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Pacheco Pereira. "Há hoje uma enorme radicalização da direita"
Portugal 15 min. 13.05.2021

Pacheco Pereira. "Há hoje uma enorme radicalização da direita"

Pacheco Pereira fotografado no Espaço da Associação Ephemera e da exposição no Parque Empresarial da Baía do Tejo.

Pacheco Pereira. "Há hoje uma enorme radicalização da direita"

Pacheco Pereira fotografado no Espaço da Associação Ephemera e da exposição no Parque Empresarial da Baía do Tejo.
Foto: Lusa
Portugal 15 min. 13.05.2021

Pacheco Pereira. "Há hoje uma enorme radicalização da direita"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
No ano que se assinalam os 100 anos da fundação do PCP, José Pacheco Pereira publica o quinto volume da sua monumental biografia de Álvaro Cunhal. A conversa com o Contacto começa sobre o que aconteceu depois da morte de Salazar e vai até aos dias de hoje, em que Pacheco Pereira confessa só acreditar que se possa lutar por mais felicidade.

O que podemos esperar sobre o quinto volume da biografia de Álvaro Cunhal?

Abrange desde o dia da substituição de Salazar por Marcelo Caetano até cerca de cinco dias depois do 25 de Abril, quando Cunhal chega a Lisboa em vésperas do 1º de maio. Termina com ele a deitar-se no dia 30 de abril.

Não pretende fazer um sexto volume?

Para já, estes volumes têm uma coisa em comum: são parte da história do partido clandestino. Há uma permanente relação entre a figura de Cunhal e o PCP. Ao mesmo tempo é também uma história do Partido Comunista. As condições depois do 25 de Abril mudam completamente. Não sei se farei ou não farei. Mas para já, este ciclo da biografia termina com a revolução.

Mas já põe a hipótese de fazer. Inicialmente, dizia que a biografia terminaria quando Cunhal subiu ao tanque para falar no aeroporto à sua chegada a Portugal.

Sim, agora acrescentei-lhe mais meia dúzia de horas para apanhar a reunião com a Junta de Salvação Nacional e o primeiro dia em Portugal. Para já, é o que eu tenho intenção de fazer. Se depois irei ao período posterior ainda vou ver. Isto dá muito trabalho. No conjunto da biografia são milhares de textos e documentos, panfletos, livros. Neste volume, que ainda não está acabado, já há para aí 150 a 200 livros que são utilizados e mais mil panfletos, manuscritos e notas de reuniões.

Desse enorme acervo de documentos e escritos, o que concluiu sobre o PCP?

É um período muito peculiar. O PCP vem de um período de refluxo no final de 68. A situação política mudou do ponto de vista da mobilização. Os comunistas passaram todo o ano de 1969 a alertar para que as características fundamentais do regime não tinham mudado, mas à medida que o tempo vai passando, nos próprios textos do Cunhal, vai-se verificando uma maior atenção às novas oportunidades. Essas oportunidades têm muito que ver com as diferentes possibilidades de mobilização e com as alterações legislativas que são relevantes no plano sindical. É preciso ver que a primeira reação do PCP, com a queda de Salazar, foi de entusiasmo e optimismo, embora tenha durado pouco tempo. Esse documento, que é uma proclamação, é feito ainda sem ter sido escolhido Marcelo Caetano. Foi uma tomada de posição que foi sujeita a muitas críticas porque na prática admitia uma mudança pacífica do regime. Documento que eu não tenho a certeza ter sido integralmente escrito por Cunhal, porque há ali muitas questões vocabulares e de estilo que não parecem dele, mas ele deu certamente o seu beneplácito. Esse primeiro documento, depois da substituição do Salazar, era muito triunfalista, com um apelo à ofensiva nas ruas, que evidentemente não sucedeu.

Um dos dados mais importantes dessa época é o aparecimento de novas forças de extrema-esquerda, sobretudo no movimento estudantil, e no plano internacional há o Maio de 68 e a Primavera de Praga...

Neste período do final dos anos 60 e início dos anos 70 há várias rupturas, embora haja elementos de continuidade, como a Guerra do Vietname. A queda de Khrushchov implicou mudanças na política externa soviética. É um período de ascenso claro do esquerdismo nas suas múltiplas variantes, desde as mais clássicas, marxistas-leninistas, até às variantes guerrelheiristas e, perante isto, Cunhal mostra sempre uma enorme preocupação e atenção ao fenómeno do esquerdismo. De tal maneira, que a maioria dos seus textos, e os mais longos, são de facto para responder ao esquerdismo ou sobre posições a nível internacional.

