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Os ossos dos antepassados em papel de embrulho
Opinião Portugal 8 min. 22.10.2021
Polémica

Os ossos dos antepassados em papel de embrulho

Imagens da cerimónia de homenagem a Aristides de Sousa Mendes, no Panteão, em Lisboa.
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Os ossos dos antepassados em papel de embrulho

Imagens da cerimónia de homenagem a Aristides de Sousa Mendes, no Panteão, em Lisboa.
Foto: Lusa
Opinião Portugal 8 min. 22.10.2021
Polémica

Os ossos dos antepassados em papel de embrulho

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Com a entrada de Aristides de Sousa Mendes no Panteão fica demonstrado o falhanço das políticas de memória feitas ao arrepio da investigação histórica. Mais uma vez, cumpre dizer que é urgente publicar a pesquisa séria e escrupulosa de Lina Madeira sobre Aristides e retirar daí as consequências. Fingir que tal investigação não existe e que as suas conclusões são falsas só pode levar ao prolongamento de mitos por via de um comemorativismo que tem tanto de ridículo, como teve de caricato a figura do Raposão.

A metáfora é sempre a mesma. Mas tem de ser repetida, de modo a que um dia possa produzir algum efeito. Em A Relíquia de Eça de Queirós, Teodorico Raposo fez uma confusão tremenda que implicou a sua desgraça. Em lugar de oferecer à titi o embrulhinho com as relíquias da Terra Santa, deu-lhe o que continha a camisa de noite da inglesa com quem tinha estado em Jerusalém. Mais certo foi o facto de lá ter andado a passear os ossos dos seus antepassados enrolados em papel de embrulho. Nesta imagem caricata do culto do osso, António Sérgio encontrou um dos traços fundamentais da cultura portuguesa: a necessidade de comemorar e santificar os mortos, em lugar de encarar os problemas do presente. 

Vem isto, de novo, a propósito da recente cerimónia de entrada no Panteão de Aristides de Sousa Mendes. Um autêntico ritual de Estado encenado com pompa e circunstância, que não escaparia à troça de Eça de Queirós e ao seu aproveitamento por António Sérgio. 

Tal como se a comemoração devota de Aristides de Sousa Mendes pudesse preencher o buraco, que está vazio de ideias, em que vivemos.  A responsabilidade por tudo isto só pode ser assacada a um Partido Socialista tão vitorioso quanto ignaro, com uma Ministra da Cultura que nunca se interessou pelo estado em que está a Biblioteca Nacional e um ministério que nem sabe onde fica aquela que deveria ser uma das principais instituições da memória e do património vivo da nação.  

Dito de outra maneira: tal como se a ignorância ideológica e política que nos cerca – que é apenas colmatada por uma retórica de quem fala, com o sobrolho levantado e com um fato escuro de um pronto-a-vestir caro, em nome do sentido institucional, das reformas estruturais sempre adiadas e da capacidade de negociação – pudesse ser disfarçada com uns ritos e cerimónias para homenagear um indivíduo.  

Historiador de ofício que sou, confesso, as comemorações enjoam-me e dificilmente me sinto atraído por rituais, que estudo e analiso há décadas. Mais: a obsessão pela memória da nação dissociada da investigação histórica irrita-me, por descambar geralmente em apelos nacionalistas balofos.  

Tão mau ou pior do que andar por aí a fazer de Raposão e a comemorar os mortos, só os bloqueios que existem, hoje, em relação à esfera pública constituída pelos jornais, revistas, redes sociais e outros meios de comunicação social. Bloqueios de vária ordem, incluindo notícias falsas e campanhas de intoxicação ou propaganda, promovidas por quem manda e se sente ameaçado. Muitos casos poderiam ser citados, pois, apesar de discutidos e desmontados na esfera pública, não produziram qualquer tipo de efeito. Quem tem o poder, pura e simplesmente, é quem mais ordena e, prosseguindo teimosamente, manda às urtigas a esfera pública. 

Assim sendo, o que adiantou o inquérito sistemático à cultura portuguesa feito por João Pedro George, onde, entre muitas outras coisas, ficaram demonstradas as origens intelectuais e políticas de António Mega Ferreira, autêntico artista da dissimulação e da contra-informação do SNI (Sábado, 21-1-2021, 30-1-2021, 7-2-2021, 13-2-2021)? Na mesma linha, que efeitos teve a sua análise das clientelas que dominam a vida intelectual portuguesa, com os seus mecanismos de autopromoção? Quanto ao recente “caso Raquel Varela”, assim chamado numa nota assinada por uma “press officer”, mas na realidade mais um concurso público com fotografia, dificilmente se irá demonstrar que quem está no poleiro atende ao que é discutido na esfera pública. E, se o mundo é dos espertos, ou seja, daqueles que sabem assobiar para o lado, será possível que venha, agora, alguém pedir desculpas ou corrigir a mão pelo facto do nome de um bufo ter ido parar ao Memorial dos Presos Políticos do Estado Novo? Por último, será que iremos assistir à recriação de uma divisão de investigação na Biblioteca Nacional, para homenagear, da única forma possível, isto é, no presente, a memória de Pedro da Silveira?


