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O que é bom para a TAP é péssimo para os portugueses
Opinião Portugal 3 min. 20.01.2022
Aviação

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O que é bom para a TAP é péssimo para os portugueses

Foto: DR
Opinião Portugal 3 min. 20.01.2022
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O que é bom para a TAP é péssimo para os portugueses

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
“Vamos hipotecar o futuro pagando dívidas passadas de uma empresa insustentável, indefensável e insultuosa”

E no sapatinho este ano estava… uma conta para pagar de 3,2 mil milhões de euros. Apenas quatro dias antes do Natal, Bruxelas anunciou que deixava prosseguir mais um assalto aos contribuintes perpetrado pelo Estado português, disfarçado com um “plano de reestruturação” de fachada que deixa tudo essencialmente na mesma. Parafraseando Churchill e a sua frase histórica no final da Batalha de Inglaterra, a TAP é parecida: nunca tantos pagaram para tão poucos.

Não admira que nos dias que se seguiram, entre bacalhau, peru e doces, aparecessem nos media lisboetas múltiplas entrevistas com os arrogantes administradores da companhia aérea e o inenarrável ministro da tutela. Para disfarçar o escândalo que se avizinha, a Comissão Europeia só requer algumas reformas cosméticas, como libertar à concorrência 9 slots duplos no aeroporto de Portugal, perdão, de Lisboa; outras “exigências” são simplesmente óbvias do ponto de vista da gestão, desde logo a venda da famigerada empresa de manutenção no Brasil que foi sempre deficitária ao longo de 15 anos.

Ponto de base: o Estado tem como função fornecer aos seus cidadãos serviços que o mercado não é capaz de garantir de uma forma abrangente, justa ou eficaz. Os exemplos são a educação, saúde, habitação, transportes públicos, justiça… Não faz parte das funções de nenhum Estado andar a brincar aos aviões, quando a aviação comercial é uma actividade altamente concorrencial, lucrativa e fornecida de forma muito mais eficiente pelo sector privado. Sabendo também que o transporte aéreo é altamente poluente, é fácil de ver que companhias aéreas “de bandeira” sustentadas por dinheiro público são, no caso geral, uma aberração (e estão a desaparecer na Europa e no mundo).

Mas no caso particular da TAP? Uma empresa que despreza os seus clientes, uma companhia aérea eternamente atrasada, com preços sempre mais altos que a concorrência, que perde malas mas não perde uma oportunidade de cancelar voos (só hoje, época em que os emigrantes precisam de regressar aos países onde trabalham depois do Natal, foram mais 12 voos cancelados); sobretudo, uma empresa que é sustentada a peso de ouro por um país pobre, com fundos obtidos de contribuintes exaustos que só recebem em troca as versões               low cost dos bens públicos referidos acima… e afinal só opera numa cidade, e só serve uma pequena elite dentro dessa mesma cidade. É absolutamente imoral, escandaloso e nojento. Mas as vozes que se insurgem contra este verdadeiro assalto são abafadas pela propaganda da minoria poderosa que defende a TAP, os únicos que têm algo a ganhar com a sua existência: quem lá trabalha, quem para lá vende, e os políticos lisboetas que gostam de viajar com dinheiros públicos (e que devem estar exultantes com a mais recente rota inaugurada este ano, Lisboa - Punta Cana, certamente muito importante para o tecido produtivo nacional).

3,2 mil milhões de euros. Seria suficiente para construir 16 (dezasseis) hospitais iguais ao futuro Hospital Central do Alentejo. Seria suficiente para qualificar toda uma geração de portugueses e prepará-los para os enormes desafios futuros do mercado de trabalho. Seria quase suficiente para construir o comboio de alta velocidade ligando o Porto a Vila Real em 43 minutos e Madrid em três horas. Em vez disso, vamos hipotecar o futuro pagando dívidas passadas de uma empresa insustentável, indefensável e insultuosa.

Ainda ontem, em entrevista de fundo, o economista Paes Mamede alertava: “é preciso que os políticos tenham consciência que a cada dia que passa em que as desigualdades aumentam e as pessoas têm menos acesso a serviços essenciais, maior é o risco de perturbação das sociedades democráticas”. Em vez dessa consciência, o governo em Portugal continua a aumentar as desigualdades e a brincar com o fogo. Talvez se arrependa. E já daqui a muito pouco tempo.

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