O impacto da invasão da Checoslováquia e do apoio do PCP a essa invasão não é tão grande como se podia pensar. Há algum impacto na militância no exílio, é relevante nos sectores sociais-democráticos próximos da ASP (Acção Socialista Portuguesa, que dá origem ao PS), mas dada a conjuntura clandestina não é muito relevante no interior do PCP. Não há nenhuma cisão significativa, nem nos intelectuais, por causa do apoio dos comunistas portugueses à invasão da Checoslováquia. E também não é relevante no esquerdismo porque este mesmo, criticando o que chamava de “social-imperialismo” da União Soviética, não dá nenhuma caução ao governo de Dubcek. É uma conjuntura muito particular que faz com que esta situação não tenha um grande papel no PCP.

Já o Maio de 68, tem algum impacto no esquerdismo, mas não tanto que se poderia pensar. Maio de 68 tem uma componente libertária e de contra-cultura que em Portugal, no interior, tem apenas uma pequena repercussão na criação de correntes mais libertárias. Pelo contrário, entre 68 e início dos anos 70 há um aumento da ortodoxia no esquerdismo.

Altura em que se criam até códigos de normas de comportamentos morais e pessoais nessas organizações.

Não só normas de comportamento, como a componente cultural.

Mas não se pode dizer que o MRPP é fruto do Maio de 68, ao contrário de outras tendências maoistas?

Sim, há duas organizações que correspondem ao que os franceses chamam “Mao-spontex”, um maoismo pós-revolução cultural. Diferentemente das organizações marxistas-leninistas que se cindiram com os partidos comunistas e que consideravam, como os chineses, que a União Soviética tinha traído, as organizações maoistas que surgem após a Revolução Cultural têm características muito diferentes. Em Portugal, é o MRPP, e a norte, onde este nunca chegou a ter expressão, o Grito do Povo, principalmente no Porto.

Uma das características que se imputa a Álvaro Cunhal é aliar a uma certa firmeza estratégica uma grande maleabilidade táctica. Nesse período histórico isso não é claro com a criação da CDE, MDM, UEC e até as acções especiais promovidas pela ARA, em resposta às questões sobre a luta armada colocadas por sectores esquerdistas?

Uma das primeiras resoluções do Comité Central, com decisão directa de Cunhal, após setembro de 1968, foi impulsionar a criação de organizações parcelares. Se formos ver, a primeira organização criada é o MDM (Movimento Democrático das Mulheres). Muitas delas são concebidas no quadro legal e semi-legal, e outras no quadro clandestino. São criadas algumas organizações de trabalhadores. O PCP tinha um projecto de uma organização de apoio aos presos ligada à amnistia, mas os católicos progressistas andaram mais depressa e o PCP depois apoiou-os. São também formadas organizações para-sindicais nos professores e há o caso do aparecimento da UEC (União dos Estudantes Comunistas). Há um aspecto pouco conhecido, o PCP empenhou-se em fazer uma espécie de UEC para os trabalhadores: um movimento para jovens trabalhadores comunistas. Este impulso organizativo deve-se directamente ao PCP e a Cunhal. Dedico um capítulo do livro à criação sucessiva dessas organizações e às pessoas que têm um papel fundamental na sua fundação. Já em relação à luta armada – aqui tenho uma posição que contrasta com a dos esquerdistas na época -, Cunhal nunca desistiu da ideia de luta armada, podia adiá-la em determinadas circunstâncias, quase sempre a seguir a um desastre conspirativo que afectava essa área. Mas, desde que saiu na cadeia, que esta questão é uma constante nas suas preocupações, e até quando a estão a tentar organizar dá indicações bases para algumas ações especiais. Cunhal faz uma distinção entre ações especiais e luta armada. A ARA vai fazer uma série desse tipo de acções especiais a que se somou depois as Brigadas Revolucionárias. Antes dessas ações há sucessivas tentativas de as organizar. Muitas delas falham. Foi enviado um grupo para Cuba, e os cubanos recrutam-nos para a ideia de guerrilha. Quando regressam, queriam fazer guerrilha na Serra da Estrela. Cunhal mandou-os passear. E eles, por erros conspirativos, foram presos em Espanha. Cunhal é sólido do ponto de vista teórico, portanto com uma certa rigidez, e maleável do ponto de vista táctico. Ele tem uma característica que faz com que as pessoas muitas vezes apenas pensem nele como um ortodoxo, que era quando achava que o interesse fundamental da União Soviética - que para ele era o interesse fundamental do movimento comunista - era posto em causa, ele tomava a posição que era mais favorável à União Soviética.

