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Portugal decreta luto nacional pela morte de Agustina Bessa-Luís

Portugal decreta luto nacional pela morte de Agustina Bessa-Luís

Foto: Twitter@António Costa
Portugal 5 min. 03.06.2019

Portugal decreta luto nacional pela morte de Agustina Bessa-Luís

Escritor José Viale Moutinho afirmou ao Contacto que "Agustina era a obra dela".

O governo português, por indicação do primeiro-ministro, António Costa, decretou na terça-feira um dia de luto nacional pela morte da escritora Agustina Bessa-Luís, hoje, aos 96 anos, no Porto, disse à agência Lusa fonte do executivo. O primeiro-ministro considerou que Portugal perdeu hoje uma das suas mais notáveis escritoras contemporâneas, salientando que a obra de Agustina Bessa-Luís constitui "uma imensa tela sobre a condição humana".

Numa nota de pesar publicada na rede social Twitter, António Costa apresentou as suas sentidas condolências à família e amigos de Agustina. "Portugal perdeu uma das suas mais notáveis escritoras contemporâneas. Como toda a grande literatura, a obra de Agustina Bessa-Luís é uma imensa tela sobre a condição humana, sobre o que temos de mais misterioso e profundo. Sentidas condolências à família e amigos", escreveu o primeiro-ministro.

Numa nota a que o Contacto teve acesso, o editor da autora de Sibila, Francisco Vale, informou que a escritora "faleceu esta madrugada, na sua casa da Rua do Gólgota, sobranceira ao rio Douro, no Porto. Tinha 96 anos e foi a maior romancista portuguesa e um dos nossos principais escritores de sempre. A morte, tão tranquila como a morte pode ser, ocorreu após mais de 10 anos de afastamento".

O editor sublinhou ainda que a Relógio D’Água, "em relação com a família de Agustina, o marido Alberto Luís, entretanto falecido, a filha Mónica Baldaque e a neta Lourença Baldaque, tem reeditado a sua obra desde junho de 2017" e garantiu que a editora "tudo fará para que a obra de Agustina esteja acessível aos leitores, o que inclui os livros esgotados ou há muito inacessíveis e também inéditos, entre os quais os seus primeiros contos e a correspondência com Juan Rodolfo Wilcock". A escritora, que nasceu em 15 de outubro de 1922, em Vila Meã, Amarante, encontrava-se afastada da vida pública, por razões de saúde, há cerca de duas décadas.


A teia musical de Agustina
Os inúmeros textos que Agustina dispersou pela imprensa caminham a par da obra literária como um vigoroso exemplo da sua capacidade de produzir a própria sensação do tempo, como se desse corda a um relógio revivescente. Um texto do jornalista e poeta Diogo Vaz Pinto, originalmente publicado no semanário Sol.

Escritores homenageiam Agustina Bessa-Luís 

Ao Contacto, o escritor José Viale Moutinho afirmou que o grande contributo à literatura portuguesa foi como narradora: "Temos aí a grande Agustina. Como pessoa, era espetacular. De uma simpatia extrema. A Agustina era a obra dela". No Facebook, o também jornalista dedicou-lhe uma homenagem enquanto "leitor e amigo". Viale Moutinho pediu que ninguém estranhe por não aparecer nas exéquias mas assumiu faltar-lhe "a força necessária para dizer adeus a alguém cuja genialidade" reconhece como "ímpar" e está comprovada "pela sua obra notável e pela memória dos momentos comuns".

Também a escritora Inês Pedrosa usou as redes sociais para deixar uma mensagem de homenagem. "Cada voz está só e é única e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa". Agustina Bessa-Luís. Leiam-na. Leiam-na mesmo". 

Outra das vozes que não quis deixar de recordar Agustina Bessa-Luís foi Patrícia Reis. "Poderia escrever sobre o tanto que me deu, o postal que me mandou quando publiquei o meu primeiro romance, as gargalhadas partilhadas, as histórias, a viagem que faríamos para a Ronda da Noite. Devo-lhe muito, devo-lhe tanto, tanto. Ela dizia que nascera velha e morreria criança. Ela dizia que nada disto é para se levar a sério. Ela possuía o dom de radiografar a essência dos outros. Ela, da ordem dos génios, deixou-nos hoje. Até já, Agustina, espero que encontre o seu Martinho a cirandar pelos ares do céu e que possam ter conversas felizes. Daqui lhe aceno com gratidão", publicou a escritora no Facebook.

A escritora Isabel Rio-Novo, autora da biografia de Agustina Bessa-Luís, considera que a "obra extraordinária" da autora "não morre hoje" e "continuará a ser lida e apreciada seguramente daqui por cem ou duzentos anos". "Enquanto leitora, enquanto biógrafa e pessoa que ainda teve o privilégio de poder conhecer pessoalmente sinto-me profundamente grata por uma obra extraordinária que não morre hoje", disse Isabel Rio-Novo à agência Lusa. A escritora, que publicou em janeiro a biografia "O Poço e a Estrada", sobre Agustina Bessa-Luís, recorda "uma obra inqualificável, extremamente prolífica, de uma forma de escrita e de uma forma de compreensão e de indagação da natureza humana absolutamente única no contexto da literatura portuguesa e mundial".

Isabel Rio-Novo disse ter conhecido pessoalmente Agustina Bessa-Luís no contexto de projetos de investigação, e recordou "toda a sua inteligência, o seu humor, a sua graça, cuja gargalhada cristalina era verdadeiramente contagiante".

O nome de Agustina Bessa-Luís saltou para a ribalta literária em 1954, com a publicação do romance "A Sibila", que lhe valeu os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queiroz, que constam de uma lista de galardões que inclui o Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores, em 1983, pela obra "Os Meninos de Ouro", e que voltou a receber em 2001, com "O Princípio da Incerteza I - Joia de Família".

A escritora foi distinguida pela totalidade da sua obra com o Prémio Adelaide Ristori, do Centro Cultural Italiano de Roma, em 1975, e com o Prémio Eduardo Lourenço, em 2015. No final da cerimónia da entrega do Prémio Eduardo Lourenço à autora, há pouco mais de três anos, o ensaísta Eduardo Lourenço afirmou que a obra da autora é "incomparável". Agustina é a "grande senhora das letras portuguesas", afirmou em declarações à Lusa.

Agustina recebeu ainda os Prémios Camões e Vergílio Ferreira, ambos em 2004, e o Prémio de Literatura do Festival Grinzane Cinema, em 2005.

Foi condecorada como Grande Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada, de Portugal, em 1981, elevada a Grã-Cruz em 2006, e o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, de França, em 1989, tendo recebido a Medalha de Honra da Cidade do Porto em 1988.

Bruno Amaral de Carvalho 

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