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Porto. A aventura dos trabalhadores da Cervejaria Galiza
Portugal 7 11 min. 08.01.2020 Do nosso arquivo online

Porto. A aventura dos trabalhadores da Cervejaria Galiza

Porto. A aventura dos trabalhadores da Cervejaria Galiza

Foto: Rui Oliveira
Portugal 7 11 min. 08.01.2020 Do nosso arquivo online

Porto. A aventura dos trabalhadores da Cervejaria Galiza

Os 30 funcionários bateram o pé e ocuparam o seu trabalho, uma onda de solidariedade por parte dos clientes e o recuo da decisão do encerramento da casa.

Segundo dia do ano, é final da tarde, mas já há algumas mesas ocupadas. A cara dos trabalhadores da Cervejaria Galiza não engana, o cansaço faz-se notar nas olhos sombreados por olheiras bem marcadas. Um casal pede francesinha, prato habitual da casa. O ano ainda agora começou, mas já se respira de alívio.

"Acabámos o ano bem, com alguma dificuldade causada pela enorme enchente. Houve um grande esforço, mas chegámos ao final da noite com o ano bem acabado. As contas estão em dia", conta com ânimo António Ferreira, um dos membros da nova comissão de gestão que foi obrigada a arregaçar as mangas e tomar conta da navegação de um navio que se preparava para afundar. "Hoje mesmo fui saber como estava a nossa situação de seguro de acidentes pessoais, uma vez que caducou no dia 30 de dezembro, vamos pagar agora para ver se o pessoal consegue estar todo coberto", conta enquanto se senta à mesa, antes de se preparar para entrar ao serviço. "Hoje pude finalmente descansar um bocadinho".

Com os fornecedores não há dívida: "tudo que comprámos foi a pronto e em mês e meio pagámos subsídio de natal de 2018, mês de outubro, mês de novembro, subsidio de natal de 2019 e o mês de dezembro. Tudo liquidado". Antes que deixe a frase ecoar, acrescenta "é evidente que ainda temos o problema do IVA e da Segurança Social. Conseguimos que o contabilista já emita recibos de vencimento e, portanto, participe à Segurança Social o mês de outubro e novembro, coisa que não estava a ser feito. O mês de dezembro penso que também vai ser processado agora. Em relação à dívida ao Estado, é um processo que ainda decorre e não sabemos como vai ser".

António Ferreira nasceu em Massarelos, no Porto, há 57 anos. Mais de metade da sua vida foi dedicada a trabalhar na Cervejaria Galiza. "Nasci aqui à cerca de 600 metros, estudei na Gomes Teixeira, lembro-me perfeitamente da inauguração da Cervejaria. Vim para cá ainda jovem, em 1980". Três anos depois, foi tentar mudar de vida. Tentou "ser vendedor”, mas "a falta de jeito" determinaria o regresso à cervejaria em 1987. O meu filho tem 33 anos, precisamente os anos que tenho de casa, mas há um colega com 42 anos de casa, outro 40, alguns 38, outros 36". "Há toda uma vida aqui dentro" diz ao Contacto enquanto olha para o balcão. As francesinhas estão prontas a servir, mas ainda não chegou a sua hora de entrar ao serviço.

É precisamente a familiaridade com a casa e a revolta com a atitude da anterior gestão que o fez dar um passo em frente quando foi necessário eleger três pessoas para assumirem a nova comissão. "Senti mesmo raiva, pela falta de respeito, nem uma carta, não nos disseram nada". Aquilo que descreve como "uma grande aventura", começou no dia 11 de novembro quando se levantou de manhã "com a pulga atrás da orelha". Diz ter sentido "um feeling" que o levou a fazer vigilância à casa durante todo o dia. "Não nos apercebemos de nada. Entretanto, por volta das nove horas, contei a um colega que estava com a sensação que podia acontecer alguma coisa e ele prontificou-se, pelo menos enquanto eu ia jantar, de ficar por aqui". Porém, o vigilante em turno teve de deslocar-se a casa e "terá sido precisamente nesse espaço temporal que entraram cá e começaram a levar as coisas com as luzes de cima apagadas".

