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O verdadeiro e o falso Pedro da Silveira
Opinião Portugal 8 min. 15.10.2021
Polémica

O verdadeiro e o falso Pedro da Silveira

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O verdadeiro e o falso Pedro da Silveira

Foto: LUSA
Opinião Portugal 8 min. 15.10.2021
Polémica

O verdadeiro e o falso Pedro da Silveira

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
A recente polémica em torno de Pedro da Silveira está encerrada. A dignidade e o sentido da honra foram restabelecidos. Há, porém, dois aspectos que merecem reflexão atenta: quem era Pedro da Silveira e como o podemos homenagear no presente? Quem era Duarte de Gusmão, o homem que adoptou o nome de código "Pedro da Silveira"?

Numa passagem de A Relíquia de Eça de Queirós, o célebre personagem Topsius referiu-se à situação caricata do Raposão, a viajar na Palestina, sempre acompanhado pelos ossos dos seus avós enrolados em papel de embrulho. No ridículo da imagem, António Sérgio identificou "a nossa obcecação do osso, do morto, do antepassado (...), em proporções atemorizadoras e quase trágicas". Tratava-se, segundo o nosso maior ensaísta, de um dos traços fundamentais da cultura portuguesa: a preocupação excessiva com os mortos, em contraste com uma incapacidade generalizada para lidar com o presente. Por essa mesma razão, ontem como hoje, sucedem-se as comemorações, as trasladações e as guerras sobre a memória, a começar por quais dos nossos antepassados devem estar no Panteão ou desamparar a loja. 

Que essa atitude, simultaneamente beata e comemorativística, ridicularizada por Eça e Sérgio, percorreu todo o Estado Novo e se continua a fazer sentir, nos dias de hoje, afigura-se uma verdade difícil de pôr em causa. Na mesma linha de denúncia, Vitorino Magalhães Godinho escreveu: "organizemos a investigação científica em bases sólidas e sérias, amplas e fecundadas pela interacção entre todas as ciências humanas e sociais, arredando retóricas estereotipadas e recusando formas de meros divertimentos comemorativísticos. Só se entretêm a julgar o passado os que não têm a coragem da cidadania no presente. Cabe-nos, sim, a responsabilidade do porvir, e para tal são decisivas as ciências humanas e sociais pensadas historicamente".   

A recente polémica em torno do nome de Pedro da Silveira não foge a este quadro. No  Expresso do último sábado, António Valdemar, decano dos jornalistas portugueses, escreveu um artigo sobre o centenário da revista Seara Nova. Com base em informações arquivísticas que lhe tinham sido passadas por um mal-intencionado e mal-preparado investigador (que se remeteu cobardemente ao silêncio, em lugar de vir a terreiro assumir as suas responsabilidades pelos danos causados), em má-hora, resolveu abrir uma caixa à parte sobre um conhecido antifascista, colaborador da mesma revista – Pedro da Silveira. Acontece que essa informação estava errada e Valdemar não procedera à verificação da documentação que lhe tinha sido passada. 

Um informador da PIDE ou, mais precisamente, do MNE, infiltrado nos círculos da oposição ao salazarismo do Rio de Janeiro e São Paulo, no início da década de 1960,  de seu nome verdadeiro Duarte de Vilhena Feio Ferrari de Gusmão, recorrera ao nome de código de “Pedro da Silveira”. Logo, a documentação posta à disposição de Valdemar dizia respeito a este falso “Pedro da Silveira” e nada tinha que ver com o verdadeiro Pedro da Silveira. 

A caixa que Valdemar abrira sobre Pedro da Silveira estava errada e constituía um atentado à honra e memória de um combatente antifascista. Com a elevação que sempre mostrou, António Valdemar assumiu todas as responsabilidades pela confusão dos dois nomes, reconheceu cabalmente que errara e pediu desculpas por ter manchado a honra de Pedro da Silveira (Expresso on-line, 13-10-2021). Esta polémica está, por isso, encerrada. A dignidade de Pedro da Silveira foi restabelecida e a de António Valdemar também. 

No entanto, há dois assuntos que estão longe de ter ficado esclarecidos. Pior: o facto de terem sido aflorados no âmbito deste debate pode constituir-se em obstáculo ao seu tratamento sereno. Haverá sempre quem se escude atrás da dita polémica para lhes retirar a relevância que merecem. Explico-me melhor. 

Refiro-me, em primeiro lugar, à figura de Pedro da Silveira, "agente de propaganda médica e escritor" (como se diz na capa de um dos seus processos na PIDE),  combatente antifascista, interrogado e preso diversas vezes, açoriano das Flores, colaborador das revistas Seara Nova  e da Vértice, dirigente de uns Cadernos Açorianos de um movimento de juventude, em 1950, poeta, investigador erudito, autor de alguns livros, mas sobretudo de artigos que andam dispersos, onde cruzou a produção e a crítica literária com a pesquisa etnográfica e histórica, sem esquecer a panfletagem política. Ganhou parte da sua vida como delegado de propaganda médica e, na década de 1980, dirigiu os Serviços Culturais e, depois, os de Investigação da Biblioteca Nacional de Lisboa, agora, de Portugal. A este último respeito, fez parte de um sonho: o de trazer e sedimentar, numa instituição central da República, a pesquisa bibliográfica, erudita, mas também histórica e literária. 

