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Os calores da Primavera
Opinião Portugal 3 min. 22.03.2021

Os calores da Primavera

O primeiro-ministro, António Costa, participa no debate parlamentar sobre política geral, na Assembleia da República, a 17 de março de 2021.

Os calores da Primavera

O primeiro-ministro, António Costa, participa no debate parlamentar sobre política geral, na Assembleia da República, a 17 de março de 2021.
Foto: Lusa
Opinião Portugal 3 min. 22.03.2021

Os calores da Primavera

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Sem agoirar, quero apenas relembrar o prudente aviso que aqui fiz no princípio do ano - a Primavera de 2021 pode trazer consigo, além de andorinhas e de flores de múltiplas cores, uma crise económica e uma crise política.

Portugal é governado por um executivo de maioria relativa que, na legislatura anterior, soube ultrapassar essa questão, com uma improvável aliança dos partidos de esquerda. A imaginação de um comentador crismou-a de "geringonça". Muitos diziam que acabaria cedo, provocando o espalhanço do Governo, sem apelo nem agravo.

Mas enganaram-se. Essa tal de "geringonça" cumpriu o seu papel a preceito e durou toda a legislatura, para felicidade da esquerda. Veio a legislatura seguinte, a actual, e logo se começou a perceber que não seria fácil repetir a fórmula anterior. Cada partido, com os seus problemas internos, foi impedindo a convergência necessária, para repetir a "geringonça".

António Costa percebeu que o PCP lhe iria dar muito trabalho. E estava ainda para chegar a pandemia.

O Bloco de Esquerda mais irredutível, recusou repetir a experiência, convencido que tinha perdido votos, para o PS. O PCP fazia uma análise idêntica, mas impôs a si mesmo a obrigação de impedir o regresso da direita ao poder. E assim, convergiu com o PS, em termos suficientes para garantir um governo de esquerda.

Mas foi deixando alguns avisos. Iria opor-se a qualquer tentação do PS de desenvolver políticas que o PCP considerasse de direita. E outros, sobretudo, no domínio das políticas sociais e laborais. Desde logo, António Costa percebeu que o PCP lhe iria dar muito trabalho. E  estava ainda para chegar a pandemia, com a necessidade de reforçar o Orçamento para a saúde e para as políticas de apoio às empresas e aos trabalhadores.

Tudo isto obriga a um Orçamento Rectificativo que, como disse em Janeiro, chegaria na Primavera. E, para o aprovar, o Governo precisa do apoio da esquerda, nem que seja pela abstenção.

O PCP parece pouco entusiasmado em viabilizar a continuidade do Governo. Diz que o apoio às empresas tem sido anémico e, por isso, incapaz de lhes dar pulmão suficiente para enfrentarem a crise. E os apoios aos trabalhadores tem sido ainda piores, escasseando a informação, sobre os volumes de dinheiro afectos a essas políticas sociais e qual o número de assalariados que delas beneficiou.

O Governo é ainda acusado de acreditar em excesso, no comportamento da economia, nos meses de Verão. Vai haver um crescimento económico, mas insuficiente para ultrapassar a crise que se adivinha, avisam os comunistas. Mas tudo se vai compor. O Bloco de Esquerda já deve ter percebido que não obteve ganhos de causa com o distanciamento, em relação ao Governo. Por isso, talvez entenda que está na altura de corrigir a trajectória.

O Partido Comunista, acima de tudo, vai ser fiel aos seus princípios e vai impedir que a direita regresse ao poder. Logo, acabará por deixar passar este orçamento rectificativo. Mas sempre, com sérios avisos ao Governo e contrapartidas que beneficiem os assalariados.

As próximas semanas prometem luta política dura, até porque, estamos em ano de eleições autárquicas, com importância variável para os diferentes partidos, mas fundamentais para todos. Em Belém, está Marcelo Rebelo de Sousa atento a tudo e sem abdicar da sua capacidade de intervenção.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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