Escolha as suas informações

Diferenças que se medem em infecções
Opinião Portugal 3 min. 06.07.2021
Pandemia em Portugal

Diferenças que se medem em infecções

Pandemia em Portugal

Diferenças que se medem em infecções

Foto: Lusa
Opinião Portugal 3 min. 06.07.2021
Pandemia em Portugal

Diferenças que se medem em infecções

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
"A má moeda expulsa a boa moeda, diz-nos a teoria económica clássica. E em Portugal, segundo esta mesma lei, os políticos incompetentes expulsam os competentes".

Esta frase tem 17 anos e foi escrita no Expresso por Cavaco Silva, então já em plena pré-campanha para umas presidenciais. Todo o texto representou um ataque directo ao então novo primeiro-ministro, Santana Lopes, que seria essa tal "má moeda" que estaria a usurpar o lugar dos "políticos de boa cepa" (onde Cavaco obviamente se auto-incluía). 

A estratégia, sabe-se agora, tinha sido congeminada durante um almoço em casa de Ricardo Salgado para o qual foram convidados Cavaco, Durão Barroso e Marcelo Rebelo de Sousa; cada um deles viria a ser recompensado por uma década de poder em Belém ou em Bruxelas. A intenção era fazer cair Santana rapidamente, e a campanha resultou em pleno (esse governo só durou mais um par de meses).

A tal lei de Gresham postula que, havendo duas moedas em circulação e sendo uma efectivamente mais valiosa que a outra, as pessoas vão guardar a boa para si (na prática fazendo-a desaparecer do mercado), o que significa que a "má" acaba por tornar-se dominante. Esta lei é uma péssima analogia para a política em geral (em princípio, os cidadãos votam por manter no cargo os políticos competentes e punem os incompetentes com derrotas eleitorais) e também não se aplica à política portuguesa, simplesmente porque ali as "moedas" concorrentes são quase todas "más". 

Essa falta de qualidade das elites é dolorosa no longo prazo, porque limita a prosperidade do país e dos portugueses que tantas vezes têm de procurar essa prosperidade noutros lugares (e este assunto diz-nos bastante); já quando surge um desafio bicudo, tipo uma emergência sanitária, transforma-se em ruína. É aqui que a diferença entre competentes e incompententes se mede por escalas muito precisas: em infecções e mortes, ou em milhões de euros perdidos.


Governo aponta para 4.000 infetados diários nas próximas duas semanas
A área de Lisboa e Vale do Tejo tem 54% do total das novas infeções, concentrando 802 novos casos.

Os EUA do último ano e meio são um bom exemplo de contraste. A administração Trump ignorou a ameaça durante meses, o próprio presidente recusava-se a usar máscara (mesmo quando foi infectado) e troçava da seriedade do problema; o poderoso país subiu ao primeiro lugar global no ranking de mortandade. Após um só semestre de administração Biden, o panorama melhorou radicalmente. Vacinas são distribuídas, óbitos diminuíram fortemente, estádios e pavilhões estão cheios. 

Em Portugal por vezes parece que o conceito é fazer exactamente o contrário do que aconselham os dados científicos e o simples bom senso.

Na maioria dos países europeus, do Luxemburgo a Espanha, da França à Alemanha, avança-se a passos cautelosos mas seguros no sentido de vacinar a maioria da população, levantar as restrições ineficazes, abrir a economia e estabelecer um horizonte de normalidade possível, sabendo gerir as diferentes vagas e variantes.

Em Portugal por vezes parece que o conceito é fazer exactamente o contrário do que aconselham os dados científicos e o simples bom senso. Máscaras continuam obrigatórias ao ar livre (onde são contraproducentes) e a multa nas praias por não as usar é de 100 euros, mas não há semana em que os turistas ingleses não ouçam súplicas vindas de Lisboa para continuarem as suas invasões alcoolizadas e livres de máscaras. 

Internamente os enormes estádios estão vazios há mais de um ano, mas se for para ir ver a selecção já se encorajam as massas confinadas a ir a Sevilha. Os poucos certificados digitais emitidos após vacinas duram ali seis meses - nos outros países duram um ano. As restrições acendem-se e apagam-se sem critério, timing, confiança ou comunicação. Os números já estão quase tão maus como em Janeiro, quando o país estava na cauda da Europa… No final de contas, as más moedas saem muito caro.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.