PCP: Carvalhas prefere moeda comum à moeda única “sobrevalorizada”
O economista e antigo líder do PCP Carlos Carvalhas defende o fim negociado e com tempo do euro, e sugere como solução possível a manutenção de uma moeda comum para referência na União Europeia, além das moedas nacionais.
Em entrevista à agência Lusa, a propósito do lançamento em breve de uma campanha nacional sobre assuntos europeus, o membro do Comité Central comunista considerou que "o euro é uma moeda simpática, mas está sobrevalorizada em relação à economia portuguesa" e que, "quanto mais não seja, utilizando o princípio da precaução, Portugal deve-se preparar para uma eventual dissolução".
Carvalhas recordou que este ano se vão realizar eleições na Itália, na Alemanha, em França, havendo partidos que preconizam a saída do euro.
"Bom seria que houvesse uma dissolução, uma saída concertada, negociada, com apoio do Banco Central Europeu (BCE), em que Portugal podia ficar - tinha vantagens nisso - com uma coordenação monetária com os outros países, com margem de flexibilidade. Alguns até advogam a transformação da moeda única numa moeda comum e Portugal, com a moeda nacional, relacionava-se com essa moeda comum. Inclusivamente, podia ficar o euro para dois ou três países mais homogéneos que entendessem continuar. É uma solução", admitiu.
Para o ex-secretário-geral do PCP, "tanto o Ministério das Finanças como o Banco de Portugal deviam ter um grupo de trabalho para ver todas as implicações, consequências e medidas que se devem tomar previamente" para Portugal não ser "apanhado de surpresa".
"Ou continuamos no euro, com um crescimento sempre anémico, sujeitos a períodos de recessão ou a programas de apoio europeus, qualquer que seja o nome que se lhes dê, ou há a saída do euro, complexa, com dificuldades, sobretudo no primeiro ano/ano e meio, mas depois com possibilidades de, com outra política, se avançar para um crescimento muito maior que desse resposta aos problemas do país", analisou, sempre acautelando "implicações nos depósitos, empresas, famílias".
No início do euro "o que se estabeleceu foi uma moeda única e isso é profundamente irracional porque é procurar tratar de forma igual o que é profundamente desigual", afirmou Carvalhas, acrescentando tratar-se de "economias muito diferentes do ponto de vista da produtividade, da especialização, da estrutura produtiva, das relações externas".
"Ao procurar impor-se um figurino único, naturalmente, criou-se extremas dificuldades - uma moeda única que está subvalorizada em relação à Alemanha, facilitando-lhe as exportações, e sobrevalorizada para Portugal, dificultando toda a atividade economia e levando a uma prática de desindustrialização", vincou.
Segundo o ex-líder comunista, "Portugal, no quinquénio anterior ao estabelecimento da moeda única, cresceu em média 4,1%" e, "desde que está no euro [2002], praticamente está estagnado, tem um crescimento de 0,2%, sem significado" - "o investimento caiu, aumentou o desemprego, com todo o problema do financiamento, este é o quadro objetivo".
Outro problema prende-se com as dívidas externas que, obrigam, no caso luso, a "entregar só de juros o equivalente ao orçamento anual do Serviço Nacional de Saúde, mais de oito mil milhões de euros".
"É possível pagar? É. Se apertarmos ainda mais o cinto, se pusermos metade da população portuguesa a não comer, a não gastar absolutamente nada e só a poupar para entregar aos credores, durante dezenas e dezenas de anos... Então vamos continuar assim até ao fim do século!? É este o plano que queremos?", questionou.
Para Carvalhas, há uma "grande pressão da Alemanha para o fim das taxas de juro negativas e da política de ‘quantitative easyin' [compra de dívidas soberanas nos mercados secundários] do Banco Central Europeu (BCE), que se vê pelos efeitos das declarações do presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem, e do presidente do Mecanismo de Estabilidade Europeia, o alemão Klaus Regling, e seus efeitos nas taxas de juro, agora novamente nos 4%.
Para Carvalhas, "estão a dizer aos especuladores: ‘especulem, esmifrem aquele país'. No fundo, são uns paus mandados do senhor [Wolfgang] Schäuble [ministro das Finanças alemão], que aquilo que desejaria era dar uma lição à Grécia e a Portugal, países que saíram fora do cânone das suas receitas”.
“À Grécia, obrigando a eleições antecipadas, correndo com o Syriza de vez, e a Portugal, tendo uma pequena política de contenção e reversão muito lenta da dita austeridade, contraria todos os cânones do neoliberalismo e dos grandes interesses dos mais possidentes da Alemanha", condenou.
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