contactar ontem. E que tínhamos de aguardar e não sair de casa".

Rita conseguiu ser atendida depois de 50 tentativas pelo centro de saúde que a reencaminhou para a unidade de saúde pública. Qual não foi o espanto da psicóloga quando a técnica a atendeu e lhe disse que não devia estar em casa. "Respondeu que tinha sido um erro do SNS24 e que por isso não ia passar qualquer justificação nem para a minha entidade patronal nem para a segurança social me pagar os dias em casa", denuncia. Mais tarde, no mesmo dia, a delegada de saúde contactou Nuno e deu a mesma informação.

Esta psicóloga considera uma falta de respeito e o reflexo de uma gestão caótica da crise sanitária. "Há gente que pode ser despedida por ter dias consecutivos de faltas injustificadas. Andam a brincar com isto". Para além de uma queixa dirigida às autoridades de saúde, Rita denuncia ao Contacto outra situação insólita relacionada com este caso.

A sua amiga, a quem foi detetado covid-19, tinha o pai também em isolamento como Rita e Nuno. Como ninguém no Serviço Nacional de Saúde (SNS) o contactou e sem forma de justificar a ausência do trabalho, podendo acontecer o que sucedeu com os dois jovens, a empresa mandou fazer o teste. Acabou por dar positivo. 

Para Rita é a demonstração de que "é muita irresponsabilidade junta" e defende mais investimento no SNS. "São precisos mais meios para acompanhamento em vigilância que atualmente são para lá de insuficientes".

Esconder casos da opinião pública

Ao Contacto, chegou outro polémico caso de um mecânico de Torres Novas que pediu anonimato e que afirma que a delegada de saúde lhe pediu para não divulgar o facto de ter dado positivo no teste. Depois de a sua mulher ter ficado infetada, teve de esperar vários dias "enquanto a linha SNS24 passava a responsabilidade para o centro de saúde e vice-versa" à espera de poder fazer um teste.

Depois de ter dado positivo, terá sido contactado pela delegada de saúde que, de acordo com este homem, invocou o receio de alarmismo para lhe pedir sigilo. O mecânico decidiu, mesmo assim, avisar todos aqueles com quem tinha estado para que pudessem tomar as devidas precauções.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas