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OPINIÃO: Desemprego e democracia
Editorial Portugal 3 min. 30.04.2014

OPINIÃO: Desemprego e democracia

AVENIDA DA LIBERDADE, por Sérgio Ferreira Borges - O 25 de Abril acabou, vem aí o Primeiro de Maio. Mas há muitas instituições que pretendem prolongar as comemorações dos 40 anos da revolução dos cravos até 2015. A proposta faz algum sentido, se o tempo for bem aproveitado.

As sondagens publicadas durante estas semanas, feitas por insuspeitas organizações, levantaram imensas questões sobre a qualidade da democracia portuguesa. E isso deve ser discutido, sem tabus, nem reservas de consciência.

Votar, de quatro em quatro anos, é manifestamente insuficiente, para garantir uma democracia, em toda a sua plenitude. E, por muito que custe admitir, a democracia portuguesa está circunscrita a esta pequena intervenção dos cidadãos. Há excepções, claro, que confirmam esta regra. O resto do regime está entregue à actuação dos partidos que se alheiam, completamente, da sociedade, dos seus interesses, dos seus anseios. Preferem, claramente, responder às clientelas, aos aparelhos.

Tudo isto está a causar uma enorme insatisfação entre os portugueses. Sabem que falam, mas que ninguém os ouve, ninguém leva em consideração aquilo que dizem.

E, agora, tudo mudou. O programa de assistência financeira transformou a democracia em qualquer outra coisa, a que podemos chamar de austeriocracia. Os cortes, o aumento de impostos, a criação de taxas, o empobrecimento da classes assalariadas parece ser o único objectivo do poder político. A democracia deixou-se subalternizar por interesses espúrios. Há uma dívida para pagar, é certo. Mas não será o enfraquecimento da democracia que vai facilitar o cumprimento dessa obrigação.

Esta descrença na democracia está a tornar-se perigosa. Por exemplo, muitos portugueses ouvidos nestes estudos de opinião dizem que, no tempo de Salazar, Portugal tinha uma vida económica muito melhor. É uma mentira, fruto da fraca memória de muita gente. Mas, apesar de tudo, compreensível, porque a questão radica no emprego.

 De facto, nos tempos de Salazar, havia quase pleno emprego e hoje o desemprego é de praticamente 20 por cento da população activa. Cabe aqui dizer que o aparente pleno emprego, do tempo de Salazar, existia porque a censura travava todas as notícias sobre o desemprego. Mas há outro factor importante: quase toda a gente trabalhava, mas muitos milhares de pessoas usufruíam salários de impiedosa miséria.

Havia empregos onde se ganhavam 300 escudos (um euro e meio) por mês, sem descontos para segurança social ou reforma. Um exemplo mais concreto: uma recepcionista de um consultório médico, em Lisboa, ganhava 750 escudos (3.75 euros), trabalhando sem horário, em regime de semana inglesa (trabalhava ao sábado de manhã) e, no fim da jornada, ainda tinha de fazer uma parte da limpeza do consultório. Portanto, o pleno emprego de Salazar era uma ilusão a que Marcelo Caetano não conseguiu dar continuidade. De 1968 para cá, começou a haver mesmo desemprego, que o chefe do Governo justificou com o primeiro “choque petrolífero”. A esta causa juntaram-se depois outras.

É óbvio que, com esta recordação dos tempos da ditadura, não pretendo justificar a brutal taxa de desemprego que se deve, exclusivamente, ao regime económico que se tem vindo a impor na Europa, nos últimos 30 anos, vindo dos Estados Unidos.

O grande capital prefere investir no sector financeiro, de remuneração mais atraente e rápida. Isto significa que o investimento no sector produtivo, sobretudo, no industrial, tem vindo a ser drasticamente reduzido. Além disso, faltam capitais próprios para o investimento produtivo, lançando os empresários na mão dos bancos que praticam taxas de juro usurárias, para assim poderem remunerar o capital financeiro. É esta a única explicação para tanto desemprego, especialmente em Portugal.

Aqui, o investimento produtivo é muito inferior a 10 por cento do investimento financeiro. E o desemprego cresce, porque o capital produtivo cria postos de trabalho e o financeiro destrói-os.

Sérgio Ferreira Borges