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O teste "Duracell"
Opinião Portugal 4 min. 24.01.2022
Legislativas

O teste "Duracell"

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Foto: Lusa
Opinião Portugal 4 min. 24.01.2022
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O teste "Duracell"

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
António Costa teve um domingo gordo, a começar pelo voto antecipado em mobilidade, na cidade do Porto, num momento carregado de simbolismo, não tivesse votado no Pavilhão Rosa Mota, onde Rui Rio pagaria para não ter de votar, depois de Rosa Mota lhe ter chamado "nazizinho".

António Costa teve um domingo gordo, a começar pelo voto antecipado em mobilidade, na cidade do Porto, num momento carregado de simbolismo, não tivesse votado no Pavilhão Rosa Mota, onde Rui Rio pagaria para não ter de votar, depois de Rosa Mota lhe ter chamado "nazizinho", que não é coisa de somenos, na Invicta ou em qualquer parte. Como anda bem disposto, ainda sem perceber se há motivos ou não para isso, o líder social-democrata não quis alimentar essa polémica, embora nesta maratona eleitoral faça figas para não se encontrar com uma medalhista deste calibre, que em relação ao ex-autarca da cidade não tem qualquer tipo de filtro. 

Os números precisos desta votação antecipada só serão conhecidos a meio da semana, mas hoje o secretário de Estado Adjunto da Administração Interna veio a terreiro para demonstrar que existe um secretário de Estado Adjunto da Administração Interna e que a votação antecipada em mobilidade, apesar de muito aquém da previsões do governo, que apontava para um milhão de eleitores inscritos, em pouco tendo excedido os 315 mil, foi um sucesso percentual. Com indisfarçável orgulho, Antero Luís teceu enormes elogios à logística colocada no terreno e à participação eleitoral, que rondou os 90 por cento. Se isso será um fiel retrato do acto eleitoral do próximo domingo, ninguém sabe. Mas o medo da abstenção começa a instalar-se, como um vírus da partidarite, versão Omicron nos níveis de contágio. 

Pelos vistos, também os políticos, que andam em maré de alta-mobilidade, resolveram antecipar o discurso que normalmente se deixa para o chamado período de reflexão, quando não é para a boca das urnas. Também as sondagens começam a tirar o sono a alguns candidatos, a começar pelo primeiro-ministro, que se tem esforçado a olhos vistos para captar o voto dos indecisos, à esquerda e até ao centro-direita, apelado ao voto, ao voto, ao voto em vez dos cânticos de vitória. Está bem fresca a ferida lisboeta nas últimas eleições autárquicas. De qualquer forma, em matéria de votos, já se sabe, não há candidato que não seja pela pluralidade. Já o secretário-geral do PS, subitamente, parece ter alterado o discurso, sempre tendo em mente o velho mote: "Quanto mais a luta aquece, mais força tem o PS". É assim como uma espécie de bitaite motivacional, sendo que para o PS, aliás, como para os outros partidos, a luta só aquece quando a sondagem arrefece. 

Vem aí o tudo por tudo, senhoras e senhores. O PCP, que nestes últimos dias mais parece ter trocado o C de comunista para C de convergência, terá de volta Jerónimo de Sousa. Com que energia, artigo do momento, isso veremos. Amanhã, João Ferreira, saindo do silencioso isolamento, vai substituir João Oliveira, que deve estar exausto de tanto reproduzir a cassete em modo non-stop, como aquela gaiata que anda a flirtar com o Bruno de Carvalho, outro especialista em multidões, coisa que não se tem visto na campanha do PCP, que garante ser apenas uma medida profiláctica. Afinal, anda por aí uma pandemia. Avante. Na quarta-feira, será a vez do secretário-geral do PCP fazer a sua aparição. O PCP está consciente que necessita de um milagre político para inverter o que apontam as sondagens, sabendo nós que o PC se dá tão bem com sondagens como aquele pessoal do Big Brother em noite de nomeações.    

Não sei se repararam, mas nos últimos dias a "maioria absoluta" parece ter apanhado o barco para as Berlengas. O desígnio, uma aposta muito ambiciosa de um governo a acusar um certo desgaste, que não a máquina socialista, entrou em fade-out, como uma aia. Ou, então, António Costa, que é uma estratego sagaz, deve ter olhado do pináculo para baixo, percebendo que tinham desaparecido os degraus. Nesta campanha, em que tanto se fala de pontes, o primeiro-ministro fartou-se de queimar as suas. Primeiro foi duro com o PCP, depois lá suavizou o tom, que em relação à outra peça da geringonça, o Bloco de Esquerda, tem sido pelo menos de regular contundência. Ao ponto de ontem mesmo, a coordenadora do BE se ter tornado mais atrevida, convidando António Costa para um rendez vous no próximo dia 31 de Janeiro, logo de manhãzinha.

Em Guimarães, na terceira arruda socialista do dia, uma apoiante bastante decorada com artefactos rosa, que não de mota, pôs o dedo na ferida: "Está cansado, senhor primeiro-ministro? Olhe que parece. Veja lá..." Antes de ser carregado a ombros, António Costa, já em levitação, emerso num mar de máscaras e bandeirinhas agitadas, nem sentado, nem deitado, com o corpo a ondular desajeitado na amálgama de gente, que parecia ser mais porque a rua era pequena, com óbvio desconforto para andar naqueles preparos, feito uma rock-star debutante, que é coisa que o primeiro-ministro não é e não é. 

Grosso modo, aconteceu no berço da nação a denominada banhoca de multidão, semi-apoteótica, que António Costa tem resistido com todas as forças a embarcar em euforias. Para responder à concerned citizen, o primeiro-ministro levitante, como é de regra, devolveu a pergunta: "Cansado? Estou cheio de energia". Bom, também não é preciso exagerar.  

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)  

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O período de reflexão é como o celibato, só que por um dia, para as pessoas poderem fingir que pensam na sua vida e que têm nesta algum poder de decisão. O mais ridículo nisto tudo é que têm.