Câmara de Lisboa cria memorial que homenageia "bufo" da PIDE
Uma denúncia feita na crónica de opinião semanal do historiador Diogo Ramada Curto.

Infelizmente, a resposta a todas estas questões receio que seja negativa e quem andou a chatear fica reduzido ao estatuto de chato, para fazer valer a superioridade dos que já detêm o poder. Dito de forma mais simples: quem pode pode e os outros que se danem, reduzidos a polemistas e pistoleiros... 

Porém, com todas as divagações acabadas de fazer, importa não perder o fio à meada e retomar o caso de Aristides de Sousa Mendes. Retomar, digo, e não assobiar para o lado. É que entre os investigadores que puseram a mão na massa sobre o caso de Aristides, houve quem não alinhasse no coro de elogios à sua actuação como diplomata e como famigerado opositor a Salazar. No fundo, houve quem não confundisse os planos da análise histórica e do comemorativismo, preocupando-se em reduzir o caso de Aristides à sua real dimensão.  

A este propósito, a investigação de carácter arquivístico mais densa e afinada encontra-se na tese de doutoramento de Lina Madeira, dirigida por Luís Reis Torgal. É certo que existem outros investigadores que se debruçaram sobre o caso: Avraham Milgram, Irene Pimentel, Cláudia Ninhos e Ansgar Shaefer. É também certo que o nome de Aristides já foi consagrado internacionalmente, nomeadamente em Israel. Discuti-lo pode até parecer um modo de pôr em causa a memória e o sofrimento de quem não teve a fortuna de obter um visto por ele passado. Mas não confundamos alhos com bugalhos, nem gato por lebre.

É que a investigação de Lina Madeira, nunca publicada (sabe-se lá porquê!), intitulada O mecanismo de (des)promoções do MNE: O Caso Paradigmático de Aristides de Sousa Mendes (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2013), dificilmente pode ser posta em causa. Há quatro anos, chamei a atenção para este trabalho de investigação em “Alberto da Veiga Simões: historiador e agente internacional na II Guerra Mundial” (Expresso, 28-10-2017). 

Escrevi, então, e agora limito-me a repetir, que sobre “as operações de mitificação de Aristides de Sousa Mendes, enquanto opositor de Salazar, não poderão ser ignoradas as opiniões dos embaixadores Carlos Fernandes e João Hall Themido. Este último insistiu no conhecimento que haveria nas Necessidades do fluxo anormal de refugiados na fronteira, causado pela concessão de vistos, que os cálculos mais irrealistas elevaram até 30.000 e que, segundo relatos britânicos, incluiriam vistos pagos (Uma autobiografia disfarçada, Instituto Diplomático, 2008, pp. 169-174)”. Acrescente-se, também, as dúvidas levantadas por José Hermano Saraiva (Sol, 20-7-2012). 

Sobre toda esta matéria, acrescentei que na tese de Lina Madeira ficavam demonstrados dois argumentos principais:

“Primeiro ponto, a concessão de vistos por parte de Aristides Mendes em Bordéus corresponde a um quadro processual e legal que era integrado e conhecido por Salazar e pelo Estado Novo, incluindo pela PVDE. Por isso, o mito de um Aristides opositor de Salazar e capaz de actuar individualmente, de modo isolado, é uma invenção tardia que a análise histórica rigorosa não confirma. Pelo contrário, as afinidades dos gémeos Sousa Mendes com o Estado Novo foram muitas”. 

“Segundo ponto, a política de neutralidade seguida por Salazar obrigou a que, uma vez passados os vistos, Aristides fosse deixado cair, para que o Estado português pudesse ser ilibado e não perdesse a face. Conforme provou Lina Madeira, referindo-se à intervenção capital daquele que era, então, Embaixador em Madrid, Pedro Teotónio Pereira: ‘Ilibava-se o embaixador de Portugal em Madrid, culpava-se o cônsul, de carreira, em Bordéus’ (O mecanismo de (des)promoções do MNE..., p. 468). Acrescente-se, ainda, que, durante o tempo em que foi alvo de um processo disciplinar, Aristides foi suportado pelos irmãos, César e um outro, pois esteve sem salário nos meses após ter sido colocado na disponibilidade; a pena de inactividade durante um ano valeu-lhe um corte de metade do vencimento; mas, ao fim de um ano, recuperou a totalidade do salário (idem, p. 470)”.

Nas discursatas proferidas no Panteão terão estas conclusões, resultado de uma investigação séria, sido consideradas? Creio que não. Pelo contrário. Porquê? Não sei e, no entanto, a tese de Lina Madeira está à consulta na Biblioteca Nacional de Portugal.  

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