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Opinião. O dinheiro do Estado e a crise dos privados
Editorial Portugal 3 min. 12.12.2019

Opinião. O dinheiro do Estado e a crise dos privados

Opinião. O dinheiro do Estado e a crise dos privados

Foto: Pixabay
Editorial Portugal 3 min. 12.12.2019

Opinião. O dinheiro do Estado e a crise dos privados

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
A ideia partiu do Presidente da República – o Estado devia subsidiar a imprensa portuguesa, numa altura em que atravessa uma grave crise económica.

A ideia partiu do Presidente da República – o Estado devia subsidiar a imprensa portuguesa, numa altura em que atravessa uma grave crise económica.

Marcelo Rebelo de Sousa foi jornalista e administrador de empresas jornalísticas privadas, numa época em que grande parte da imprensa, rádio e televisão era propriedade do Estado. Lembro-me de então o ouvir defender a privatização quase total dos meios de comunicação, porque, na sua respeitável opinião, não fazia sentido ser o Estado a pagar a informação. E depois, acrescentava uma vasto argumentário, em favor da sua tese, que passava pelo discutível convencimento de que uma imprensa privada seria mais independente.

Nunca estive de acordo com isto, apesar de eu só ter trabalhado num órgão estatal, a Rádio Comercial e na Euronews que tinha a RTP como acionista. Os governos de Cavaco Silva acabaram por ceder a esta pressão e grande parte da comunicação do Estado passou para os privados, com as excepções que se conhecem.

Chegámos agora a uma situação de crise que coloca grandes ameaças ao futuro da comunicação privada. As vendas em banca caiem a pique e, com elas, as receitas de publicidade. Quanto menos audiência um meio tem, menos publicidade vende. Hoje, é possível avaliar quantos pontos de contacto tem um anúncio e, por essa razão, os investidores em publicidade não se deixam enganar.

Perante este quadro, a banca nega financiamentos às empresas e a situação vai-se deteriorando, todos os dias. Como sempre acontece em Portugal, quando o mar fica mais alto que a terra, há a irreprimível tentação de apelar ao dinheiro público. É o mais fácil e tem sempre um nível de exigência mínimo.

Marcelo Rebelo de Sousa não propôs qualquer modelo, para esse subsídio e duvido que venha a ser concreto nessa questão. Pelo menos, para já. Limitou-se a atirar barro à parede e agora espera pelas reacções.

Esta falta de diversidade e pluralismo tornou os jornais e algumas rádios desinteressantes e monótonas, afastando audiências.

Pode perguntar-se, como se chegou a esta situação. A resposta não é difícil. Nos últimos 20 anos, houve uma quebra de qualidade enorme, nas redacções de todos os meios de comunicação, associada a uma quebra de investimento. As empresas queriam reduzir os custos de mão-de-obra, dispensando jornalistas seniores, substituindo-os por jovens inexperientes, pagos com salários de “baixo perfil”, para usar um jargão dos gestores. A isto, juntou-se a campanha do pensamento único, com muitos opinon makers a dizerem todos a mesma coisa. Imagine-se que um jornal publica, na mesma edição, três artigos de opinião, que coincidem na análise, sobre o mesmo assunto. Isto é frequente, em Portugal.

Esta falta de diversidade e pluralismo tornou os jornais e algumas rádios desinteressantes e monótonas, afastando audiências. Há ainda a crescente oferta online que, mesmo quando é paga, fica sempre mais barata que a compra de jornais em papel. Aqui a oferta é vasta e, num mesmo jornal, encontra-se uma diversidade de opinião e de opções editoriais que faltam aos media portugueses.

Isto significa que, qualquer que seja o modelo de subsídio que se venha a encontrar, o resultado será sempre nulo. Será dinheiro desperdiçado que não acabará com a crise que vai dilacerando a imprensa portuguesa, algumas rádios e até televisões vocacionadas para a informação.

Há ainda outra questão que retira razoabilidade à proposta de Marcelo Rebelo de Sousa. Embora com lógicas diferentes, o Estado também está no mercado e, também por isso, não faz o menor sentido ir agora financiar os seus concorrentes.

Falta falar da imprensa portuguesa que se publica no estrangeiro, incluindo, naturalmente, rádios e televisões. Neste sector, há fortes razões para justificar um subsídio do Estado. A primeira delas é manter as comunidades portuguesas em contacto constante com a língua e a cultura portuguesa. Depois, possibilitar a informação sobre Portugal que, geralmente, é pouco apelativa para os órgãos de informação estrangeiros. Finalmente, uma terceira razão. Os media de língua portuguesa, no estrangeiro, contribuem para a coesão das comunidades.


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