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Pedro partido

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Foto: Reuters
Editorial Portugal 3 min. 16.07.2018

Pedro partido

Sergio Ferreira Borges
Sergio Ferreira Borges
A análise de Pedro Santana Lopes está errada, porque ele confunde os seus desejos com a realidade.

Pedro Santana Lopes fez, há dias, uma declaração enigmática, dizendo que abandonava toda a atividade partidária, dentro do PSD, mas não se demitiu. Seguiram-se os rumores de que iria, finalmente, fundar o seu partido.

Acredito que ele se afaste do seu partido, mas não será um adeus definitivo. Tal como noutras vezes, à primeira oportunidade ele estará de regresso, sobretudo se vislumbrar alguma possibilidade de conseguir disputar a liderança. Esta minha convicção radica naquilo que tem sido a vida política de Santana Lopes.

No último fim-de-semana, Pedro Santana Lopes fez uma declaração a um jornal, admitindo que quer “disputar eleitores à direita” e tem pressa em fazê-lo. Quer, portanto, ter o seu próprio partido pronto para disputar as próximas eleições legislativas, marcadas para o outono de 2019. De facto, não pode esperar muito, porque completa, dentro de dias, 63 anos e a idade começa a pesar.

Na sua análise, parte de pressupostos erradíssimos. Primeiro, ele acha que a geringonça não conseguirá concluir a legislatura, derrubada pelas contradições entre os partidos que a sustentam sobre o Orçamento do Estado para 2019. Suportado por este erro, parte para outro: nessa circunstância, António Costa e Rui Rio estão disponíveis para um novo bloco central, solução que não agrada a muita gente do PS e, sobretudo, do PSD.

Se as coisas fossem assim, como ele deseja, haveria espaço para o aparecimento de um tal Partido Social Liberal com o acrónimo de PSL, tal como o do seu próprio nome.

Mas a realidade é diferente. Os partidos da geringonça podem chegar a um acordo para o próximo Orçamento do Estado. Surgirão dificuldades, mas os anteriores também não foram fáceis. E quem mais tem agitado esse papão das discórdias à esquerda tem sido a direita, desejosa de ver a geringonça a desfazer-se em cacos.

Segunda questão: sendo o PS o vencedor anunciado das próximas legislativas, ninguém acredita que Rui Rio possa ser o número dois de António Costa numa futura coligação. Ou aceitaria o frete, com intenções perversas, de modo a provocar novas eleições no curto prazo; ou então colocaria todo o PSD contra si e a sua liderança ficaria seriamente ameaçada.

Portanto, a análise de Pedro Santana Lopes está errada, porque ele confunde os seus desejos com a realidade. E isso, em política, costuma ser fatal.

Mas há outras questões. PSL é tido, dentro do seu próprio partido, como um homem irrequieto, instável, que nunca consegue levar nada até ao fim. Interrompeu, várias vezes, os seus mandatos de deputado, justificando-se com a falta de vocação para a missão. Foi secretário de Estado da Cultura, no tempo de Cavaco Silva, e saiu a meio, dizendo que o salário era escasso e não cobria os seus compromissos. Foi presidente do Sporting e também não conseguiu levar o mandato até ao fim, porque, entretanto, surgiu a oportunidade de disputar a liderança do PSD. Perdeu desta vez como nas seguintes. Isto quer dizer que os membros do seu partido nunca lhe atribuíram um voto de confiança maioritário.

Logo, a pesca à linha, dentro do PSD, prevê-se difícil e sem quadros capacitados não se consegue fazer um partido. Falta depois o dinheiro. Um partido clássico, de direita, precisa de grandes recursos financeiros para se afirmar. Por exemplo, precisa de duas sedes (no mínimo), uma em Lisboa e outra no Porto. E de um quadro de funcionários administrativos e logísticos. Tudo isto somado representa muito dinheiro. E não se vê que abundem por aí mecenas dispostos a pagar as aventuras de Pedro Santana Lopes.

Como noutras vezes, o Partido Social Liberal será adiado e os sonhos do seu ideólogo vão ficar congelados.

Rui Rio parece ter noção de tudo isto e não dá o menor sinal de preocupação. Pelo contrário, sente-se até tranquilo, porque assim livra-se de Pedro Santana Lopes como cabeça de lista do PSD nas próximas europeias. Tem total liberdade de escolha e é possível que o faça com alguma brevidade, antes que Santana Lopes mude, mais uma vez, de ideias.

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