Era um pouco aquela expressão que mais valia não ter razão no partido que razão fora dele.

Exactamente, e ele em todos os momentos - como com os chineses, com quem tinha inicialmente alguma aproximação teórica - tinha esse posicionamento. Quando crítica as teses da possibilidade de evolução pacífica do regime, sustentadas por Júlio Fugaça, as posições de Cunhal eram vistas, até a nível internacional, como próximas dos chineses, por se oporem à ideia mais geral de coexistência pacífica. As ideias de Fugaça derivavam dessa. Uma parte do prestígio de Cunhal na União Soviética, e em homens como Suslov [um dos principais ideólogos e dirigentes do Partido Comunista da União Soviética], onde tinham uma real admiração por Cunhal, devia-se ao facto deste, de alguma maneira, ter sido um percursor de muitas das críticas que eles vão fazer a Khrushchov, que levarão ao seu afastamento.

Havia em Cunhal uma interiorização dos interesses soviéticos que vai para além daquilo que se pode considerar de seguidismo. E havia na União Soviética, em determinados momentos, uma entrega ao PCP de responsabilidades enormes, que mais nenhum outro partido comunista, sem ser o soviético, tinha. E quando, depois do 25 de Abril, houve a contradição entre a linha soviética da conferência de Helsínquia e as posições do PCP, mesmo nessa altura, os próprios soviéticos dividiram-se. É aliás uma divisão que se expressa a partir de 1973, sobre a análise do que permitiu o derrube de Allende por Pinochet. Sobre isso havia duas linhas: uma dizia que os chilenos e o Allende foram longe de mais, e a outra defendia que o problema é que Allende não teria ido tão longe como deveria ter ido. Com a primeira posição, estão os comunistas italianos. Berlinguer escreve um artigo nesse sentido, afirmando que o Governo chileno teria ido longe de mais e perdido o apoio popular. Já a posição do PCP, e de parte dos soviéticos, é a oposta, que de alguma forma cauciona a posição de Cunhal no PREC.

Esse posicionamento particular no movimento comunista internacional renegando análises mais eurocomunistas pode ajudar a explicar a sobrevivência do PCP depois da queda da União Soviética, ao contrário do que aconteceu com os seus congéneres italiano e francês?

Há duas coisas que penso que explicam a maior sobrevivência dos comunistas portugueses, mesmo com os resultados que têm hoje, comparado com os partidos que desapareceram.

Em Itália chegou a haver dois milhões de inscritos no PCI.

E o Partido Comunista Francês também foi muito poderoso. Os grandes partidos comunistas europeus desapareceram do mapa, como os espanhóis, franceses e italianos que eram as jóias da coroa do comunismo europeu. Cunhal e o PCP sobrevivem porque não eram na sua composição social uma mera emanação da política externa soviética.

Mas os italianos e os franceses também não eram.

Mas no caso de muitos pequenos partidos, como o inglês, não tinham nenhuma relevância política própria. O português, o grego e o cipriota sobreviverem por terem uma coisa em comum: tinham uma clientela, sem sentido pejorativo, em certos sectores da sociedade prejudicados pela modernização capitalista. Essas camadas encontraram no PCP o único mecanismo que os defendia, veja-se o caso dos trabalhadores rurais alentejanos. Muitos eram analfabetos, sem especialização laboral, e encontraram nas autarquias comunistas um subemprego de sobrevivência que ninguém lhes dava. O mesmo em relação à classe operária da cintura industrial de Lisboa e Setúbal, que hoje, com as alterações económicas, são ainda uma base para os movimentos de reformados e para a CGTP. Isso deu ao PCP uma base social de apoio que resistiu ao enorme trauma que foi a queda da União Soviética. Por outro lado, para que houvesse essa resistência, o partido não poderia embarcar nas aventuras do eurocomunismo. Cunhal entendeu isso bem, porque não havia base social de apoio para isso, a não ser em certos sectores intelectuais, que nunca foram muito relevantes. Criou-se no PCP uma mentalidade de bunker, que lhe deu uma certa capacidade de resistência. Depois tomaram algumas decisões, umas boas e outras más, que os levaram a ser muito relevantes na política portuguesa até aos dias de hoje. São o sustentáculo do Governo. A assinatura do atual Orçamento do Estado é que permite ao Governo existir, e isso deve-se ao PCP.

