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Portugal. 290 queixas de abusos sexuais na Igreja, algumas chegaram do Luxemburgo
Portugal 4 min. 12.04.2022
Investigação

Portugal. 290 queixas de abusos sexuais na Igreja, algumas chegaram do Luxemburgo

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Portugal. 290 queixas de abusos sexuais na Igreja, algumas chegaram do Luxemburgo

Portugal 4 min. 12.04.2022
Investigação

Portugal. 290 queixas de abusos sexuais na Igreja, algumas chegaram do Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Em três meses, a Comissão independente que investiga os abusos sexuais na Igreja Católica Portuguesa validou quase 300 testemunhos, entre eles os de portugueses a viver no Grão-Ducado. Se foi vítima denuncie “sem medo”, pede a comissão. Saiba como o pode fazer.

A Comissão independente para o estudo dos abusos sexuais a menores na Igreja Católica Portuguesa recolheu 290 testemunhos válidos desde janeiro, quando iniciou a investigação, anunciaram hoje os seus membros numa conferência de imprensa em Lisboa. 

Destas 290 denúncias feitas pelas vítimas, 16 casos vão ser investigados pelo Ministério Público, por não terem prescrito os prazos. A Comissão garante o anonimato dos testemunhos que podem ser feitos por telefone, email e carta à Comissão (veja mais à frente como o pode fazer). 

“Estes testemunhos recolhidos são apenas a ponta do icebergue, seguramente existem muitos mais casos, por isso, apelamos às vítimas que nos dêem o seu testemunho, não só pelo efeito psicológico reparador da dor do silêncio, mas também para prevenir outros abusos”, pede Daniel Sampaio, psiquiatra e um dos membros desta Comissão, num apelo dirigido também aos portugueses residentes no Luxemburgo e noutros países da Europa. 

As queixas à Comissão, coordenada por Pedro Strecht, não chegam só de Portugal, mas também de portugueses residentes noutros países, nomeadamente no Grão-Ducado. 

 Sofrimento de décadas

“Mais de metade das vítimas contam que não são caso único, que souberam de outras crianças e adolescentes também abusadas”, na altura, vinca ao Contacto este psiquiatra. A maioria dos abusos agora revelados ocorreu há décadas, mas também continuam a existir situações mais atuais, cujos prazos não prescreveram e são enviadas para o Ministério Público, para serem alvo de investigação criminal.

“O meu apelo direto é que testemunhem, e se conhecerem uma situação que não o afete a si próprio, mas desta natureza, que a denunciem à nossa Comissão. Temos alguns casos que são verdadeiras denúncias e que foram encaminhadas para o Ministério Público para serem investigadas”, diz Daniel Sampaio.  

Os membros da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica, Laborinho Lúcio (E), Ana Nunes de Almeida (2-E), Pedro Strecht (C), Daniel Sampaio (3-D), Filipa Tavares (2-D), e Catarina Vasconcelos (D), na conferência de imprensa desta terça-feira, em Lisboa.
Os membros da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica, Laborinho Lúcio (E), Ana Nunes de Almeida (2-E), Pedro Strecht (C), Daniel Sampaio (3-D), Filipa Tavares (2-D), e Catarina Vasconcelos (D), na conferência de imprensa desta terça-feira, em Lisboa.
LUSA

O psiquiatra realça a possibilidade de alguns destes agressores sexuais ligados à igreja ainda estarem no "ativo e continuarem o seu comportamento de abusador, porque sabemos que muitas vezes este é um comportamento compulsivo e tem tendência para a repetição”. A denúncia pode, assim, salvar vítimas.


O sofrimento dos emigrantes no Luxemburgo que foram vítimas de abusos sexuais na Igreja em Portugal
A Comissão Independente que está a estudar os abusos sexuais a crianças por padres e membros da Igreja Católica em Portugal desde 1950 recebeu 214 testemunhos no primeiro mês de trabalho. Alguns chegaram do Grão-Ducado.

 Um trauma para a vida

“Os abusos sexuais sofridos, na infância e adolescência deixam marcas para toda a vida”, vinca o psiquiatra. Todos os testemunhos que nos chegam confirmam a grande repercussão que uma situação de abuso sexual tem no desenvolvimento psicossocial das vítimas, da sua vida pessoal, afetiva e sexual, e na organização da vida inteira”, acrescenta este especialista. 

“Há casos em que influenciaram a vida de uma forma devastadora”, frisa Daniel Sampaio, realçando que a revelação de tais situações, mesmo décadas depois, traz finalmente uma certa tranquilidade a estas vítimas.

Há que “dar voz ao silêncio” de todos quantos passaram por uma situação destas que “é sempre traumática” pelo que esta comissão independente está empenhada em criar um “movimento cívico, social” para a revelação dos casos ocorridos na Igreja Católica e para a sua prevenção. Para Daniel Sampaio, a colaboração da Igreja é fundamental. 

O psiquiatra Daniel Sampaio, membro da Comissão independente, apela às vítimas para darem o seu testemunho.
O psiquiatra Daniel Sampaio, membro da Comissão independente, apela às vítimas para darem o seu testemunho.
LUSA

“A nível pessoal, considero que a Igreja Católica se deveria empenhar mais  ativamente nesta questão, é preciso que os bispos e padres apelem nas missas ao testemunho das vítimas. Não estamos contra a Igreja, fomos mandatados pela Igreja para este estudo e precisamos da colaboração da Igreja, mas sinto que há um silêncio grande por parte da Igreja que deve promover também esta investigação”, declara o psiquiatra. 


Se foi vítima de abuso sexual na Igreja dê o seu testemunho "sem medo"
O apelo é feito por uma comissão que está a estudar estes abusos na Igreja Católica, em Portugal, desde 1950 até hoje. Já houve mais de 100 denúncias, algumas de emigrantes. O relato por telefone ou email pode reparar anos de "sofrimento silencioso".

Os trabalhos da Comissão, que estuda os abusos na Igreja desde 1950 até aos dias de hoje, continuam a avançar e a par com os relatos vai iniciar-se agora o levantamento dos abusos nos arquivos das dioceses, uma componente fundamental para saber com a maior exatidão possível qual a dimensão destes crimes na igreja portuguesa. 

Um trabalho realizado por uma equipa da Universidade do Minho, coordenada pelo professor de História Francisco Mendes.

 O apoio do Presidente Marcelo

O próprio Presidente da República vai dar o seu contributo para o desejado "dinamismo social e cívico" sobre este problema. Marcelo Rebelo de Sousa estará presente numa conferência promovida pela Comissão independente no próximo dia 10 de maio, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. 

O evento conta ainda com a presença do “delegado do Papa Francisco” na promoção da proteção e prevenção do abuso sexual, trata-se do padre jesuíta Hans Zollner, teólogo e psicólogo que tem participado em conferências pelo mundo. Na conferência de Lisboa este especialista vai abordar o panorama geral das investigações sobre os abusos na igreja Católica realizados em vários países, como França, Alemanha, Espanha ou Irlanda.


O inferno de Christian Faber abusado por um padre em criança no Luxemburgo
Christian Faber foi violado em criança durante anos num internato religioso por um capelão em Grevenmacher. Agora decidiu contar o horror vivido. Luta pela justiça em nome de todas as vítimas, através de uma investigação independente. A arquidiocese não é contra.

Coordenado pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, a comissão é composta pelo psiquiatra Daniel Sampaio, o antigo ministro da Justiça Álvaro Laborinho Lúcio, a socióloga Ana Nunes de Almeida, a assistente social e terapeuta familiar Filipa Tavares e a realizadora Catarina Vasconcelos.

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