Escolha as suas informações

Os bons, os maus e os doutores
Opinião Portugal 4 min. 23.01.2022
Legislativas

Os bons, os maus e os doutores

Legislativas

Os bons, os maus e os doutores

Foto: Lusa
Opinião Portugal 4 min. 23.01.2022
Legislativas

Os bons, os maus e os doutores

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Em Montalegre, coração do Barroso, estavam mais de 300 pessoas sem medo do frio. Num cartaz podia ler-se: "Ide cavar pra vossas terras!" A quem se dirigia a mensagem, já que não estava a prevista numa acção de campanha para aqueles lados? A quem servisse a carapuça.

O protesto era contra a exploração mineira, que não tem sido tema nesta campanha eleitoral, onde se tem discutido tudo o que não interessa, como são excelentes exemplos a instituição da pena perpétua, a castração química, os animais de estimação dos candidatos, todas e mais algumas tipologias de geringonça, mas a exploração mineira e todas as consequências ambientais que acarretam para as regiões e para as suas populações, isso não.

Directos para Coimbra onde, ao sétimo dia, aleluia, Rui Rio tirou a máscara do sorriso e apresentou-se com um ar carregado. Ao retardador, como é seu apanágio, respondeu ao epíteto que Rosa Mota usou para se referir a ele quando foi presidente da CM de Porto. Mesmo assim, em momento algum Rui Rio mencionou a autora do impropério. Em vez disso, carregou na intelectualidade. "Parece que houve para aí um encontro de intelectuais em que me chamaram ´pequeno nazi` (o termo exacto foi ´nazizinho`). Podia muito bem processá-los por difamação, mas depois o advogado de defesa deles podia dizer-me: intelectuais? Mas quais intelectuais, senhor dr. Rui Rio?" É sempre bom de saber que Rui Rio tem sobre si próprio alta deferência, referindo-se à sua pessoa como senhor doutor. 

O senhor doutor Rui Rio, que não se fia em sondagens quando estas lhe são desfavoráveis, dizendo sobre estas que valem o que valem quando lhe dá para os ares de estadista, e que os indicadores são sem dúvida importantes quando apontam uma aproximação ao PS, tinha de ir andando para Espinho, que o povo lá é sereno, desde que não tenha de esperar. Por acaso do destino, para Espinho ia a comitiva do PS, com o primeiro-ministro ao leme. A coisa prometia. Ou talvez não. O que dirá ao dr. António Costa, se o encontrar, dr. Rui Rio? "Que se a campanha do PS prosseguir pela via do insulto e da difamação, o dr. António Costa vai ficar a falar sozinho". Tipo maioria absoluta, senhor doutor? "Isso é que não".

Por algum milagre só compatível com o dr. Francisco Rodrigues dos Santos na pasta da Defesa Nacional, o dr. Ventura como vice-primeiro-ministro ou o dr. Cotrim de Figueiredo com uma pasta qualquer, "pode ser a da Reforma Administrativa", as comitivas social-democrata e socialista andaram às voltas por Espinho sem nunca se cruzar, com os senhores doutores em fogo cruzado de farpas. Na comitiva socialista foi o dr. Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas e da Habitação, que o dr. Rui Rio alvitrou como primeiro-ministro sombra, a estrela da tarde. 

É possível que ambas as comitivas tenham exercido em Espinho a primeira convergência de bloco central, convergindo em não convergir na mesma rua, à mesma hora, embora a presença de ambos baralhasse um pouco quem só estava a passear. Mal se apanhou o primeiro-ministro a jeito, a pergunta sacramental; "E se encontrar o dr. Rui Rio, dr. António Costa? O que é que lhe vai dizer?" O primeiro-ministro fez uma pausa de seis segundos, o tempo de um suspiro dramático e, por uma vez, lá respondeu a uma pergunta que lhe era colocada: "Boa tarde!" Era isso que lhe dizia, dr. António Costa? "Sim. E que melhorasse rapidamente dos sangramentos (nasais)".

Ao longe, em Braga, o Chega já fazia uma valente arruada, cheia de armários a sussurrar com os próprios ombros, malta a envergar coletes reflectores verdes, jornalistas, sempre com apetite aguçado pela raridade da espécie e, claro, o dr. André Ventura com mais seguranças em redor que Donald Trump quando visitou a Disneylândia. 


Bilhete postal
Histórias diárias da campanha para as legislativas portuguesas de 30 de janeiro, pelo jornalista Luís Pedro Cabral.

No total, incluindo os mencionados, estavam na arruada do Chega umas cinquenta pessoas e pelo menos um doutor. Algures, o dr. Chicão dirigiu-se à nação eleitoral para declarar que não é nenhum dr. "Paulinho das feiras" e para deixar um alerta para a crise do leite. o IL foi pregar para um dos seus palcos predilectos, entre o Cais do Sodré e Santos. O PAN também ficou sossegadinho na capital, promovendo uma visita à Sociedade Protectora dos Animais, onde a dra Inês de Sousa Real desenvolveu a ideia de consignar verbas do OE para a criação de uma espécie de SNS dos animais. Ai, se os animais votassem...

A propósito: o governo tinha previsto que se tivessem inscrito para hoje votar antecipadamente em mobilidade perto de um milhão de eleitores. Os números ficaram muito aquém: 316 mil inscritos. Destes, veremos quantos votam. Os optimismas consideram que poderá ser um sinal de maior afluência às urnas no próxima dia 30. Os realistas consideram que é mais um barómetro das intenções de abstenção. Talvez por isso, em Espinho, quando alguém transbordava o entusiasmo para um "vamos ganhar", António Costa dizia "vamos votar".

 (Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.