OPINIÃO: A anestesia dos três FFF

Foto: AFP

Por Hugo Guedes - “A 13 de Maio, na Cova da Iria, apareceu brilhando a Virgem Maria...” Para a minha geração esta é a letra de uma música dos Xutos censurada pela Rádio Renascença. Só mais tarde soube mais sobre o autor da letra, António Botto – um poeta de mão-cheia, protegido de Pessoa e frequentador de tertúlias com Eugénio de Andrade ou João Villaret.

O talento literário de Botto não cabia no Portugal do Estado Novo (nem a sua homossexualidade). O poeta foi despedido da função pública e emigrou para o Brasil, onde morreu atropelado sem nunca voltar à terrinha.

Reza a história que o muito católico Botto enviou a letra do cântico ao cardeal Cerejeira para que este por ele intercedesse; o cardeal nunca respondeu, mas a oração tornou-se indissociável de Fátima – o terceiro vértice do triângulo da anestesia da miséria constituído com Fado e Futebol.

Os três F não explicam tudo, mas serviram muito bem o propósito de entorpecer o grosso da população, aliená-los da política e da influência sobre o seu próprio destino.

Um povo abandonado, faminto, analfabeto, com uma esperança de vida que em 1955 não chegava aos 60 anos, um povo ignorado pelo mundo e ignorante do desenvolvimento do pós-guerra, ainda assim não se interessava, não se revoltava, não se envolvia. Apáticos, temerosos, adormecidos – e sempre muito colaborantes e servis para com o poder, assim éramos nós.

“Éramos”? A 13 de Maio de 2017, um século depois das primeiras aparições que tantos historiadores (e eclesiásticos) não têm hoje pejo em declarar como duvidosas, dois pastorinhos foram canonizados em Fátima perante milhares de pessoas.

No mesmo dia, o clube de futebol mais beneficiado pelo Estado Novo, o mesmo que hoje controla instâncias dos poderes desportivo, político, judicial e mediático, formalizou mais uma vitória no campeonato perante o olhar embevecido do primeiro-ministro e do seu ministro das Finanças, sentados, jubilantes e esquecidos das dívidas bilionárias do presidente do mesmo clube a um banco público, tutelado pelo dito ministro.

E no mesmo dia, um irresistível cantor português, com uma interpretação que muito bebe da alma e do lamento do fado, venceu um festival que de irrelevante e kitsch passou de repente a uma espécie de equivalente da descoberta do caminho marítimo para a Índia.

Nós, os anestesiados, ainda e sempre celebrando Fátima, futebol e fado: Salazar talvez esteja a sorrir desde a tumba.

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