Escolha as suas informações

Portugal. Setor da cultura protesta com vigílias silenciosas para ser ouvido
Portugal 6 min. 21.05.2020

Portugal. Setor da cultura protesta com vigílias silenciosas para ser ouvido

Portugal. Setor da cultura protesta com vigílias silenciosas para ser ouvido

Foto: LUSA
Portugal 6 min. 21.05.2020

Portugal. Setor da cultura protesta com vigílias silenciosas para ser ouvido

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
A atriz Anaísa Raquel organizou a vigília informal que em frente à Assembleia da República representou vários profissionais da cultura, artes e espetáculos que estão há três meses sem trabalhar e sem apoios. "Queremos que o governo nos dê espaço de diálogo", diz em entrevista ao Contacto.

"E se tivéssemos ficado sem cultura?" A pergunta é exibida nos cartazes nas várias vigílias que se realizaram esta quinta-feira, 21 de maio, em várias cidades portuguesas. A iniciativa foi de um grupo informal de profissionais da cultura e das artes, como o Ação pela Cultura 2020, representado pela atriz Anaísa Raquel, de 39 anos, organizadora da manifestação silenciosa que tomou conta da frente do Parlamento, em Lisboa, das 9h às 20h. 

Sem qualquer fonte de rendimento ou sem acessos aos apoios que foram disponibilizados durante a crise de pandemia que obrigou a cancelar os seus projetos e a fechar portas, em alguns casos, indeterminadamente, muitos profissionais querem ter uma palavra a dizer na definição das políticas culturais, sobretudo numa altura em que a crise pandémica se junta à crise de precariedade que já define o setor.

 "A reestruturação da lei laboral para os profissionais da cultura, o fundo de emergência que foi criado e que não chegou nem a metade dos profissionais do setor cultural e a forma como esse próprio fundo também foi criado" são algumas das questões que os manifestante querem ver debatidos com o Ministério da Cultura, diz Anaísa Raquel em entrevista ao Contacto.   

Que balanço faz desta vigília, que começou logo de manhã e decorreu em vários pontos de Portugal?

A vigília está presente, esta quinta-feira, em 17 cidades do país. Quisemos com isso também descentralizar os problemas do setor cultural, que não acontecem, claro, só em Lisboa e no Porto. Estamos desde as 9h da manhã e até às 20h [hora de Lisboa] aqui na capital, mas cada comissão criada em cada cidade teve a liberdade de escolher o local de atuação e o horário que se inseria melhor na realidade de cada cidade. A vigília funciona através de uma 'mise en scene', em silêncio, e foram criados turnos de meia-hora, em que disponibilizámos o espaço a 10 profissionais do setor da cultura. Todos eles tiveram de fazer inscrições prévias, porque temos a noção de que temos de ser criativos naquelas que vão ser as ações de protesto, nesta altura.

Que reivindicações os trabalhadores das artes e do espetáculo quiseram que fossem ouvidas, através desta vigília?

Queremos que o governo nos dê espaço de diálogo. Temos algumas reivindicações que são nossas, da organização da vigília, mas existem outros grupos formais e informais que já apresentaram outras reivindicações também. As nossas têm a ver com a reestruturação da lei laboral para os profissionais do setor da cultura, com o fundo de emergência que foi criado e que não chegou nem a metade dos profissionais e com a forma como esse próprio fundo também foi criado. Porque baseava-se na criação artística de um projeto e há profissionais do setor da cultura que não podem participar nesse tipo de fundos. Além disso, há que repensar e efetivar a legislação de muitas profissões do setor que ainda não estão devidamente legisladas e há que pensar as políticas nacionais de uma forma mais justa e mais transparente, que abarque muitos mais profissionais e estruturas do país. 

A vigília, no Porto.
A vigília, no Porto.
Foto: LUSA


Essas reivindicações somam-se a um cenário de crise sanitária e interrupção da atividade do espetáculo. Enquanto artista como é atualmente o seu dia-a-dia. Como é que sobrevive nesta altura?

Pois...A minha situação é muito simples: Estou há 85 dias em casa, não tive qualquer apoio por parte da Segurança Social, apesar de ser contribuinte há 21 anos, nem nenhum apoio por parte do governo com estes fundos criados. Tive um apoio recentemente, que me chegou há uma semana, para o qual também me candidatei, que é um cartão de compras que a  Gestão de Direitos de Autor (GDA) disponibilizou, através de uma parceria com a Sonae. Portanto, por um mês, se for poupadinha - e sou - vou conseguir comer. Já para pagar as minhas contas fixas, que chegam todos os meses, tenho algumas preocupações, porque a minha atividade foi totalmente parada no dia 10 de março.

Até aí que atividades já tinha programadas ou estava a realizar?

Além de atriz, sou audio descritora, portanto eu tinha cerca de 20 audio descrições em teatros e museus, agendadas até junho. Estava a fazer também um espetáculo para a infância e nós tínhamos uma programação bastante vasta nas escolas e que foram todas canceladas no dia 12 de março.

Quais são as suas perspetivas face à retoma do setor que se vai começando a fazer com o desconfinamento. As estruturas, os equipamentos e os profissionais estão preparados para lidar com a redução e readaptação de formatos?

Não faço a mínima ideia, porque enquanto audio descritora e atriz, na verdade, quase nada depende da minha vontade de iniciar atividade. Estou dependente de programadores, de equipamentos culturais, de escolas, estou dependente de todos. Claro que sendo criadora, tenho já um espetáculo preparado, já a pensar na rua e em grupos de público mais pequenos, nem que tenhamos que fazer o mesmo espetáculo na mesma sala ou na rua, ou para a mesma freguesia ou a mesma Câmara Municipal, três e quatro vezes seguidas, para conseguirmos de alguma forma chegar aos valores justos. Mas como dizia, na verdade, não depende muito de nós, porque não sabemos exatamente quando é que os equipamentos culturais vão abrir. Muitos deles não têm condições para abrir antes de setembro. Todos eles, para além das despesas fixas, vão ter as suas despesas oneradas por conta dos materiais de desinfeção, vão ter de reduzir lugares na plateia...Portanto, reduzir lugares, receber menos receitas e ter mais gastos...não sabemos como é que o setor vai reabrir a sua atividade. Nem quando.

A vigília em Lisboa teve lugar em frente à Assembleia da República e em dia de debate quinzenal, com os deputados e membros do governo. Entregaram algum caderno reivindicativo?

A vigília nunca teve como objetivo entregar nem nenhum documento, nem nenhum caderno de encargos. Ainda assim, a organização da vigília sabe - porque comunica com os vários grupos formais e informais  que foram surgindo nestes últimos três meses - de toda a comunicação que está a acontecer com o Ministério da Cultura. E, não tendo, esse objetivo, como dizia, estamos abertos ao diálogo, já falámos com alguns grupos parlamentares, mostrámos as nossas preocupações e comunicámos que temos algumas propostas de soluções, e agora pretendemos que isto tenha sido uma ação de protesto que dê visibilidade às nossas questões e que eles próprios tenham vontade de dialogar com todos os grupos formais e informais: sindicatos, associações, programadores. O setor cultural, basicamente. 


Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.