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O paraíso da Costa Azul que está (quase) vedado aos portugueses
Portugal 5 14 min. 24.06.2022
Especulação

O paraíso da Costa Azul que está (quase) vedado aos portugueses

À chegada ao Carvalhal, o famoso cartaz da utopia já conheceu dias melhores.
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O paraíso da Costa Azul que está (quase) vedado aos portugueses

À chegada ao Carvalhal, o famoso cartaz da utopia já conheceu dias melhores.
Foto: Valter Vinagre
Portugal 5 14 min. 24.06.2022
Especulação

O paraíso da Costa Azul que está (quase) vedado aos portugueses

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Em 2017, a CM de Grândola decidiu proceder a uma revisão do PDM. Desde essa altura, o número de empreendimentos turísticos no concelho cresceu desmesuradamente. O número de camas turísticas já está muito acima do que era aconselhável. As populações locais, já envelhecidas, não suportam os custos desta nova movida de estrelas e multimilionários que se apaixonam pela região. A moda da Costa Azul tem um preço elevado para Grândola. A Associação Proteger Grândola nasceu para impedir os danos ambientais e sociais que já estão à vista. Começa a ser difícil chegar às praias até. O paraíso é só para quem pode.

O concelho de Grândola, delimitado a noroeste por Setúbal, a norte por Alcácer do Sal, a nascente por Ferreira do Alentejo e a poente pelo Atlântico é um enorme pedaço de paraíso, de múltiplas paisagens e uma extensa costa marítima, que se estende da península de Tróia a Sines, a chamada Costa Azul, onde se encondem praias magníficas, outrora no segredo dos deuses.

Na Herdade da Comporta, em Brejos da Carregueira de Cima, fica o paradigma de um elitismo, que a seu tempo se tornou numa imagem de marca, antes de se transformar num interminável megaprocesso com diagnóstico de Alzheimer. Desde 1955 até 2015, quando desmoronou o Grupo Espírito Santo, eram os Espírito Santo, como dizer... os donos daquilo tudo. 

Foi lá, nos 13 mil hectares da Herdade da Comporta, que um dia Cristina, filha de Jorge e Kiki Espírito Santo, deixou escorregar aquela frase de consciência lapidar, de ali encontrar um reenquadramento tal com a natureza, que nela fazia despertar a bipolar sensação de “brincar aos pobrezinhos”. 

De qualquer maneira, já faz tempo que a Comporta não é sequer o sítio indicado para um pobrezinho andar a brincar aos ricos. Lentamente – neste caso específico foi assim -, formou-se ali um condomínio social que, aparentemente, só não tem dinheiro para afastar os mosquitos. A aldeia da Comporta e a Herdade da Comporta são coisas diferentes e a mesma, sendo que a primeira se transformou numa fatalidade do poder e a outra na consequência fatal da sua continuidade.

À entrada da aldeia da Comporta, esta banca de fruta é dos poucos comércios tradicionais que ali resiste, assim como os naturais da aldeia, que já não ali habitam.
À entrada da aldeia da Comporta, esta banca de fruta é dos poucos comércios tradicionais que ali resiste, assim como os naturais da aldeia, que já não ali habitam.
Foto: Valter Vinagre

Se já era pouco acessível, inacessível ficou depois de Paula Amorim, através da Amorim Luxury, ter concretizado em finais de 2019 a aquisição da Herdade da Comporta, em parceria com a Vanguard Properties, da qual é presidente do conselho de administração o empresário francês Claude Berda, um dos homens mais ricos de França, tendo já nacionalidade portuguesa. 

Berda dedica-se ao segmento imobiliário do luxo. Em Portugal conquistou o petit-nom de “Senhor Comporta”. Naquelas paragens, Claude Alain Berda, de 75 anos, é como um sucedâneo franco/portugaise de DDT. A Herdade da Comporta já nada tem a ver com o que era quando era território dos Espírito Santo. A propriedade foi vendida por perto de 158 milhões de euros.

Numa primeira fase, a unidade recreativa feudal Espírito Santo foi loteada e vendida a preços proibitivos para as contas bancárias comuns. A exclusividade e o luxo fazem-se pagar a peso de ouro, vendido a retalho a milionários de todo o mundo e a celebridades planetárias, que com a sua mera presença asseguram o marketing para este segmento específico do paraíso. 

Uma das primeiras residentes daquelas cercanias foi a senhora dona Ciccone, que toda a gente conhece pela nome próprio e artístico de Madonna, que foi da fase “like a virgin” até àquela em que lhe deu para se mudar para Portugal, seguindo as tendências da moda, um hábito que com ela envelheceu, embora com menos plásticas. 

