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Opinião. Eu pago, tu pagas, ele não paga…!
Editorial Portugal 3 min. 18.04.2019

Opinião. Eu pago, tu pagas, ele não paga…!

Opinião. Eu pago, tu pagas, ele não paga…!

Foto: Lusa
Editorial Portugal 3 min. 18.04.2019

Opinião. Eu pago, tu pagas, ele não paga…!

Sérgio Ferreira Borges
Sérgio Ferreira Borges
Três bancos anunciaram a intenção de executar a extensa coleção de arte de Joe Berardo para assim conseguirem recuperar a dívida deste madeirense que ascende a 980 milhões de euros.

Só por essa razão se conseguiu saber quanto é que este homem deve aos bancos. Além da arte, dele só existe uma garagem no Funchal. Uma falácia, um expediente banalizado, porque todo o seu vasto património está no nome de familiares ou da sua fundação que pode um dia vir a ser também executada. Aí existe um buraco financeiro superior a 500 milhões de euros.

Vale a pena recordar o passado desta bizarra criatura, contado por ele próprio. Emigrou para a África do Sul, ainda jovem, onde montou uma pequena empresa familiar de distribuição de legumes frescos. Um dos seus clientes era o ministro dos Recursos Naturais (não garanto que a designação fosse exatamente esta). Berardo sempre fez questão de deixar o serviço a este estimado cliente para si próprio. No caminho, até casa do ministro, passava sempre por uma mina de ouro que estava desativada há muitos anos para manter o preço do metal mais valioso. Sem grande convicção, Berardo costumava pedir ao ministro que o deixasse explorar aquela mina.

Até que, um dia, o ministro perguntou-lhe se ele estava seriamente interessado na mina. O preço do ouro tinha subido muito e, portanto, a África do Sul ia aumentar a exploração para equilibrar o mercado. Berardo respondeu de imediato que sim e tratou das questões legais para concretizar um sonho que, geralmente, só existe em estórias de fantasia. Segundo as suas próprias palavras, começou aqui a construir uma fortuna que, até hoje, ninguém avaliou com rigor. Alguma imprensa económica fez uma previsão que ronda os 600 milhões de euros. Mas essa imprensa também noticiava, em 2012, que Berardo estaria falido.

Regressou anos mais tarde a Portugal com um saldo bancário que despertou muitas cobiças. As empresas desejavam-no, os bancos perseguiam-no e Joe Berardo ia colecionando simpatias, nem todas sinceras. Mas conseguiu dar a volta ao texto e, se numa primeira fase toda a gente queria o dinheiro dele, rapidamente a situação se inverteu. Passou a ser Berardo a querer o dinheiro dos outros, sobretudo dos bancos.

Se as ações do BCP se tivessem valorizado, Joe Berardo ficava com o lucro. Como se desvalorizaram, a CGD ficou com o prejuízo.   

Disse sempre que não era empresário, mas sim investidor. Os bancos começaram a emprestar-lhe dinheiro para diversos investimentos. Mas, mais escandaloso, começaram a emprestar-lhe dinheiro para ele reforçar a sua posição acionista noutros bancos. Foi o caso da Caixa Geral de Depósitos que lhe emprestou o dinheiro de que ele precisava para comprar ações do Millennium BCP. Como garantia do empréstimo, ele deu as ações que ia comprar. Acontece que o valor dessas ações caiu vertiginosamente e hoje não servem para garantir coisa alguma. Portanto, a CGD ficou a arder e agora não sabe onde pode ir buscar o dinheiro.

Em causa está a lógica imoral que presidiu a este negócio. Se as ações do BCP se tivessem valorizado, Joe Berardo ficava com o lucro. Como se desvalorizaram, a CGD ficou com o prejuízo. Assim se fazem negócios em Portugal, sobretudo, usando dinheiros públicos. E a CGD só tem um acionista: o Estado.

Mas ele pediu ainda dinheiro ao BCP e ao BES, agora Novo Banco. São também estes bancos que querem a coleção de arte para tentar reaver aquilo que lhes pertence. Joe Berardo não anda angustiado com o assunto, embora esteja mais silencioso do que habitualmente. Quem o conhece, diz que ele ainda não jogou todos os argumentos que tem a seu favor.

A coleção agora reclamada está exposta no Centro Cultural de Belém, ao abrigo de um acordo celebrado entre Berardo e o Estado português. Está avaliada em 316 milhões de euros, um valor que fica muito aquém da dívida reclamada pelos bancos.

Mas ele não é o único responsável por este escândalo. Quem lhe emprestou o dinheiro, com garantias tão frágeis e tão voláteis, também deve prestar contas perante a justiça. Os bancos não podem continuar a pedir dinheiro ao Estado ao mesmo tempo que o esbanjam em empréstimos sem garantias reais.

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