Escolha as suas informações

Portugal. Lar com 32 idosos infetados acusado de "negligência" pelos familiares
Portugal 7 min. 29.05.2020

Portugal. Lar com 32 idosos infetados acusado de "negligência" pelos familiares

Portugal. Lar com 32 idosos infetados acusado de "negligência" pelos familiares

Foto: AFP
Portugal 7 min. 29.05.2020

Portugal. Lar com 32 idosos infetados acusado de "negligência" pelos familiares

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Um centro de idosos em Queluz manteve os utentes incontactáveis uma semana. Um dos doentes foi ontem hospitalizado e inspira preocupação. O seu filho e 10 famílias querem processar o lar e amanhã realizam uma vigília.

Desde domingo que António Santos não pode falar com o seu pai, António Joaquim dos Santos, de 89 anos, um dos 32 utentes infetados com covid-19, dois dos quais já faleceram, que vivem no Centro de Bem-Estar Social de Queluz (CBESQ). Facto que este filho considera “ilegal”, "inconstitucional" e “desumano” e o levou a fazer queixa na PSP, Instituto de Segurança Social e à Direção-Geral de Saúde. Outras famílias fizeram o mesmo. António Santos está também a preparar um processo crime contra o lar. “O Centro suspendeu os direitos humanos mais elementares ao meu pai e a todos os utentes do Centro, ao mantê-los incontactáveis”. A situação foi largamente noticiada nos media em Portugal.

Ontem, quinta-feira, aquando do anúncio dos 32 casos de utentes infetados pela SARS-coV-2, entre o total de 62 utentes do CBESQ e de mais seis funcionários que testaram positivo, o Centro decidiu finalmente que os idosos poderiam retomar hoje o contacto com os familiares.

Só que também ontem, ao final da tarde, o pai de António Santos foi hospitalizado, no Hospital Amadora Sintra. O seu estado de saúde é preocupante. "O meu pai está mal. Está hospitalizado com uma pneumonia e uma infeção bacteriana", conta o seu filho ao Contacto, depois de o ter ido visitar.

“Não consigo imaginar o sofrimento dele: confuso, fechado sozinho num quarto, 24 horas por dia, sem poder falar com a mulher nem com os filhos. Somar 89 anos e um estado de saúde precário à covid-19 não dá expectativas animadoras”, escreveu António Santos, a 25 de maio, num artigo intitulado “Quero falar com o meu pai” no seu blogue Manifesto 74 onde denunciou a situação. “Se nos privarem do direito a falar com ele enquanto estiver infetado, podemos nunca mais poder falar com ele”, desabafava no texto.

Neste artigo, António Santos publica várias orientações e informações da Direção Geral da Saúde destinadas a lares de idosos onde é realçada a garantia da instituição manter sempre o contacto dos idosos com os seus familiares, através de telefonemas ou videochamadas, em tempo de pandemia. “A decisão do Centro i vai contra todas essas orientações da DGS”, frisa ao Contacto.     


Portugal. Idosos retirados de lar em Abrantes após 15 testes positivos
Os idosos foram transferidos para isolamento e quarentena no hospital de Abrantes.

Processo-crime contra o lar

O estado de saúde do pai aumenta a indignação de António Santos, não só pela semana que o pai, que sofre de demência, não pode ouvir as vozes dos filhos e da mulher mas também por outras situações que se passam naquele Centro. 

E este filho não está sozinho nesta indignação. "Amanhã, as famílias de utentes do lar vão fazer uma vigília em frente ao CBESQ", anuncia António Santos. Nessa vigília, vai ser entregue uma "Carta Aberta à direção assinada por várias famílias em que se exige a demissão imediata da atual direção". 

Para além disso, “temos 10 famílias a discutir como avançar judicialmente contra o Centro. Pessoalmente, quero avançar com uma queixa-crime”, diz.

Carências de higiene pessoal

Na Carta Aberta, as famílias falam em "denúncias de trabalhadores da CBESQ" sobre "clima de medo e de assédio moral, bem como insustentáveis carências de recursos humanos, higiene pessoal (em virtude da baixa de várias funcionárias), equipamento de proteção individual".

"Perante uma situação tão grave quanto foi dada a conhecer", vinca a missiva referindo-se aos 32 utentes infetados mais os seis funcionários, "há uma evidência de incúria, neglicência e sonegação de informação às famílias". A missiva realça também que a resposta do Centro "foi tardia", "uma semana depois da primeira morte", "sabendo-se que os utentes continuavam a frequentar normalmente as áreas comuns, sem qualquer equipamento de proteção".


Exército português faz descontaminação em lar de Matosinhos onde morreram 21 idosos
Na passada quinta-feira, foram transferidos 59 dos cerca de 160 utentes do lar, que já regista mais de duas dezenas de mortes por covid-19. Lar está a ser investigado pelo Ministério Público.

