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Berardo entre favores e empréstimos
Opinião Portugal 2 min. 05.07.2021
Portugal/Crime económico

Berardo entre favores e empréstimos

Joe Berardo durante a visita de apresentação à imprensa do Museu Berardo Estremoz, dedicado ao azulejo, em julho de 2020.
Portugal/Crime económico

Berardo entre favores e empréstimos

Joe Berardo durante a visita de apresentação à imprensa do Museu Berardo Estremoz, dedicado ao azulejo, em julho de 2020.
Foto: Lusa
Opinião Portugal 2 min. 05.07.2021
Portugal/Crime económico

Berardo entre favores e empréstimos

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Este processo que terá Joe Berardo como figura central vai drenar directamente para o outro que sentará José Sócrates no banco dos réus.

A prisão de Joe Berardo resgata uma memória que me assombra há alguns anos: o madeirense foi um instrumento que José Sócrates usou, para aumentar a sua influência e poder, no sistema financeiro.

Com isto, não quero dizer que Berardo tenha sido vítima de alguém, ou de alguma circunstância. Pelo contrário, ele foi o “chico esperto” que, percebendo o que se estava a tramar, quis explorar a situação, em proveito próprio. O resultado de tudo isto está à vista - uma dívida impagável de mil milhões de euros a três bancos e uma ajuda decisiva na falência do BES.

Confiante no valor e influência das cumplicidades, Berardo foi ao Parlamento para responder à curiosidade e perplexidades dos deputados. Aí, tentou falar muito, com a preocupação de não dizer nada que jeito tivesse. Mas a sua esperteza foi insuficiente para driblar o Ministério Público, as Finanças e a Polícia Judiciária. As três entidades perceberam de imediato que aquele mato tinha coelho. Caçá-lo seria apenas uma questão de tempo.

Com o andamento dos processos e a chegada a julgamento, Berardo pode tornar-se no amigo tóxico de José Sócrates.

Este processo que terá Joe Berardo como figura central vai drenar directamente para o outro que sentará José Sócrates no banco dos réus. Na minha opinião, é quase óbvio que Berardo vai explicar como recebeu empréstimos da Caixa Geral de Depósitos, para comprar acções do Banco Comercial Português e assim alterar a estrutura accionista, para criar um novo poder dentro deste banco. Carlos Santos Ferreira, que era presidente da Caixa Geral de Depósitos à data do empréstimo, foi depois escolhido para presidir ao BCP. Também já foi constituído arguido neste processo e vai contribuir para se perceber melhor a trama. E com isso talvez se perceba também se houve ou não alguma leviandade de um Juiz de Instrução Criminal que ilibou José Sócrates de crimes que lhe eram imputados pelo Ministério Público.

Berardo foi o idiota útil à estratégia de poder de José Sócrates. Sempre foi um excelente exemplo do que de pior existe na sociedade portuguesa, lacerada por um capitalismo parasitário que cria fortunas, sem gerar riqueza. Com o andamento dos processos e a chegada a julgamento, Berardo pode tornar-se no amigo tóxico de José Sócrates, ao revelar segredos que as amizades já não conseguem guardar.

O escândalo pode ser muito maior, do que se pensa. Imaginem o que irá acontecer, quando Berardo contar em tribunal, pormenores de um empréstimo que a Caixa lhe concedeu, no montante de quase quatro milhões de euros. Dinheiro destinado a pagar à própria Caixa, juros vencidos, de outros empréstimos.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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