Foi na antiga Herdade da Comporta que a artista gravou inclusivé um clip, em que parecia algo desfasada no tempo e nos espaço, andando a cavalo como uma amazona nas finas areias da Costa Azul, bebendo cocktails ao pôr-do-sol, em traje de sevilhana. Com todas as diferenças possíveis e algumas imaginárias, o mesmo fez o arquitecto e designer francês Philippe Starck, que há uns anos se mudou para Sintra, tornando-se igualmente proprietário de um quinhão de Grândola, seguindo o exemplo de Angelina Jolie, do binómio Sarkozy/ Bruni ou de Rania, esposa do rei Abdulllah II e rainha consorte da Jordânia.

No ano passado, os novos proprietários da Herdade da Comporta dividiram o território e traçaram projectos paralelos, embora complementares. A Amorim Luxury vai criar um restaurante, claro, de luxo, na praia do Pego. No Carvalhal, a Vanguard Properties vai concentrar-se no projecto Dunas, que terá um forte impacto na paisagem e não só. Para além dos lotes residenciais, será igualmente construído uma Club House e um campo de golfe. 

O acesso à praia do Pego, que no Verão era destino muito procurado pelos mais anónimos autócnes, é agora uma missão praticamente impossível. Os milionários, na maioria franceses, não compram apenas os seus refúgios paradisíacos, compram privacidade e exclusividade e sistemas de segurança e a tecnologia que for necessária para manter o seu paraíso seu. 

Actualmente, para chegar à praia do Pego é necessário um verdadeiro safari a gratinar os pés por entre dunas e arrozais. Os detratores de tais investimentos no concelho de Grândola, para além do consumo desenfreado dos cada vez mais escassos recursos hídricos, e de todos os impactos ambientais que trazem à região este “boom” imobiliário, onde o betão se substitui ao verde, vêem nisto uma subtil (ou nem por isso) “privatização” das praias.

Um pouco por toda a área litoral do concelho de Grândola multiplicam-se os empreendimentos turísticos para o mercado do luxo. Melides não conseguiu fugir à regra. Em plena vila de Melides, a poucos quilómetros da praia, está a nascer um hotel de luxo, propriedade de Christian Louboutin, francês, que fez fortuna no design de sapatos. Se há coisa de uma década se dissesse a alguém nascido em Melides que em Melides havia de nascer um hotel de luxo, essa pessoa seria aconselhada a não abusar do medronho. 

Foi igualmente em Melides, na praia da Galé, que um fundo imobiliário americano adquiriu a Herdade da Costa Terra. A Discovery Land Company, do multimilionário Mike Meldman, está ali a construir a sua utopia: o CostaTerra Golf & Ocean Club.

Mike Meldan tem um sócio muito especial neste empreendimento: George Clooney que, para além de sócio e investidor, se prepara também para ser residente. É através desta rede social que se confirmou a mais recente e sonante “aquisição” real para aquele pedaço de Costa Azul. A princesa Eugenie, neta de Isabel II, a jubilada rainha de Inglaterra, vai mudar-se de armas e bagagens (consta que não é coisa pouca) para Melides. É como a velha história da diáspora, só que numa versão de elite. 

A filha de André, duque de York, terceiro dos quatro filhos de Isabel II – envolvido no escândalo sexual na companhia de Jeffrey Epstein, que se suicidou na cadeia -, vai mudar-se para o empreendimento, na companhia do seu marido, Jack Brooksbank e de August, filho do casal. O marido da princesa, amigo de Meldman e de Clooney, trabalha para o primeiro. Será ele o responsável pelo marketing e promoção deste empreendimento na costa alentejana, que tem prevista a construção de três centenas de casas. Melhor dizendo: “villas”. Lá fora, o projecto é apresentado como uma “private luxury resort comunity in Portugal”, sob a divisa: “the simply luxury of natural european living”.

PDM de geometria variável

A exemplo do que acontece em Melides ou na Comporta, onde este fenómeno já não é propriamente recente – graças à presença dos Espírito Santo e aos seus derivados de mimética social -, a especulação imobiliária disparou por todo o concelho de Grândola. Em Tróia, que mudou radicalmente de paradigma nas últimas décadas, o luxo tornou esta península inacessível ao português comum. 

Há tempos, José Mourinho comprou ali uma casa, e uma série de jogadores de futebol seguiram-lhe o exemplo. O empreendimento mais recente que ali está a nascer, está desde já envolto em polémica. Sandra Ortega, a empresária mais rica de Espanha, filha do fundador da Zara, está a construir um resort de luxo, que se chama “Na Praia”. A localização não engana. Contra ventos e marés ambientalistas, que acusam a empresária espanhola de destruir dunas e vegetação autócne, o empreendimento, como tantos outros na região, faz orelhas moucas e segue o seu curso.

