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Opinião. Costa acima, Rio abaixo!
Rui Rio.

Opinião. Costa acima, Rio abaixo!

Foto: EPA
Rui Rio.
Editorial Portugal 3 min. 30.05.2019

Opinião. Costa acima, Rio abaixo!

Sérgio Ferreira Borges
Sérgio Ferreira Borges
O PS não obteve uma grande vitória nas eleições de domingo, mas o PSD conseguiu uma derrota de larga escala. Os números da vitória de um não correspondem aos números da derrota de outro.

O grande mérito do PS está na recuperação que fez, em apenas cinco semanas. Em abril, havia sondagens que colocavam PS e PSD em situação de empate técnico. Isto quer dizer que a diferença entre eles era inferior ao intervalo de confiança das sondagens.

De repente, estoirou a crise da contagem do tempo de serviço dos professores. Rui Rio preferiu ir ao encontro dos desejos de uma classe numerosa e muito influente, nas escolhas políticas da sociedade. Pensou que era ali que conquistaria os votos suficientes para ultrapassar o PS.

António Costa, instigado por Mário Centeno, preferiu apostar na estabilidade das contas públicas e jogou forte, ameaçando demitir-se, se os outros partidos o obrigassem a pagar os mais de nove anos de congelamento das carreiras.

A crise não demorou muito tempo e cada um começou a recuar, com a habilidade possível. Rui Rio foi o mais inábil e, em dois dias, ficou sem discurso, sem saber o que dizer aos portugueses.

Rui Rio ficou mergulhado numa sufocante onde de pessimismo"

Aí se começou a desenhar o resultado destas eleições europeias. Costa apostou tudo na campanha, consciente de que o seu cabeça de lista não conquistava grandes simpatias entre os eleitores.

Rio achou que este empenhamento de Costa era a oportunidade para o derrotar. Foi um erro de análise. Hoje, Costa pode orgulhar-se de ser de facto o vencedor destas eleições, ainda que os números tenham ficado aquém das suas melhores expectativas. Com este resultado, parte animado para as legislativas de outubro.

Pelo contrário, Rui Rio ficou mergulhado numa sufocante onda de pessimismo que mal o deixa respirar. Nem sabe se, entretanto, não terá de enfrentar mais um movimento de contestação interna dentro do PSD. Talvez não haja, nesta altura, ninguém para desafiar a sua liderança, por uma singela razão: é quase impossível, num tão curto espaço de tempo, preparar o partido para uma vitória, em outubro. E, ser líder para perder não é coisa que os seus adversários internos desejem.

António Costa deseja, para o futuro, uma solução governativa parecida com a actual. Por isso, no discurso de vitória, elogiou o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, também eles vencedores, na sua discutível opinião. O PCP perdeu metade da votação, em relação a 2014.

À direita, houve mais uma derrota estrondosa, previsível. O CDS continua em queda, mostrando que a excelente votação de Assunção Cristas para a Câmara de Lisboa foi um acidente, sem direito a reincidência. Ela pode queixar-se do seu cabeça de lista. Nuno Melo fez uma campanha muito fraca, passando a ideia de estar a cumprir um frete pesadíssimo, que nunca desejou.

O futuro de Cristas não deve ser muito diferente do de Rui Rio. Talvez se aguente até às legislativas e aí, se o fracasso se repetir, terminará uma carreira política que não chegou a ser brilhante, como ela desejava.

O Bloco de Esquerda elegeu dois deputados e tornou-se na terceira força política, bem à frente do PCP e do CDS. O sucesso dos bloquistas pode justificar-se com dois aspectos. Primeiro, tiveram a humildade suficiente para recuar na questão dos professores, evitando o confronto político com o PS e o Governo. Em segundo lugar, fizeram uma bela campanha, usando bem a empatia de Marisa Matias junto do eleitorado.

A abstenção voltou a ser elevada, chegando quase aos 70 por cento. Não é uma surpresa, mas é uma patologia das democracias europeias que precisa de terapia urgente. Os atores políticos devem assumir as suas responsabilidades e reconhecer que não atraem o interesse dos eleitores.

Não são os únicos culpados. Em Portugal, por exemplo, é enorme a quantidade de cidadãos eleitores que desconhece, quase em absoluto, a política europeia. Uma sondagem recente revelou que uma parte muito significativa dos eleitores nem sabia qual era o objectivo destas eleições. A burocracia de Bruxelas não consegue chegar aos cidadãos.


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