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Pacheco Pereira: “A cama para a extrema-direita em Portugal já está a ser criada nas redes sociais”
Portugal 9 min. 28.02.2019 Do nosso arquivo online

Pacheco Pereira: “A cama para a extrema-direita em Portugal já está a ser criada nas redes sociais”

Pacheco Pereira: “A cama para a extrema-direita em Portugal já está a ser criada nas redes sociais”

Foto: Diana Tinoco
Portugal 9 min. 28.02.2019 Do nosso arquivo online

Pacheco Pereira: “A cama para a extrema-direita em Portugal já está a ser criada nas redes sociais”

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Uma conversa sobre as eleições europeias, marcadas para maio, e a possibilidade de a extrema-direita crescer na Europa e até em Portugal, num mundo governado por Trump, Bolsonaro, Putin e outros líderes pouco democráticos.

Há quem defenda que a União Europeia é a maior barreira ao crescimento dos populismos de extrema-direita, há quem diga que ela é a causa do seu crescimento. Quem tem razão?

Assim posta desta forma dicotómica, ninguém. Mas há um papel das instituições europeias no crescimento do populismo. Primeiro, porque diminuíram a democracia em vários países. A maneira como, sem verdadeiras consultas populares, os parlamentos de muitos países perderam poderes, com exceção do alemão – o Tribunal Constitucional alemão continua a ser dono e senhor de tudo –, é um exemplo disso. A isto, soma-se o facto de a UE ter um direito de pernada sobre as Finanças Públicas de cada país e a própria forma como o euro tem vindo a ser regulado. Tudo isso, quer se queira quer não, levou a um sentimento generalizado de perda de poder do voto das pessoas, na medida em que passou a haver partidos de primeira e partidos de segunda: os de primeira são os europeístas e os de segunda são os outros que são impedidos de governar. Acresce que a maneira como foi gerida a crise financeira de 2008 agudizou este caminho, de falta de democracia, traçado a partir do Tratado de Lisboa. Este conjunto de coisas criou uma percepção de que a maneira como a crise foi defrontada corresponde aos interesses de alguns países, como a Alemanha, mas também a uma deslocação de recursos de uma parte da classe média, e daqueles que estavam no limiar da pobreza, para suprir as necessidades financeiras dos bancos. E é evidente que isto se está a pagar politicamente agora.

Como é que se expressou esse agudizar da perda da democracia durante a crise?

O processo da Grécia em pleno ajustamento durante a crise financeira mostrou que a UE tinha uma política autoritária em relação a um país que ela própria deixou entrar sem ter as condições necessárias. Muitas vezes fechou os olhos para as manipulações orçamentais de alguns governos do centro esquerda e do centro direita. E depois [da eleição do Syriza] atuou fazendo um ’diktat’ e acabando com a autonomia da Grécia em relação a ter políticas económicas e financeiras próprias. E o mesmo tem acontecido em outros países em que houve o chamado ajustamento. Quando a crise dos refugiados bateu à porta tudo isso se agudizou. Era inevitável que a crise dos refugiados chegasse à Europa, porque os europeus têm uma enorme responsabilidade com o que aconteceu na Líbia, na Síria, com uma política de negócios estrangeiros absolutamente irresponsável que resultou em substituir o tecido social e político desses países sem ter nada para o substituir. O resultado de tudo isto é que em nome da luta contra o terrorismo se criaram as principais bolsas territoriais de grupos terroristas, que não só se desenvolveram nesse cenário de vazio, como ganharam importantes apoios. Os europeus, quando os refugiados começaram a aparecer, em grande parte devido à política do Ocidente, deixaram de ter a capacidade de fazer o chamado ’melting pot’ e de terem sociedades onde há mobilidade social. Uma das principais consequências da crise não foi tanto o empobrecimento, mas o aumento das desigualdades e a destruição do elevador social nas nossas sociedades, que funcionava muito ligado ao Estado. Com a combinação de todos estes factores criou-se a tempestade perfeita. Nos países que tinham piores condições e nos países que tinham maiores debilidades democráticas, como os países de leste, criaram-se condições para esse crescimento do populismo.

Não é estranho estarmos em crise pelo crescimento das desigualdades profundas por ausência de políticas sociais mínimas que havia durante o keynesianismo, mas paradoxalmente ser a esquerda que desaparece?

Foi de facto o caso dos socialistas. Isso aconteceu porque eles mostraram fundamentalmente que não tinham uma política alternativa à direita. Não era possível ter sido feito o ajustamento, como foi feito durante os anos da troika, sem a colaboração dos socialistas e as exceções que apareceram, como é o caso da geringonça de Portugal e do Corbyn no Reino Unido, são exceções em relação a uma regra que levou em França, Espanha, Itália e Grécia os partidos socialistas quase até à destruição.

Um partido socialista português que tem na sua convenção europeia o apoio de Macron e Tsipras o que é?