Terá sido já por volta das 21 horas que o colega passou pelo estabelecimento e alertou António. "Eu por acaso já estava a caminho e chamei logo a polícia, liguei ao sindicato que por sua vez chamou as televisões, avisei os colegas todos e a partir desse momento, desencadeou-se esta aventura". António não parece cansado de repetir esta história, porém garante que nada disto alguma vez lhe havia passado pela imaginação.

"Confrontámos as pessoas e elas preparavam-se para encerrar o estabelecimento, tinham o fogão, fornos e todos os haveres desde vinhos a produtos, tudo já em caixas, inclusive todo material de escritório. A partir do momento que nós tomámos conta da situação, não deixámos que saísse nada", afirma de forma assertiva.

Os únicos que puderam abandonar o estabelecimento, foram os trabalhadores que haviam sido contratados pela entidade patronal apenas para carregar os materiais. Terá sido nesse momento que Delfina Amaral, de 87 anos, sócia-gerente da Cervejaria Galiza terá chamado a advogada. Já com o sindicato e a polícia no local, os cerca de 30 trabalhadores impuseram-se garantindo que não sairiam dali, nem deixariam que levassem nada. "Entretanto a advogada chegou, tentou que nos pusessem lá fora. Porém, a polícia disse que tratando-se de um problema laboral, não havendo violência e sem ninguém ter partido nada, teríamos de entrar em conversações".

E foi isso mesmo que aconteceu. Nuno Coelho, do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares diz que o caso é insólito por "terem sido os trabalhadores a conseguir que a empresa recuasse no fecho do estabelecimento". "Depois de quatro horas de conversação, foi proposto à sócia gerente que se criasse a comissão de gestão que assegurasse o funcionamento do restaurante. Ela aceitou".

Segundo António Ferreira, numa primeira fase Delfina Amaral terá nomeado três chefes, mas estes recusaram. "Então perguntou-se se havia voluntários". António, juntamente com Luís Barbosa, também empregado de mesa, e Carlos Carneiro, do 'grill' dariam o primeiro passo no compromisso de levar em diante esta história, todos eles com experiência no mundo sindical, mas sem qualquer experiência em liderança ou gestão de estabelecimentos. "Andei a vida toda a lutar pelos outros, agora chegou a vez de lutar por mim", conta António.

"Tivemos logo de tomar decisões, algumas delas em cima do joelho". A primeira medida foi voltar a montar todos os materiais e limpar o espaço, para que a cozinha estivesse pronta a funcionar às oito da manhã.

Não havia dinheiro em caixa e por isso fizeram um levantamento de stock para trabalhar com os pratos do dia. "Com esse pouco dinheiro, ao fim da noite já conseguimos adquirir alguns produtos, conseguimos contactar alguns fornecedores e felizmente todos eles se dispuseram a ajudar-nos. Todos eles têm alguma dívida". A partir de então, tudo que entrasse era pago a pronto, "nem havia outra forma de gerir isto", garante, "a partir desse dia começaram a fornecer-nos".

A faturação chegou a triplicar graças a uma maré de solidariedade movida pela comunicação social, os partidos PCP e Bloco de Esquerda e o sindicato: "os partidos nessa semana chegaram a trazer 300 pessoas", garante António. "Foi muito importante para dar o primeiro impulso, para poder gerar dinheiro em caixa e começar realmente a pôr a casa a 100%".

Sem folgas, com turnos de vigia ao espaço durante a noite e casa sempre cheia, a liderança da equipa de cerca de 30 funcionários foi fundamental, mestria nova para os três mosqueteiros em serviço. "O espírito de equipa foi um espírito de união inicialmente, mas agora faz sentir-se um grande desgaste psicológico e físico e há alguns atritos para gerir. Seria uma coisa para durar duas ou três semanas, já vai quase em dois meses, muito cansativo". Durante a noite, a vigia do espaço era imprescindível. Chegaram a ficar quatro a cinco pessoas ao mesmo tempo, organizavam-se as coisas para o dia seguinte. Não havendo onde dormir, aproveitava-se para trabalhar.

