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Opinião. Matar o mensageiro e esquecer a mensagem
Editorial Portugal 2 min. 23.01.2020 Do nosso arquivo online

Opinião. Matar o mensageiro e esquecer a mensagem

Opinião. Matar o mensageiro e esquecer a mensagem

Foto: AFP
Editorial Portugal 2 min. 23.01.2020 Do nosso arquivo online

Opinião. Matar o mensageiro e esquecer a mensagem

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Em Portugal, nada se fez para aproveitar o trabalho de Rui Pinto que não será tão inocente e altruísta, como se pode pensar.

Concluída a fase de instrução do processo, o hacker Rui Pinto ficou a saber que vai mesmo a julgamento, para prestar contas à justiça por 90 crimes. A juíza considerou que outros 54 factos constantes da acusação não configuravam a existência de delitos. A maioria desses factos que não será julgada diz respeito a violações de correspondência, que, para ser considerada ilícito, necessitava de uma queixa dos ofendidos, o que não consta dos autos. Como já disse aqui por uma vez, se Rui Pinto cometeu crimes, deve ser julgado por eles. 

Mas subsiste a grande questão. Ele, com as suas habilidades informáticas, conseguiu provas de crimes de grande envergadura, sobretudo de natureza financeira e fiscal. As autoridades de outros países, como França e Espanha, aproveitaram essas denúncias e atuaram sobre os prevaricadores. Que o digam Cristiano Ronaldo e José Mourinho, entre outras glórias do futebol, que tiveram de acertar contas com as finanças, já em fase de julgamento. 

Ao contrário, em Portugal, nada se fez para aproveitar o trabalho de Rui Pinto que não será tão inocente e altruísta, como se pode pensar.  

Ao contrário, em Portugal, nada se fez para aproveitar o trabalho de Rui Pinto que não será tão inocente e altruísta, como se pode pensar. Uma das acusações porque terá de responder será de extorsão, na forma tentada, sobre um dos misteriosos e obscuros fundos que atua no mundo do futebol. Rui Pinto será, com toda a certeza condenado. Com uma carga de 90 crimes, é certo que a justiça conseguirá arranjar, pelo menos um crime, para o sancionar. Salvaguardando as devidas diferenças, Rui Pinto lembra-me o hacker, Edward Snowden, que fez tremer a Casa Branca, ao revelar segredos da espionagem norte-americana. Quando a mensagem não agrada, mata-se o mensageiro, relevando a substância da mensagem. Foi isso que fez Dario III, rei da Pérsia. 

Mas há outro aspecto digno de referência. Os grandes especialistas em informática ganharam um poder nas sociedades que assusta as instituições. Snowden diz isso, no seu livro "Vigilância Massiva Registo Permanente". A questão já tinha sido aflorada, no filme que Oliver Stone fez sobre as aventuras deste antigo informático da CIA. Em Portugal, a figura de Rui Pinto e de outros com a sua qualidade informática também causa pânico. Sabe-se lá do que eles serão capazes. Também por essa razão ele será condenado, de forma exemplar, para desestimular outros com as mesmas competências. Só o futuro dirá se é herói ou vilão.