"Nem quando foi preso político esteve incomunicado"

“É que a demência às vezes é cruel, mas a crueldade é sempre demente: quando o meu pai testou positivo para a COVID-19, o lar decidiu que a família não pode contactá-lo. Nem por telefone nem via internet. Nem quando o meu pai foi preso político, encarcerado por presidir ao Sindicato dos Jornalistas, esteve completamente incomunicado. Até os fascistas permitiam que os presos, de vez em quando, falassem com a família. A PIDE fez-lhe a estátua, mas não se lembrou desta tortura”, escreveu o filho António Santos no referido artigo no blogue Manifesto 74.

Os primeiros casos de infeção no CBESQ foram noticiados sexta-feira, dia 22, quando três utentes, um deles António Joaquim Santos, e seis funcionários acusaram positivo ao novo coronavírus. Já no dia anterior, outra utente tinha ido ao hospital, por outros motivos, e também testou positivo. 

Perante os nove casos de infeção, o Centro teve de realizar testes de despistagem a todos os utentes e funcionários. Foi então que a diretora do CBESQ, Fernanda Braz decidiu, a partir de domingo, dia 24, que todos utentes tinham de ficar incontactáveis, para não “pegarem nos telemóveis, pois não se sabia ainda o grau de contágios e poderia aumentar a propagação do vírus”, justificou ao Contacto. “Foi a recomendação da nossa equipa de saúde”, e esta foi “uma medida temporária”, declarou, contando que a partir de hoje ficaria sem efeito. E os idosos poderia voltar a falar com as famílias.

"Falta de funcionários"

António Santos conta que “o próprio médico do Centro deu um parecer clínico de que o meu pai, devido à sua doença precisava dos nossos contactos, parecer que enviei à direção, mas foi ignorado”. Confrontada com esta informação, Fernanda Braz diz “desconhecer o parecer clínico” e se o tivesse visto “teria nesse caso dado autorização para os contactos dos familiares com esse utente”.

Também Isabel Moreira, cuja sogra está internada neste Centro, e também está infetada, embora seja assintomática, discordou totalmente desta medida e apoia António Santos. “Também me justificaram que era para prevenir o contágio, mas eu retorqui que um telemóvel desinfeta-se facilmente. De seguida, alegaram então, falta de funcionários para poder ter um deles dedicado aos telefonemas dos familiares, o que é injustificável”, conta esta nora.


Covid-19. 35 mortos nos lares do Luxemburgo desde o início da pandemia
Os idosos fazem parte do grupo de risco para a covid-19.

A sogra de Isabel Moreira não sofre de demência, pelo que terá tido melhor noção da quantidade de dias em que não pode falar com os filhos e a nora.  E ainda não pode receber os telefonemas deles, pois como "já vê muito pouco não consegue atender um telemóvel", pelo que os familiares têm de recorrer ao telemóvel do Centro. Na nota enviada pelo CBESQ aos familiares, a diretora informa que "para contacto com os utentes que se encontram em isolamento, será disponibilizado, brevemente, um novo número de contacto, quer seja para chamadas telefónicas ou para videochamadas". Segundo Isabel Moreira ainda não lhe enviaram nenhum contacto novo. “E continuo sem qualquer informação sobre a evolução do estado de saúde dela”, vinca. 

Medidas que pareciam "amadoras"

Isabel Moreira e António Santos notaram que à medida que a situação da doença foi piorando no lar, o CBESQ “foi ficando menos preparado para fazer frente ao surto”. “Houve certas medidas e atitudes que me pareceram amadoras e fiquei inquieta. Aliás, estou preocupada com os 14 dias de isolamento da minha sogra, se eles irão cumprir as regras e se os novos trabalhadores sabem cuidar destes idosos, pois é uma profissão que tem de ser aprendida”, confessa Isabel Moreira.

Ontem, o anúncio dos 32 casos de infeção neste Centro em Queluz foi feito pela Diretora Geral da Saúde, Graça Freitas, que declarou também que a partir de hoje iriam chegar a esta instituição mais 13 trabalhadores para reforçar as equipas de funcionários.


Covid-19. 4,8% das pessoas nos lares de idosos estavam contaminadas
A ministra da Saúde anuncia a estratégia de testes que será implementada.

Os doentes infetados irão ficar em isolamento 14 dias, todos eles no piso 1 do Centro, mas os idosos que não testaram positivo e que ficam no piso 2 já vão poder receber as visitas dos familiares a partir de dia 1 de junho. Uma visita por semana, e com todas as medidas de prevenção.

O surto da covid-19 já causou duas mortes de utentes deste Centro, que não sobreviveram à infeção. E, ontem, ao final da tarde, duas ambulâncias voltaram à instituição para ir buscar mais dois doentes, um deles, António Joaquim Santos, que necessitavam de ser internados. Já anteontem foi outro utente para o hospital.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.