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Pedrogão Grande foi há três anos
Comentário Portugal 2 min. 18.06.2020

Pedrogão Grande foi há três anos

Pedrogão Grande foi há três anos

Foto: Lusa
Comentário Portugal 2 min. 18.06.2020

Pedrogão Grande foi há três anos

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Esta quarta-feira, 17 de junho, assinalam-se três anos sobre a tragédia que se abateu sobre Pedrogão Grande, e que viria a estender-se até Castanheira de Pera. Sobre a consciência de todos nós, deixou o peso de 66 mortes e um rol incontável de desgraças.

Recordo bem aquele dia. O ar pesado era irrespirável, a mais de 40 quilómetros de distância, na Figueira da Foz, onde eu estava a passar um fim de semana. Tive de desistir da minha caminhada habitual. Porque o sistema cardio-respiratório indiciava que qualquer coisa de anormal se estava a passar

Depois de uma passagem por um restaurante para um almoço frugal, regressei a casa. Nessa altura, já aquela medonha vaga de fumo se estendia pela orla marítima. Muita gente abandonava a praia, especulando exaltadamente sobe o fenómeno. Em casa, espequei-me em frente da televisão e as notícias começaram a resolver as minhas dúvidas. A tragédia era imensa e não parava de aumentar.

O desespero era enorme, a tal ponto que dezenas de pessoas, na tentativa de fugirem aquele inferno de fumo e labaredas, se aventuraram por uma estrada que o bom-senso dizia que devia estar fechada ao trânsito. Devia, mas a incúria nunca apurada de alguém deixou-a aberta, tanto para o fogo, como para os carros que tentaram escapar por ali. As contas da tragédia são impressionantes: só naqueles 400 metros de estrada florestal morreram 47 pessoas, carbonizadas pela impiedade do fogo.

Nestes três anos, tenho vivido sempre em hospitais. Só quero que me tirem as dores. Sabe o que é viver há três anos com o corpo cheio de dores?

Noutros locais e em circunstâncias diferentes, o fogo dizimou mais 19 pessoas. O número de feridos graves é incontável. Um deles, por exemplos, já fez 26 operações cirúrgicas, para recuperar qualquer coisa do corpo que o fogo lhe quis roubar. Ocasionalmente, conheci-o, há semanas, num hospital - pois em que outro local podia ser? - e desabafou comigo o seu desespero. "Nestes três anos, tenho vivido sempre em hospitais. Só quero que me tirem as dores. Sabe o que é viver há três anos com o corpo cheio de dores?".

Suponho que seja um calvário, que nos aproxima mais da morte. Há vidas por aquelas bandas que nunca mais voltam a sê-lo. Ainda hoje não passam nos locais onde perderam familiares. E quanto mais o tempo se esgota, mais difícil é reencontrar a coragem que permita enfrentar os despojos da tragédia.

Todos nós devemos muito àquela gente, mas não sabemos como vamos pagar. A dívida parece impossível de saldar. E o Estado é quem mais deve, mas tenta desculpar-se com a estupidez de um poder local aberrante que confunde a coisa pública, com os seus interesses egoístas. Falo de um presidente de Câmara que, estranhamente, ainda se mantém em funções.

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