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Vai de férias? Saiba tudo o que mudou com a covid em Portugal
Portugal 6 min. 26.06.2022
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Vai de férias? Saiba tudo o que mudou com a covid em Portugal

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Foto: dpa-tmn
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Vai de férias? Saiba tudo o que mudou com a covid em Portugal

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Vai de férias? Não é negacionista, mas tem mais em que pensar do que o raio da pandemia? Aqui fica alguma informação que parece desnecessária, mas não é. Não é um guia. Mas podia.

Três vacinas, 6,2 milhões de mortos em todo o mundo (quase 24 mil de nacionalidade portuguesa), sabe Deus quantas conferências de imprensa com linguagem gestual depois, já deve ser possível concluir cientificamente que a pandemia, no seu jeito medieval de ser, fez trinta por uma linha da Humanidade. Um dia, já lá vão dois anos e picos - uma das palavras que abriu caminho no neo-léxico pandémico, tal como confinamento, ventilador, comorbilidades e, claro, coronavírus (nem vale a pena falar em contágio) -, as cidades encheram-se de vazio, os céus de pássaros, as casas de gente. Nunca as famílias estiveram tão unidas (que remédio) e, por força dos isolamentos que se tornaram política de saúde, nunca tão separadas. 

As pessoas reaprenderam a partilhar aposentos retornando à ancestral arte de fazer carcaças, observando vagarosamente as alterações climáticas enquanto a Bimby exercia a sua magia. Às vezes parecia que o tempo não tinha qualquer tipo de poder, noutras, o peso de mil civilizações.  

A Covid-19, tal como as suas sequelas, muitas ainda por descobrir, deixou marcas profundas nos lugares, nas pessoas, nos hábitos e dinâmicas sociais. Mal o comércio pôde retirar a máscara da pré-falência, nasceram mais esplanadas do que cogumelos. Há locais de Lisboa, como é exemplo acabado a rua D. Pedro V, uma das mais movimentadas da capital de dia ou de noite, onde as esplanadas aglutinaram os passeios e estacionaram na estrada. Para quem passe de carro, em posição de pendura, quase que é possível colocar canela nos pastéis-de-nata que os turistas incautos deixam sobre as mesas em adoração, como se rezassem aos deuses do colesterol. Em muitos pontos de Lisboa, assim como de muitas cidades portuguesas, as esplanadas tornaram-se anexos rodoviários. Há esplanadas por toda a parte, em cada recanto possível e imaginário. 

A propósito deste tema, ainda no outro dia alguém delirava que a EMEL já estava a ponderar bloquear algumas esplanadas mais atrevidas, que começam a concorrer com os lugares de estacionamento. Em Lisboa, as esplanadas começam a ser casos de polícia, mas não exactamente por esse motivo. Recomendação: as máscaras dão muito jeito aos típicos carteiristas de Lisboa, que têm o seu código de honra e em geral não roubam de esticão. Há na cidade uma nova estirpe de ladroagem, dito pelo dono de uma esplanada, que ataca de forma fulminante as carteiras ou o dinheiro das mesas das esplanadas. Convém não as deixar à mão de semear. 

Pode ser que se leve algum tempo a recuperar o velho hábito das beijocas com que as mulheres cumprimentam as mulheres e os homens cumprimentam as mulheres, assim como o tradicional "bacalhau" com que eles se cumprimentam a eles ou até a elas, quando a ocasião é formal. Quanto mais não fosse por causa das máscaras, de si um artigo que se instalou nos nossos hábitos como uma segunda demão, corre-se sempre o risco da mítica luz de Lisboa fazer das suas, deixando na pele um indesejável bronzeado de açaime, quase tão dissuasor do beijo como a própria máscara. De qualquer maneira, as pessoas perderam o hábito do duplo beijo de cumprimento, sendo um processo menos fastidioso para os queques (não confundir com os bolos), que só tiveram de abdicar de um. Houve uma fase em que os cotovelos eram uma espécie de zona franca do corpo. Para não se tornar absolutamente desagradável uma pessoa cumprimentar sem se cumprimentar, as pessoas acotovelavam-se na rua a toda a hora.

Para quem vive em Lisboa, convenhamos que não custou assim tanto, embora a generalidade dos lisboetas estejam mais habituados a acotovelar-se para driblar as constantes horas de ponta. Quando já não havia mais a discutir em relação à pandemia, os epidemiologistas e os especialistas de toda a sorte que emergiram no espectro mediático Covid-19, discutiam essa coisa de roçar os cotovelos, como se discutissem os prós e contras de sexo sem compromisso, outra coisa que, a par da especialidade de "swing", se tornou menos frequente em tempos de pandemia. Mais ou menos quando se descobriu que, afinal, o eterno novo coronavírus era "airborn", acabou-se o regabofe dos cotovelos, devido aos riscos de transmissibilidade. Não foi complicado, o gesto não saia com níveis mínimos de naturalidade. Não sem as inerentes questões científicas, instituiu-se definitivamente o leve choque de dedos em punho fechado, como uma colisão do PS com o Partido Socialista.


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O tempo que se permanece dos sítios também mudou. Já não é propriamente um hábito permanecer fora ou indoors no tradicional "ad aeternum", do pequeno-almoço à hora de fechar. As grandes vagas de turismo estão de regresso a Lisboa, tudo é lento, tudo é apressado. As sardinhas voltaram a ser "sardines", as velharias voltaram a ser "vintage", tudo voltou ao estado "very typical". Por amor da santa, não se ponha a respirar fundo em frente ao Tejo, não vá engolir uma lufada de poluição de uma daquelas cidades flutuantes que fazem saltar as ameijôas em Vila Franca. Nas praias, tudo normal, incluindo as tarifas de estacionamento, que estão ao preço do óleo, e os CR7 que continuam à beira-mar, a dar  boladas à malta. A última vez que foi avistado um "arrastão" foi na época balnear pré-pandémica, para os lados de Carcavelos. Já desapareceram das praias portuguesas as máquinas de contar gente, assim como os limites de lotação e o espaço aconselhável entre-toalhas. A velha instituição portuguesa do tudo ao molho e fé em Deus está de volta às areias.

Se o calor estiver insuportável, os cinemas, que às moscas ficaram quando eclodiu a pandemia, às moscas permanecem, e continuam a ser uma refrescante opção. Os "tuk-tuk" estão de volta e os condutores TVDE conseguiram adquirir em poucos anos os vícios "very typical" dos taxistas, só para avisar. As bicicletas e as trotinetes eléctricas já são mais do que as esplanadas. Não se ponha a tirar "selfies" em andamento. Tanto pode cair de uma, como tropeçar noutra. Nos transportes públicos, embora não haja já a obrigação do uso de máscara, há ainda muito quem a use preventivamente. 

Essa obrigação permanece obviamente em todas as instituições de saúde, algo que, até por questões de saúde mental, é de evitar. A propósito: se está grávida e para lá do sétimo mês de gestação, antes de viajar para Portugal, é capaz de não ser má ideia um workshop de partos "a la maison". Se vier de férias, não tem qualquer interesse o facto de o teletrabalho se ter transformado em algo para ficar. Já não é o primeiro que se vê a trabalhar numa dessas esplanadas que por aí andam. Outra coisa: se usar máscara, eh pá, não beba.

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