Escolha as suas informações

Sociedade das nações
Portugal 3 5 min. 11.10.2021
Alentejo

Sociedade das nações

A Escola Básica Engenheiro Manuel Rafael Amaroda Costa é uma das mais multiculturais do mundo.
Alentejo

Sociedade das nações

A Escola Básica Engenheiro Manuel Rafael Amaroda Costa é uma das mais multiculturais do mundo.
Foto: Valter Vinagre
Portugal 3 5 min. 11.10.2021
Alentejo

Sociedade das nações

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
A escola básica de São Teotónio, no Alentejo, é uma das mais multiculturais do mundo, onde convivem alunos de mais de 20 nacionalidades. Um realidade que decorre da imensa estufa em que Odemira se transformou e da necessidade de mão-de-obra imigrante para um dos negócios mais rentáveis que se colhe em Portugal: os frutos vermelhos. Um dia, a escola percebeu que só havia uma maneira de inverter o abandono escolar: inventar um novo sistema de ensino, adaptado à sua diversidade. Nesta escola pública, igual a nenhuma outra, nasceu um exemplo de sociedade.

Só passado mais de uma década do início da tal vaga migratória (esta) se começaram a tornar evidentes as consequências no sistema de ensino. Os níveis de abandono escolar fizeram soar todos os alarmes. “Em 2011, as taxas de abandono escolar em São Teotónio já passavam dos 30 por cento e as taxas de reprovação começavam já a atingir médias de mais de 40 por cento dos nossos alunos. Não podíamos continuar a assistir a este aumento exponencial do abandono escolar. Não eram sinais. Eram evidências, com sequelas gravíssimas para o futuro”, recorda Rui Coelho, director do agrupamento de escolas de São Teotónio. Por junto, a gravidade dos números não reflectiam apenas um problema escolar, mas um denso problema social, que cedo ou tarde cairia nos braços desta freguesia, que é sempre um fiel barómetro do maior concelho de Portugal e, à sua maneira específica, de Portugal.

O número de estrangeiros é tão elevado que os alunos portugueses têm aulas à parte.

Rui Coelho, director do agrupamento de escolas de São Teotónio.

A solução afigurava-se bastante complexa, ainda assim, a única que parecia possível face às particularidades de um problema feito de tantos. "A solução foi criar de raiz as bases de um novo sistema de educação, adaptado à diversidade do nosso núcleo escolar. Decidimos avançar para um contrato de autonomia. Neste, o Ministério da Educação permite-nos alterar os currículos dos meninos. E foi assim que conseguimos 'prender' estes alunos à escola. Eles frequentavam as aulas de Português, mas não frequentavam, por exemplo, as de História, de Ciência ou de Geografia, porque na prática não estavam lá a fazer nada. Era o mesmo que colocar uma criança portuguesa assistir a uma aula de História em mandarim", refere, com moderada ironia, pois não deixava de ser uma metáfora quase perfeita de uma realidade inversamente desigual. Era uma dor de alma, mas era assim, antes desta escola se transformar no exemplo que é: "Havia sempre por aí grupos de miúdos abandonados pelos corredores. Não podíamos ficar à espera que as crianças aprendessem por si, não é verdade?" Digamos que em alguns sítios seria.

Todas as "normais" disciplinas curriculares, que para muitos dos alunos eram como ciências ocultas, foram transformadas numa só disciplina, criada de propósito para eles, baptizada apropriadamente de Glossário, que também descreve o método na perfeição. Esta disciplina, integra um pouco de todas, mas a sua espinha dorsal é o ensino do português. "É claro que isto envolve um imenso trabalho dos professores e das direcções das escolas. Basta olhar para os horários para perceber". Os horários são em si uma verdadeira disciplina de ginástica pedagógica. São como várias escolas a funcionar numa só. "O número de alunos estrangeiros é tão elevado, que são os alunos portugueses que têm aulas à parte, sendo que todos partilham as disciplinas universais, como a Ginástica, a Educação Visual e a Música. Os horários são praticamente individuais para os alunos de língua não-materna", explica Rui Coelho. 

A disciplina Glossário funciona como uma base de dados, que cada um dos alunos pode aceder facilmente no Moodle (plataforma de ensino online), sendo o seu fio condutor, não apenas a aprendizagem da língua, como também da cultura portuguesa. "Há três níveis: A1, que é a iniciação. A2, nível médio. E B1, mais avançado, em que o nível de entendimento e expressão do português já permite que os alunos possam frequentar as outras aulas", ensina-nos o director. "É muito complicado, mas todo este projecto está a resultar numa experiência muito enriquecedora para todos, alunos, professores e órgãos de gestão". Um projecto, que já consolidou, com resultados mais do que evidentes, embora a pandemia, a adopção obrigatória das aulas online e dos exorcismos da tele-escola mais não fizessem do que evidenciar as assimetrias. "Torna-se difícil os alunos concentrarem-se nas aulas e no estudo a viver em casas sabe Deus com que condições". 

À parte disto, que não é pouco, as taxas de abandono escolar em São Teotónio estão hoje acima dos níveis nacionais, que em 2016 era de 14 por cento”. Este método não é perfeito, pois isso é algo que não existe quando o tema é Educação. No entanto, o trabalho desenvolvido na escola de São Teotónio já conquistou faz mais de cinco anos o Selo de Escola Intercultural, da Direcção-Geral de Educação. Um orgulho, que dissemina nesta escola como a mais importante das disciplinas. É algo que passa de aluno para aluno, de geração para geração, instalando-se lentamente na consciência colectiva como um fio de sol que atravessa o plástico de uma estufa. E talvez o melhor sinal seja também o crescimento do número de alunos no ensino nocturno.

No seu sistema de ensino, diferente de tudo o que existe no ensino público, esta escola encontrou uma forma de criar no seu interior uma sociedade melhor. Talvez seja esta a lição mais importante das lições que eles dão em vez de receber. Talvez porque sejam eles as sementes do futuro, sendo apenas o fruto das suas circunstâncias.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Os alunos cabo-verdianos são o grupo que apresenta maior risco de abandono escolar no Grão-Ducado. Segundo um estudo do Luxembourg Institute of Socio-Economic Research (LISER), divulgado no início de Junho, 5,9% dos alunos cabo-verdianos abandonam a escola. Mesmo assim, os alunos cabo-verdianos são dos mais confiantes (25%).
O estudo tem como foco os alunos cabo-verdianos e ex-jugoslavos
Os cursos de Português integrados no horário escolar vão continuar  em pelo menos três das cinco escolas de Differdange, estando a ser negociada nas restantes a possibilidade de organizar cursos no ensino paralelo, fora do horário normal, disse ao CONTACTO o responsável da Coordenação de Ensino, Joaquim Prazeres.