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Opinião. Os polícias e os outros
Editorial Portugal 3 min. 28.11.2019

Opinião. Os polícias e os outros

Opinião. Os polícias e os outros

Foto: José Sena Goulão/Lusa
Editorial Portugal 3 min. 28.11.2019

Opinião. Os polícias e os outros

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Uma polícia infiltrada por gente de extrema-direita é muito inquietante. E eles dizem que já representam 12 mil, dos 40 mil efetivos da PSP.

As polícias manifestaram-se há dias [em Portugal], reclamando melhores condições de trabalho e atualizações salariais que já não acontecem há 10 anos. Desta vez, o protesto teve uma novidade, o chamado Movimento Zero que parece intimamente ligado à extrema-direita.

Os dirigentes dos inúmeros sindicatos tentaram demarcar-se desse grupo e, de algum modo, conseguiram-no. Em contrapartida, o deputado do Chega aproximou-se do grupo, vestiu a sua camisola e até discursou na manifestação. Foi um golpe de oportunismo baixo.

Movimentos deste tipo, chamados inorgânicos, sem lideranças conhecidas, têm aparecido um pouco por toda a Europa. São semelhantes aos "coletes amarelos" de França. Em menor escala, também existem em Espanha e na Alemanha.

Em Portugal, o fenómeno está a ganhar uma escala alarmante. Por exemplo, no caso dos enfermeiros, surgiram sindicatos, vindos do nada e com uma representatividade que ninguém conhece. Conseguiram recolher fundos de greve, de origem apócrifa e, à custa disso, fizeram greves intermináveis que lançaram o caos nos hospitais públicos. Mas não fizeram uma única greve nos hospitais privados, onde os salários são muito mais baixos, com horários de trabalho esclavagistas.

Como as polícias não gozam do direito à greve, o Movimento Zero terá de usar a imaginação para desencadear uma luta, tão caótica, como a dos enfermeiros. Mas há outros exemplos na memória recente, como seja o caso dos motoristas de matérias perigosas.

Qualquer pilha-galinhas ganha mais que um agente da autoridade, com muito menos esforço e sem qualquer responsabilidade.

A responsabilidade de tudo isto cabe ao governo, a este e aos seus antecessores, e também às associações patronais que, ao longo dos últimos anos, tudo têm feito pela completa desregulação das relações laborais, começando pelo boicote descarado à contratação coletiva. Com isto, desvalorizaram o papel dos sindicatos que, em alguns setores de atividade, estão praticamente mortos.

Criou-se assim o ambiente favorável ao aparecimento destes movimentos radicais, que se mostram muito mais ativos que os sindicatos e que encontram nas justas reivindicações a gasolina de que precisam para incendiar as relações laborais.

Mas o poder político tem outras culpas nesta questão. Já o escrevi nesta coluna que Portugal precisa de uma lei da representatividade, tanto para associações sindicais, como para as patronais. E a PSP é um bom exemplo. Existem sindicatos a mais, alguns sem qualquer representatividade. Um jornal chegou mesmo a escrever que um desses sindicatos tem mais dirigentes que filiados.

Não posso validar esta informação, mas sei que, noutros setores, há sindicatos onde, em eleições, o número de votantes é inferior ao número de eleitos.

O governo terá de resolver, com urgência, o caso da PSP e da GNR, começando por rever o estatuto remuneratório dos seus efetivos. Não é admissível que um agente da PSP, ou um militar da GNR, em princípio de carreira, tenham um salário bruto inferior a 800 euros. E que precisem de 25 anos de serviço para ganharem 1250 euros líquidos. Qualquer pilha-galinhas ganha mais que um agente da autoridade, com muito menos esforço e sem qualquer responsabilidade.

As negociações entre governo e sindicatos vão continuar, mas há nova manifestação pré-agendada para janeiro. Claro que o Movimento Zero fica de fora do processo negocial. Mas deve constituir uma preocupação para o executivo de António Costa. Uma polícia infiltrada por gente de extrema-direita é muito inquietante. E eles dizem que já representam 12 mil, dos 40 mil efetivos da PSP.