Formalmente, há uma razão para isso. Em 2017, a Câmara Municipal de Grândola, comunista por óbvia tradição, decidiu operar uma revisão do Plano Director Municipal (PDM), com vista a repensar o ordenamento do seu território. Esta revisão não foi uma revisão, foi uma autêntica revolução, das outras, que na prática fez disparar o número de empreendimentos turísticos nos 45 quilómetros da sua orla costeira, entre Tróia e Sines. Existem actualmente quatro dezenas de unidades turísticas de luxo no concelho e esse número passará num futuro próximo para 175. 

Para combater este “crescimento desmedido e insustentável”, nasceu a Associação Proteger Grândola, dirigida por um casal francês e por alguns empresários da região, como Luís Dias, que tem um turismo de habitação próximo de Grândola, e gostaria que o exemplo que dá de “sustentabilidade” fosse seguido pelas grandes multinacionais que estão a mudar a face de Grândola, “causado danos ambientais e sociais irreversíveis”. 

Não só o concelho não tem capacidade para tamanha oferta turística, como o tecido social de Grândola, já envelhecido, está a abandonar em massa a região, não resistindo ao aumento exponencial do custo de vida e às ofertas que fazem pelas suas casas, que inflaccionaram para valores inimagináveis há uma década.

A exemplo do que acontece em Melides ou na Comporta, a especulação imobiliária disparou por todo o concelho de Grândola.
A exemplo do que acontece em Melides ou na Comporta, a especulação imobiliária disparou por todo o concelho de Grândola.
Foto: Valter Vinagre

Entre vários, diz Luís Dias, o problema mais grave e o da escassez de água, que já “tem vindo a diminuir nos últimos anos e que só vai agravar com tantos empreendimentos novos e com a proliferação de campos de golfe, que são um sugadouro de água”. 

O empresário não entende as razões pelas quais a CM de Grândola suspendeu o PDM, permitindo o crescimento “desordenado” de muitos empreendimentos, “que têm muito poder económico e encontram as mais diferentes manigâncias ´legais` para contornar as regras de ordenamento do território”. Nesta luta de David e Golias, “se não se travar o actual estado de coisas, o futuro de Grândola não será o paraíso que aparece por aí nos cartazes”. 

A CM de Grândola, a pretexto de estancar “este boom turístico no concelho, prepara-se para uma nova revisão do PDM”. No entanto, “esta revisão apenas poderá parar pontualmente este crescimento louco de empreendimentos turísticos. Na prática, está a assegurar que não haja concorrência para os interesses instalados”.

Luís Dias, da Associação Proteger Grândola é uma das faces do movimento contra os empreendimentos.
Luís Dias, da Associação Proteger Grândola é uma das faces do movimento contra os empreendimentos.

Tudo o que era relatório de desenvolvimento sustentável apontava para um rácio de uma cama por residente, sendo que nos Censos de 2011 era de 14 mil 826 habitantes e nos Censos de 2021 de 13 mil 823. De uma maneira ou de outra, entre 2017 e o presente momento, o número de camas turísticas no concelho excedeu todos os limites, previstos e imprevistos. 

Como isto aconteceu ninguém sabe bem explicar, mas a verdade é que o número de camas turísticas, entre projectos em curso, outros aprovados, outros licenciados, outros por licenciar, outros em pedido de informação prévia, normalmente vinculativa, já se aproxima das 30 mil camas turísticas, grande parte destas, em boa verdade, residenciais. “Para assegurar a mão-de-obra destes empreendimentos, estas empresas têm de trazer para o concelho mão-de-obra sazonal e precária, que trará de futuro consequências sociais”.

Idílios à beira da estrada

Muda, uma pequena aldeia à beira estrada plantada, entre o Carvalhal e a Comporta, tem do outro lado desta um cartaz imenso cartaz, junto a um contentor com lixo pelas costuras, a prometer um idílio sustentável “by the sea”, tendo logo atrás uma casa modelo, maquilhada pelo pó. 

Está ali por ser um local de passagem, perfeitamente visível a quem passa de carro, sinal que o Muda Reserve, que pertence igualmente a Claude Berda e à Vanguard Properties, se destina a um mercado menos exclusivista. Na aldeia, há mais cartazes de agências imobiliárias do que gente. Sinal dos tempos: as suas casas, durante tanto tempo remetidas à maldição da interioridade, mesmo com o mar à ilharga, sobrevalorizaram de um dia para o outro, inteiras ou em ruínas, tanto faz. A pressão para vender faz-se sentir de todas as maneiras e mais alguma.

