Escolha as suas informações

O regresso do urso pardo a Portugal
Portugal 5 min. 10.05.2019

O regresso do urso pardo a Portugal

O regresso do urso pardo a Portugal

Foto: Paulo Caetano
Portugal 5 min. 10.05.2019

O regresso do urso pardo a Portugal

Depois de estar extinto há mais de três séculos e não ser visto há mais de 200 anos, um exemplar dessa espécie veio visitar o território português.

É o primeiro urso-pardo a ser avistado em Portugal, em dois séculos. Mas este animal solitário e errante veio só conhecer a região, para saber se poderia fazer de Montesinho a sua colónia. Paulo Caetano investigador explicou ao Contacto porque razão surge agora um animal desta espécie considerada extinta no território português, há mais de 300 anos.

O urso-pardo que anda, por estes dias, pelo Parque Natural de Montesinho, em Bragança, está apenas de visita. Este animal, o primeiro da sua espécie a ser detetado, em Portugal, há mais de 200 anos, não tem condições para se fixar no país e procriar por terras lusitanas.

“Ele irá voltar para Espanha, de onde veio, em busca do sítio ideal para se fixar, pois não o vai encontrar em Portugal”, declarou ao Contacto, Paulo Caetano, investigador desta espécie animal considerada extinta em Portugal.

E, podem os habitantes da região ficar descansados: “O urso-pardo não é um animal perigoso. Não há registos de ataques a seres humanos. Ele gosta é de estar sozinho e de sossego”. Além de que, em Espanha, onde existem colónias desta espécie, eles são vizinhos de aldeias e vivem todos tranquilamente, vincou.

Em Portugal, o último urso-pardo de que há registo foi morto, em 1843, no Gerês, de acordo com o livro ‘Urso Pardo em Portugal - Crónica de uma extinção’, da autoria de Paulo Caetano e Miguel Brandão Pimenta, publicado em 2017. E esse também era um urso errante, estava de visita.

Até agora, não há notícia de alguém que tenha visto o animal por aquelas bandas. Sabe-se que ela anda por lá, porque “destruiu um apiário, tendo-se alimentado com 50 quilos de mel”, e deixado vestígios no local “do crime”, “pelos e pegadas”, contou o investigador.

Técnicos do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) já analisaram estes vestígios e comprovaram que, de facto, pertenciam a um urso-pardo. “No meio, já se sabia que andava um urso-pardo do lado da fronteira espanhola, em La Tejera, pois também destruiu um apiário”, admitiu Paulo Caetano, por isso, foi fácil perceber que o animal tivesse atravessado a fronteira, e pudesse estar agora em Portugal.

No entanto, esta espécie ainda vai continuar extinta no país mais uns anos. Até lá as visitas de ursos-pardos ao norte de Portugal podem é tornar-se cada vez mais frequentes.

O investigador explicou que existem atualmente duas colónias de ursos-pardos nas Astúrias, Espanha, uma na zona oriental, com 65 animais e outra a ocidente, na Cantábria, com 260 animais. Para proteger a espécie e permitir que ela se reproduzisse, as autoridades espanholas desenvolveram uma série de medidas, tendo até aberto um caminho a ligar as duas colónias.

O urso-pardo é um animal “errante e solitário”. Quando se torna um jovem adulto sai da sua zona de conforto, a da mãe e parte em busca de um local ideal para se fixar e reproduzir, recordou Paulo Caetano. Como geralmente, o seu pai ocupa a zona ao lado da sua mãe, ele tem de se distanciar mais. Assim, os ursos (machos e fêmeas) vão “viajando” cada vez para mais longe. Irão para outras regiões de Espanha, como Castela e Galiza, e daí para o norte de Portugal. “Eles vão acabar por colonizar os redutos históricos mais recentes, os locais com melhores condições. Além de que as autoridades e as populações agora também estão muito mais sensibilizadas”, indicou o especialista.

E este que está de visita a Portugal, está à procura da sua zona. Mas, como explicou Paulo Caetano, não irá encontrar. “O urso precisa de comida, sossego e de ter uma fêmea”. O Parque Natural de Montesinho, nem é um mau lugar, vincou este especialista, mas não tem a biodiversidade necessária para a alimentação do urso, nem existem urso-pardo fêmeas. Por isso, ele irá regressar a Espanha.

Portugal sem condições para o urso-pardo

“Daqui a 15 anos, talvez, estas visitam já sejam muito frequentes e se as autoridades portuguesas desenvolveram as condições para os ursos-pardos (machos e fêmeas) habitarem em Portugal, eles podem cá fixar-se e termos cá uma colónia”, perspetivou. Para tal, falta o “ordenamento florestal”.

O urso-pardo é uma” espécie topo” e ao “desenvolver as condições necessárias para existir uma colónia desta espécie, devido à biodiversidade botânica” necessária, facilita-se também o desenvolvimento de uma pluralidade de outras espécies. “O urso alimenta-se de fruta, como a maçã do monte, amoras. Precisa de uma floresta rica e diversificada”.

De resto, sossego há no país, e as fêmeas também poderão começar a chegar, se houver alimento e medidas que permitam a reprodução da espécie. Para Paulo Caetano há ainda outra prioridade: no caso do apicultor que ficou sem as colmeias por causa do urso-pardo, ele “deveria ser rapidamente indemnizado”, como se faz em Espanha. Uma forma de compensar os agricultores pelas perdas e proteger os animais. “As Astúrias acabaram por adotar o urso-pardo como o seu símbolo”.

“Desde 1650 que deixaram de haver notícias de reprodução de ursos-pardos no território. É nesse ano que consideramos que esta espécie foi extinta, ou seja, há 369 anos”, como salientou este especialista avançando, no entanto, com a possibilidade de durante estes dois séculos, alguns ursos-pardos poderem ter visitado Portugal. Mas foram apenas visitas, eles não viviam cá, nem se reproduziam. A espécie estava e está extinta.

Até ao século XVII, há relatos destorcidos dessas possíveis visitas. De “feras ameaçadoras”, “monstros horríveis” ou “bichos estranhos” avistados por populares e que pela descrição feita dos animais e das destruições que deixavam nas terras agrícolas, “levam-nos a acreditar, tratar-se de ursos-pardos”, contou Paulo Caetano. Até há relatos de populações que chamaram “exércitos” para matar o “monstro”, acrescentou.

Depois de ‘Urso Pardo em Portugal - Crónica de uma extinção’, Paulo Caetano tem já na gráfica um novo livro sobre esta espécie de ursos, que em breve irá ser lançado, em Portugal.

Paula Santos Ferreira

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.