Há 36 anos a trabalhar

É também nesse período de vigília que Luís Barbosa consegue organizar a faturação. Membro da comissão de gestão, nunca teve outro local de trabalho em toda a sua vida. Natural de uma aldeia em Viseu, ia fazer 15 anos quando se mudou para o Porto. O irmão que já trabalhava na cervejaria há três anos, sorri atrás do balcão enquanto vê Luís a falar ao Contacto. "Vim para trabalhar na Galiza e estou cá há 36 anos, desde 1983".

De Cabril de Castro Daire diretamente para a rua do Breyner, conta que quando chegou ao Porto foi um choque: "como éramos da aldeia, tínhamos pronúncia, havia um certo gozo. Chamavam-me 'o miúdo'. Uma vez um estudante de arquitetura fez-me uma caricatura muito gira, que ainda tenho guardada. Era um mundo completamente diferente do nosso". Os olhos brilham quando fala da Cervejaria Galiza, "nos anos 80 isto às cinco da tarde já estava cheio". Esse carinho à casa fez com que nunca deixasse a cervejaria, nem mesmo para estudar. Já adulto, saía do trabalho às duas da manhã e às nove ia para o Liceu Inês de Castro, em Gaia, para estudar. Fez várias formações, estudou na escola de hotelaria, e também terminou o 9º ano.

Sobre a situação diz que já se iam apercebendo do declínio, não foi propriamente uma surpresa. "O momento foi muito forte, as pessoas estavam unidas e tinha mesmo de ser. Se calhar nós gostamos mais da casa que a nossa patroa". Luís diz que a atmosfera agora está saturada, há ansiedade e incerteza, "não se sabe ao certo o que é que nos espera, se alguém vai assumir a responsabilidade, se isto vai mesmo ao fundo. Não sabemos." Diz que os clientes são a grande motivação. "Dão-nos muita força". Gaba-se com timidez do facto de nunca ter recebido uma reclamação do seu serviço por parte de um cliente e garante que são as pessoas que visitam a cervejaria que lhe enchem a alma.

Recentemente fez um curso de Excel, mas nem sonhava que lhe ia dar tanto uso. "Agora sou eu quem faz as contas, as faturas que me entregam, eu lanço, e depois todas as contas são fotocopiadas três vezes. Um para o Ministério do Trabalho, outro para o sindicato e outra para nós". Mostra ao Contacto a quantidade de papéis com que lida todos os dias. "São mesmo muitos papéis”.

A filha do polícia

Quem tem dado uma ajuda no trabalho da organização da papelada é Margarida Sousa, que se orgulha de ter nascido no Porto há 63 anos. Veio para a Galiza há 16 anos e tornou-se logo chefe de copa, onde trabalha sozinha desde que os seus dois colegas se despediram devido à degradação que tinha caído a casa. "Isto foi muito complicado, muito complicado. Desde o dia 11 para cá que fico aí de noite a guardar isto, se isto um dia fecha as portas tenho pena, tenho mesmo muita pena. Gostava de ir um dia com a reforma mas isto manter-se aberto, que é uma casa que eu gosto".

Enquanto exemplifica o método de organização e arruma tudo de forma ágil, sem papas na língua afirma que não vai deixar de bater o pé perante esta situação e orgulha-se de ter dado sempre conta do recado. "Tivemos a casa completamente cheia e eu estive sempre aqui sozinha. Também já fiquei sozinha à noite e não tenho medo, sou filha de polícia". Foi a única das poucas mulheres que trabalham na cervejaria que ficou a guardar a casa. "Não são unidas assim e mesmo do resto dos homens, só quatro ou cinco é que cá ficavam a guardar isto". Margarida antes de dominar a copa da Galiza era comerciante, mas com pesar diz que "as grandes superfícies levaram tudo à frente, tenho dois gémeos tinha de trabalhar". Hoje, com casa paga e "muitos descontos feitos", garante que já podia estar na reforma mas agora não arreda pé dali. "Infelizmente perdi o meu marido há seis anos, até tenho um bocadinho da reforma dele também, eu podia ir embora, meter os papeis para a reforma e ia. Mas agora estou nesta luta e quero mesmo que isto fique aberto. Não vou desistir".

Ana B. Carvalho


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