Porém, para além, de alguns conhecimentos dispersos, que sabemos nós a sério acerca da vida e obra de Pedro da Silveira? Felizmente, Vasco Rosa tem a seu cargo um projecto destinado a reunir e publicar a sua obra dispersa. Só assim poderá ser avaliada a dimensão do seu labor intelectual e reconhecida a sua originalidade. Claro que um projecto dessa dimensão terá de incluir as críticas que Pedro da Silveira proferiu em relação às Ilhas. Críticas extremamente incómodas (que dificilmente podem ser aceites como uma comemoração da identidade), publicadas sob a forma de panfletos e artigos, nomeadamente na Seara Nova. Nelas, Pedro da Silveira denunciou, por diversas vezes, o grau de amolecimento da sociedade açoriana e a sua falta de combatividade na oposição ao Estado Novo. 

Em 1948, por exemplo, indignou-se face a essa "apatia enorme, que vem de longe lançando, fixando suas raízes tentaculares, abraça e estrangula os cérebros, afastando o raciocínio, fechando os olhos para a realidade ambiente". Depois, acrescentou, "os intelectuais ilhéus mergulham cada vez mais no êxtase das Torres de Marfim da morte-lenta, incapazes de um gesto, de uma palavra, qualquer coisa que signifique um passo ao encontro do homem. Ignoram a sua realidade geográfica; fogem do seu povo, como quem foge de coisa malcheirosa e repugnante”. Acabou preso por distribuir jornais clandestinos comunistas, no mês de Setembro, tendo-lhe sido fixada residência; depois, participou num comício da oposição em Fevereiro de 1949 Numa informação confidencial do Gabinete do Ministro do Interior para a PIDE, de Outubro de 1950, Pedro da Silveira é tido como membro activo do Partido Comunista açoriano, especificando-se que “assina com vários pseudónimos e iniciais, para 'camuflar'. Gaba-se de que, quando quer escrever mais forte, escreve em verso que eles (a censura) não percebe – diz ele".

Por analisar ficam as suas respostas aos interrogatórios da PIDE a que foi sujeito no início da década de 1950, onde se pressente o mesmo jogo de camuflagem e dissimulação, tal como se se tratasse de um exercício literário. Anos volvidos, em carta para Mário Braga, datada e 28 de Novembro de 1960, apreendida pela PIDE, avisa o amigo que "nesta hora extrema de fascismo lusitano" podia perder até o emprego, bastava uma ordem da “velha das botas”... Em 1970, foi um dos primeiros a subscrever uma carta exigindo a libertação imediata do P. Felicidade Alves, nela também se acusava o regime de ser intolerante e tomar o Evangelho como instrumento subversivo. No fundo, Pedro da Silveira criticou com coragem e repeliu, antes e logo após 1974, os modos de colaboracionismo açoriano em relação ao regime de Salazar. E que não se esqueça, ainda, a sua contribuição, de um outro teor político, para o semanário O Diabo de Vera Lagoa, entre 1977 e 1978.        

De qualquer modo, se a sua obra como escritor vai passar a dispor de um instrumento essencial de referência, graças ao labor e competência de Vasco Rosa, o mesmo não se pode dizer do seu legado na Biblioteca Nacional. O sonho da pesquisa organizada que ele ajudou a formar numa instituição central foi, em grande parte, destruído. É em relação a esta destruição que importa erguer todas as vozes possíveis. Como puderam sucessivas tutelas estrangular o financiamento da Biblioteca Nacional, obrigando-a a fechar divisões tão importantes tais como a da Investigação? 

Esse é, para mim, um atentado grave que, só aparentemente, parece não ter responsável e que, por isso mesmo, se dilui na indignidade dos que encolhem os ombros, na esperança de que ninguém repare. Digo-o, salvaguardando o esforço permanente da actual direcção da BNP, com provas dadas de um enorme dinamismo e abertura, mas que não dispõe de meios, devido a uma tutela desinteressada e ignara do que se passa na Biblioteca Nacional. Uma vergonha irresponsável! Este é, aliás, para mim, um dos grandes atentados à memória de Pedro da Silveira. Um atentado que conseguiu apagar o trabalho realizado por ele e por outros, destruindo um autêntico sonho projectado no futuro! Um atentado no presente – de que não podemos ser cúmplices – pelo qual ninguém se responsabiliza e, estou certo, acerca do qual ninguém terá a dignidade de vir pedir desculpas. 

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