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Portugal. Montalegre quer “continuar a respirar” e diz “não à mina”
Portugal 3 min. 05.06.2019

Portugal. Montalegre quer “continuar a respirar” e diz “não à mina”

Portugal. Montalegre quer “continuar a respirar” e diz “não à mina”

Foto: Chris Karaba
Portugal 3 min. 05.06.2019

Portugal. Montalegre quer “continuar a respirar” e diz “não à mina”

População está contra a exploração de lítio na região.

A população de Mongarde, em Trás-os-Montes não quer ouvir falar da prospeção de lítio que o Governo entregou à Lusorecursos sem fazer o Estudo de Impacte Ambiental. Às primeira horas da manhã ninguém votou para as Europeias na Junta de Morgade, em Montalegre. Portas fechadas a cadeado. Do lado de fora, dezenas a apelar à abstenção num “voto de protesto” contra a instalação da mina de lítio a céu aberto na freguesia raiana. Aproveitaram o aparato das eleições para tornar a causa mediática. O boicote abriu jornais mas não travou a exploração que, apesar das preocupações ambientais, tem contrato assinado, luz verde do Governo e apoio do Presidente da Câmara.

Este fim de semana, poucas televisões do barroso estiveram sintonizadas na final da Liga dos Campeões. A julgar pela lotação do auditório municipal, o assunto é do interesse do concelho. Mais de 400 pessoas saíram de casa para ouvir falar sobre lítio numa sessão de esclarecimento promovida, no sábado, pela autarquia. Registadas em Morgade há 230, muitas integram a associação ‘Montalegre com Vida’ que, em processo de legalização, se fez ver e ouvir na plateia com uma t-shirt branca a dizer “não à mina”.

O porta-voz, Armando Pinto, diz que “a população está contra a mina a céu aberto, seja ela de lítio, ouro ou diamante”. Quer “continuar a respirar Montalegre” e destacou “preocupações com as nascentes de água” e com a “toxicidade do lítio”. Durante a sessão, muitos levantaram dúvidas sobre os impactos da prospeção do metal na “forma de vida”, no ambiente, saúde, água e agricultura. De resto, o principal meio de subsistência de quem se deixa ficar no interior de Trás-os-Montes.

“Desíginio do lítio” vai “trazer impactos”

Convidado a falar sobre a repercussão da exploração, o vice-presidente do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), Machado Leite, admitiu, sem especificar, que a mina do barroso “vai trazer impactos”. O engenheiro lembrou, porém, que o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) tem de apresentar soluções e que, atualmente, “há tecnologias novas” que ajudam a minimizar os impactos decorrentes da exploração.

Exigido por lei, o inquérito que avalia o impacto da prospeção minéria no quotidiano das populações, estará em preparação mas não estava concluído quando o governo assinou contrato com a Lusorecursos.

Nesse sentido, Manuela Cunha, do Partido Ecologista “Os Verdes” acusou a autarquia e o governo de porem a “carroça à frente dos bois” e defendeu que as populações “têm o direito de serem ouvidas previamente”.

Adepto do “desígnio do lítio”, o autarca do PS Orlando Alves desvaloriza os protestos de quem diz não dispensar “o telemóvel, o automóvel ou a energia”. Tem contrato assinado para a exploração de 30 milhões toneladas de lítio no que considera ser “um investimento âncora para o concelho, para a região e também para toda a zona Norte”.

“Petróleo Branco”

Com o fim do petróleo anunciado, o lítio bem pode ser a energia do futuro. Usado em equipamentos eletrónicos e placas de eletrodomésticos, voltou à ribalta com a produção de baterias para automóveis numa altura em que se discute o aquecimento global e as energias sustentáveis.

Portugal é o sexto maior produtor de lítio no mundo e só fica atrás do triângulo do Chile, Argentina e Bolívia, da China e da Austrália. Com a maior reserva conhecida do “petróleo branco” da Europa Ocidental, o governo entregou a mina à Lusorecursos em março. A exploração só arranca em 2020, num investimento de cerca de 500 milhões de euros que promete criar 500 postos de trabalho.

Entretanto, à luta das populações juntou-se a Quercus que acusou o Governo de “querer furar o país de Norte a Sul”. Os ambientalistas refutam o argumento da “sustentabilidade e descarbonização” e frisam que se “trata de um problema de mineração e dos impactos que a exploração tem na natureza e nas populações”.


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Uma professora contra as minas de lítio
Nos últimos anos, uma professora natural de Covas do Barroso, no concelho de Chaves, emigrada em Inglaterra, trocou os livros de português e inglês pelo Mining Journal, os relatórios do mercado do lítio e as atas de conferências internacionais sobre mineração. Catarina Scarrott, mãe de duas crianças de 2 e 7 anos, bate-se apaixonadamente em defesa da terra onde a sua família vive há mais de dez gerações. A terra a que gostava um dia de regressar. A terra que a empresa britânia Savannah Resources quer esventrar para extrair, alegadamente, as maiores reservas de lítio da Europa.