Parece que nos últimos anos se verifica uma espécie de rescrita na história do papel dos comunistas na resistência ao fascismo e ao nazismo. Aqui e no resto do mundo. Concorda?

Essas coisas acontecem, mas não me parecem tão significativas. Penso que as questões que envolveram a guerra colonial, as polémicas sobre o Marcelino da Mata são mais relevantes que qualquer espécie de desvalorização do papel do PCP na luta contra o anterior regime.

Mas quando o PCP coloca os seus símbolos no espaço público e se torna um motivo de ataque, não se pode dizer que esse sentimento de extrema-direita cresceu?

Também o PCP nunca o tinha feito daquela maneira. Acho que apesar de tudo, a história, mesmo a do PCP, vai ganhando os seus equilíbrios. As gerações que participaram nos eventos desapareceram, deixa de haver testemunhos vivos, e há uma certa acalmia do clima para se estudar história. O que se passa é outra coisa: hoje há uma enorme radicalização à direita muito agressiva do ponto de vista comunicacional. E isto precisa de legitimação histórica. A direita tem muita dificuldade de reivindicar os 48 anos de ditadura. Não chegaram a esse ponto. Mas em muitos aspectos parcelares já há recuperação de figuras do regime, eventos históricos, e da experiência colonial. Todas essas aproximações tendem a ser relevantes, mas são um subproduto deste processo de radicalização. Não são autónomos dele. Não podemos desprezar, claro, o fenómeno que é a utilização do estudo da história, não só para fazer vinganças políticas à posteriori do que aconteceu à anteriori, mas também utilizando as questões associadas com as FP25, com a experiência do PC no PREC, com a descolonização. Mas isso deve ser interpretado como fazendo parte de um processo de radicalização que vai mais longe, e que precisa da história apenas por razões de legitimação.

Uma grande agressividade contra o PCP nos dias de hoje não tem que ver com a grande presença dos comunistas atualmente. Hoje não há um PREC, nem nada que se pareça, nem o Governo de António Costa é um executivo de extrema-esquerda, como parte da direita o caracteriza e escreve. O que há é uma radicalização da linguagem e de posições que a direita. Desde a saída do Governo Passos Coelho e Paulo Portas, a direita ficou órfã e não engoliu ainda que no fundo perdeu relevância eleitoral desde essa altura. Mas há mais uma coisa nova que, essa sim, merecia mais atenção, é a capacidade que esta direita mais radical tem de definir a agenda da comunicação social e a sua influência nas redacções, sem nenhum espírito crítico. Através da agressividade de vários órgãos de comunicação social, que são projectos políticos, está a mudar-se a ecologia política. Do centro esquerda para a esquerda não estão a perceber nada do que lhes está a acontecer.

A propósito da escolha do seu objeto de estudo e da sua posição política. Qual é a sua relação atual com o marxismo?

O marxismo é uma componente essencial do conhecimento sociológico e para a interpretação social. E é um adquirido, como o liberalismo histórico, relevante para analisar o conflito social. Se me perguntar se acho que há sociedades pacíficas do ponto de vista da conflitualidade, respondo-lhe que não. Marx foi o primeiro a dizer com clareza que nas sociedades há interesses contraditórios e que esses interesses não são solúveis. Agora podem ser menos violentos, conforme haja uma maior institucionalização do conflito, como hoje acontece nas democracias.

Acha que o capitalismo tem de ser mantido para sempre ou deve ser ultrapassado?

Isso eu não sei. Falando do ponto da vista da história, há uma coisa que eu nunca fiz nem farei que são previsões.

Não lhe peço para fazer de adivinho. Previsões é saber como acaba. O que lhe peço é que diga o que acha que é necessário.

Necessidade para quem é ateu e não acha que haja vida eterna, é que as pessoas tenham a maior quantidade de felicidade possível. E daí derivam muitas coisas: têm de ter condições materiais de vida, possibilidades de escolha e coisas que a sociedade atual não dá. Isso é o núcleo duro do que eu penso. Aquela felicidade de que falava Saint-Just na Revolução Francesa. É isso que é fundamental para se atuar numa democracia, a ideia que tudo é frágil - a democracia é frágil, a liberdade é frágil, a igualdade é frágil, por aí adiante.

Mesmo a felicidade parece-me frágil, porque varia de sociedade para sociedade, hoje está ligada à quantidade de vezes que se vai ao centro comercial.

Acho que a crítica ao consumismo é um dos grandes disparates da esquerda. Comprar electrodomésticos libertou muita gente de uma vida muito pobre de recursos, tempo e bens. Não tenho nada este ponto de vista.

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