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Já posso ir ao banco?
Opinião Portugal 3 min. 22.06.2021
Plano de Recuperação e Resiliência português

Já posso ir ao banco?

A presidente da Comissão Europeia, von der Leyen, e o primeiro-ministro, António Costa, após a aprovação do Plano de Recuperação e Resiliência para Portugal.
Plano de Recuperação e Resiliência português

Já posso ir ao banco?

A presidente da Comissão Europeia, von der Leyen, e o primeiro-ministro, António Costa, após a aprovação do Plano de Recuperação e Resiliência para Portugal.
Foto: AFP
Opinião Portugal 3 min. 22.06.2021
Plano de Recuperação e Resiliência português

Já posso ir ao banco?

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
António Costa fez a piada mais reveladora que poderia existir sobre um subconsciente, e nem foi apenas do dele; naquele momento, toda a velha portugalidade colectiva ficou ali pasmada no improviso excitado do primeiro-ministro do país.

"Com uma brincadeira vai-se dizendo a verdade", disse Freud em 1928 no seu livro "O humor e a sua relação com o subconsciente". Se a piada está estruturada como uma formação do inconsciente, torna-se uma via para que se manifestem sentimentos que, por não serem bem vistos pela sociedade, são recalcados; o humor funciona assim como álibi de alguma verdade do ego, revelada de forma surpreendente e fugaz e seguida do alívio de uma risada.

António Costa fez a piada mais reveladora que poderia existir sobre um subconsciente, e nem foi apenas do dele; naquele momento, toda a velha portugalidade colectiva ficou ali pasmada no improviso excitado do primeiro-ministro do país. A cena descreve-se rapidamente: a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, entregou ao chefe de governo um documento simbólico que assinala a aprovação do seu Plano de Recuperação e Resiliência – o nome que designa a "bazuca" europeia contra a crise e que, no caso de Portugal, significa a bela quantia de 13,9 mil milhões de euros em subvenções da União Europeia (além de 2,7 mil milhões em empréstimos).

A intenção de Ursula não era realçar diferenças culturais, reavivar estereótipos nem muito menos aumentar a clivagem Norte-Sul que tanto corrói a Europa. As suas curtas palavras de circunstância, pensadas para os microfones e as câmeras presentes, foram de solidariedade, de encorajamento. Consciente de que o dinheiro é apenas um instrumento e que ainda nem começamos a percorrer o estreito caminho da reconstrução, a alemã terminou com a frase "há muito trabalho pela frente"; ideia lógica, factual, indiscutível. Vorsprung durch Technik.

Para a mentalidade do facilitismo, importa é existir um qualquer banco de onde chova dinheiro fácil, que o trabalho pela frente dá muito trabalho.

Só que isto é o Sul... e mal a alemã falou em "trabalho", o português riu-se; e quando Von der Leyen em seguida tentou um "obrrrrigada", Costa (não era ele quem era suposto dizer "obrigado"?) interrompeu-a com o único assunto que verdadeiramente lhe interessava de todo aquele relambório: "Já posso ir ao banco?". 

Era uma piada, claro. Uma piada sem qualquer graça, feita por um habitante da saudosista Lisboa, antiga capital do império, subconsciente cheio de séculos acumulados de vivência à custa de riquezas alheias: do cravinho da Índia aos escravos da Nigéria, do ouro do Brasil aos diamantes de Angola, dos têxteis, sapatos e vinho nortenhos até aos fundos de coesão vindos de Bruxelas. Para a mentalidade oca do facilitismo, importa é existir um qualquer banco de onde chova dinheiro fácil, que o trabalho pela frente dá muito trabalho; a missão era obter a bonança, e essa está terminada. Agora é assegurar a reeleição, distribuir o grosso pelos amigos, umas migalhas na reforma do país, e desperdiçar o resto. Até o presidente do Tribunal de Contas, durante a conferência conjunta com o TdC europeu realizada hoje mesmo, o admitiu: "Onde há muito dinheiro público, há riscos de corrupção".

Mas não tem de ser assim, não deve, não pode ser assim. Para a UE, estes milhões representam um enorme esforço no sentido da recuperação e fortalecimento. Para Portugal é ainda mais urgente: o PRR é mais uma oportunidade, quiçá a última, de tirar o país do marasmo e fazê-lo progredir até à modernidade. Teoricamente, o plano nacional é prometedor, com investimentos ao longo de seis anos no serviço de saúde, na transição ecológica e energética, na economia digital; cumpramo-lo! Há mesmo muito trabalho pela frente.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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