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Opinião. A tempestade perfeita
Editorial Portugal 2 min. 28.04.2020

Opinião. A tempestade perfeita

Vendedora de frutas e legumes no mercado municipal de Benfica, em Lisboa.

Opinião. A tempestade perfeita

Vendedora de frutas e legumes no mercado municipal de Benfica, em Lisboa.
Foto: AFP
Editorial Portugal 2 min. 28.04.2020

Opinião. A tempestade perfeita

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Não se vê grande necessidade de reabrir fábricas que depois não têm quem lhes compre a produção.

As pressões para o regresso à normalidade económica são imensas, algumas delas ignorando o estado de calamidade pública que se vive ainda em Portugal e no resto da Europa.

Os números da pandemia, nos últimos dias, permitem alimentar esperanças, mas não é garantido que esta melhoria seja irreversível. A franja da população testada ainda é muito baixa e, portanto, pode haver milhares de portugueses infetados, embora assintomáticos. Se este receio se confirmar, Portugal pode sofrer uma recaída de consequências imprevisíveis.

A ansiedade com que muita gente deseja o regresso da economia ao seu pleno é compreensível. Mas como avisou o Presidente da República, não podemos perder em maio o que ganhámos em abril.

Para além da questão sanitária, deve ponderar-se se vale a pena repor a economia tão apressadamente, tendo em conta que os nossos principais parceiros económicos também atravessam uma crise de larga escala. Vejamos o caso do turismo que contribui com mais de 25 mil milhões de euros para o PIB. 

Percentualmente, este valor representa qualquer coisa acima dos 10 por cento. No entanto, os nossos principais clientes são a Espanha, a Itália, o Reino Unido e a Alemanha, países que também estão submersos por esta crise sanitária e respetivas consequências económicas. Se pensarmos que o turismo é responsável por 10 por cento do emprego nacional, facilmente se percebe o rombo que isto representa na economia nacional.

Mais: a Espanha é o nosso principal cliente de produtos com valor acrescentado. Por isso, não se vê grande necessidade de reabrir fábricas que depois não têm quem lhes compre a produção.

O primeiro-ministro já disse que não vai aplicar uma política de austeridade, para vencer a crise económica. A declaração foi posteriormente retocada. A manutenção de rendimentos é fundamental, porque há que manter a procura interna, já que a procura externa será fraquíssima, este ano e, quem sabe, nos dois seguintes. O que aí vem é muito grave, quem sabe, pior do que aconteceu na década de 1930.

Em 1933, quando o presidente norte-americano, Franklin Roosevelt, lançou o seu programa New Deal, para aproveitar os cacos de uma economia desfeita, um jornalista de rádio perguntou-lhe qual era a diferença, entre recessão e depressão, dois vocábulos muito em uso na época, de forma arbitrária. Rapidamente, como era seu hábito, Roosevelt respondeu assim: “recessão é quando o seu vizinho perde o emprego; depressão é quando você perder o seu emprego”.

A designação, como se vê, não é o mais importante. As consequências que cada um vai sofrer é que são fundamentais, para percebermos como vai ser a nossa vida, depois desta hecatombe. Como ironicamente dizia um amigo de longa data, é melhor ser rico e saudável, que pobre e doente”. Por estes dias, parecemos todos pobres e doentes.

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