É um partido de centro esquerda que perante uma derrota eleitoral com que não contava deu a volta por cima, não tendo receio em criar uma coligação com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português. E, neste sentido, mudando completamente a polícia portuguesa: as pessoas não têm consciências que a geringonça até pode acabar daqui a uns anos, mas na verdade mostrou a capacidade de, em determinadas circunstâncias, estes partidos constituírem uma espécie de frente imperfeita mas que permitiu governar. Isso muda completamente o cenário, obrigando a que, quer à direita quer à esquerda, só seja possível governar com maioria. Já existia à direita com a política de alianças entre o PSD e o PP, mas à esquerda não existia, o que dava uma enorme fragilidade à esquerda, com o PS a ser obrigado a ter maiorias absolutas. Foi uma solução em que pesou uma grande rejeição do processo de ajustamento. A geringonça é constituída com base na negativa ao governo do PAF [coligação entre PSD e CDS-PP], tudo o resto vem por acrescento. Com o tempo isso vai mudando. Esse factor negativo enfraquece-se à medida que à direita não parece haver uma contestação tão intensa que possa colocar em risco a governação do PS. Mas mesmo assim, tudo mudou com esta decisão.

Na série televisiva francesa o Barão Negro, o cenário político fica transformado num pólo de extrema-direita, um pólo menor de extrema-esquerda e no meio um pólo liberal que mistura centro direita com centro esquerda. Acha possível a transformação da política europeia nisso?

Não sei bem se o meio hoje é esse. Acho que os quadros tradicionais esquerda e direita não resultam para a situação, não têm o que os filósofos chamam de capacidade heurística, não permitem, quando aplicados, explicar resultados novos. O peso dessa qualificação de esquerda e direita por vezes impede-nos de perceber certos movimentos novos, como o caso dos “gilets jaunes”, em França. Em Portugal foi diferente. Essa dificuldade torna difícil classificar coisas que aconteceram na Grécia e até que aconteceram na Alemanha.

Essa dificuldade dos quadros explicativos da esquerda e da direita dá maior atualidade às questões de classe suscitadas por Marx?

A noção de luta de classes de Marx nunca perdeu atualidade. A ideia que nas sociedades, independentemente dos regimes políticos, não é possível haver um entendimento total de todos os interesses, daí haver um permanente conflito que se expressa institucionalmente de várias formas, permanece atual. Não há sociedades de consenso, há vários interesses permanentemente em conflito, contraditórios nas sociedades. Esta ideia, mesmo para os não marxistas, tem valor. Provavelmente, há outras partes do marxismo que estão em crise, como a ideia da centralidade do trabalho que vinha da teoria da exploração. Hoje, partidos como o Bloco de Esquerda, mesmo que o não digam, abandonaram estas teses marxistas.

Ao ter abandonado, parte da esquerda, as questões sociais e de classe, por questões identitárias isso não abriu a porta à extrema-direita?

Acho que a o crescimento da extrema-direita não vem daí. Mas da crise do elevador social que tinha funcionado a partir da II Guerra Mundial.

Políticas que foram invertidas nos anos 80 com Reagan e Thatcher e os neoliberais?

Não acho que haja uma relação direta entre o liberalismo e a extrema-direita. Penso que as políticas que foram tidas na Europa com os recursos do plano Mashall permitiram a criação de sociedades com preocupações sociais-democratas ou democratas-cristãs, muitas vezes devidas ao medo do comunismo, que garantiram a retirada de muita gente da pobreza. Isso empancou, não quer dizer que não houvesse sinais antes, em 2008. E isso nunca foi reconstituído em nenhum país – nem em Portugal com a geringonça se reconstruiu o elevador social, o que fizeram foi equilibrar mais a redistribuição dos recursos. Mas não criaram condições para que quem está na pobreza pudesse sair dela e conseguisse entrar na classe média. Depois de 2008, muitos setores que tinham conseguido sair da pobreza vêem precarizar-se a sua situação e isso cria uma irascibilidade e um sentimento de zanga que está muito presente no populismo. Agora, a ascensão da extrema-direita está principalmente associada à questão da imigração e dos refugiados. Está muito ligada à chegada de uma massa de refugiados à Europa, que não tem entrada no sistema económico, nem no mundo do trabalho, tornando-se dificilmente integrável. Para além disso, Donald Trump é um factor muito importante neste processo de ascensão da extrema-direita, quando apoia os italianos ou a senhora Le Pen, quando diz o que diz no Reino Unido. Cria uma situação nova. Temos um país que era uma referência no campo da democracia com um presidente que apoia as coisas mais inimagináveis. E essa mudança, que tem também razões americanas, mudou completamente o panorama atual.

A extrema-direita pode ganhar as eleições europeias?

Não creio, mas pode ganhar em Espanha, que é bastante pior.

Qual a razão por que Portugal parece imune a esta subida da extrema-direita?

Isso é uma coisa que se está sempre a repetir mas que eu não tenho a certeza que seja verdade. Na atual recomposição da direita há o aparecimento de fenómenos que têm expressão não tanto em termos institucionais, como o “Chega” e quejandos, mas a outros níveis.

Está a falar por exemplo de sites como o Observador e a sua opinião?

Sim, porque nessas coisas cria-se primeiro a cama e depois é que se deita nela. E de alguma forma a cama já está a ser criada nas redes sociais, em certos ’think tanks’, e certos ativistas políticos fazem-na todos os dias. E os órgãos de comunicação social têm um papel decisivo nesta loucura justicialista e populista que domina quase todo o ’primetime’ das televisões. 

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