Um pouco por toda a área litoral do concelho de Grândola multiplicam-se os empreendimentos turísticos para o mercado do luxo.
Um pouco por toda a área litoral do concelho de Grândola multiplicam-se os empreendimentos turísticos para o mercado do luxo.
Foto: Valter Vinagre

Há muito mais do que uma estrada a dividir a aldeia de Muda com a mudança que se vende do outro lado, um admirável mundo novo que só muito dinheiro pode comprar. É como se as cercas desses condomínios os cercassem a eles, que são dali. Ao contrário destes novos povoadores, são alentejanos, não são gauleses nem têm grandes condições para ser irredutíveis, quando a lei do dinheiro oferece somas astronómicas pela casa dos avós. 

Como é da história das civilizações, a propriedade horizontal tem uma certa aversão às raízes. Muitos lugares como este, já de si a sofrer da maldição do envelhecimento da população, a par da hereditariedade da pobreza, tão longínqua que se tornou estrutural, esvaziam-se da sua gente e, lentamente, se esvazia também o seu legado cultural.

A poucos quilómetros dali, no Carvalhal, onde o calor alentejano se mistura com a maresia, fica bem claro o que acontece a um lugar quando fica na moda. Ainda por cima, tão perto de Lisboa. É muito provável que o preço do barril de crude não tenha grande relevância nesta escolha. Por inversos motivos, escolha foi o que não tiveram os naturais residentes, que se mudaram para outras bandas, quando a procura se tornou maior do que a oferta e as ofertas se tornaram irresistíveis para quem pouco tinha. 

Os cartazes de empreendimentos turísticos a vender sonhos à beira da estrada inundaram a Costa Azul. As consequências ficam para depois.
Os cartazes de empreendimentos turísticos a vender sonhos à beira da estrada inundaram a Costa Azul. As consequências ficam para depois.
Foto: Valter Vinagre

Esta alteração social causa diversas ondas de choque, desde logo no quotidiano, no chamado custo de vida. A mínima coisa, nem que seja um café, custa para lá do quádruplo. Só as reformas se mantém estáveis na desgraça. O resto, com os devidos escalonamentos sociais, e todas as camadas que o elitismo pode ter, parece uma fotocópia anacrónica, vinda de algures no reino do Allgarve.

No Carvalhal já nem o silêncio é um artigo genuíno. A rua principal passou a avenida, passando esta a “boulevard”. Desfilam Mercedes topo de gama, Teslas e BMW´s e SUV´s Porsche e Jaguar e não se vê uma única Zundapp, eternas rainhas da província, como lhes chamam os urbanóides, pilotadas por compadres com capacetes de homem-bala, embalados pela barriga, quando é a descer. Tasca, nem uma que se veja, só daquelas de petiscos hiper-inflaccionados, a dar para o gourmet. Não há centro de saúde, o mais próximo fica em Grândola, mas há uma Fashion Clinic, que estava às moscas, mas podia ser da hora. 

Em Melides começam a ser raros os estabelecimentos de comércio local.
Em Melides começam a ser raros os estabelecimentos de comércio local.
Foto: Valter Vinagre

Havia uma certa “movida”, embora mais parecesse uma parada de novos povoadores, gente civilizadíssima, elas em vestidos “hippie-chic”, penteados em falso négligé acobreados de louro, óculos de griffe, sorriso Maló, indisfarçável altivez. Eles em indiscutível modo “weekend”, calções de banho, camisas com as mangas em dupla dobra, calçando o clássico sapato de vela ou os imprescindíveis mocassins. Cruzam-se. Reconhecem-se. Depositam um só beijo nas bochechas dos outros. Dois é para a parolada. Passam bandos de crianças vestidas de igual, em fila indiana atrás de empregadas de farda.

O horizonte é um misto de guindastes e de mar, andaimes e arrozal, moradias de construção ecológica, de arquitectura variável, algumas de improvável inspiração nórdica, têm vista para as margens do PDM, com as carrinhas Volvo estacionadas na garagem, com pranchas de surf no tejadilho. Mesmo o que não é, funciona como se fosse um condomínio privado. 

Os jovens comportam-se como se já fossem velhos e os velhos como se ainda estivessem na juventude. Às tantas, não se entende bem se aquela é, como dizem os cartazes, uma utopia em construção ou apenas um estaleiro social em manutenção. Seja como for, quem era de lá já não é. Até os que ficaram parecem de outro lugar. Só são de lá os que não são. Dá ideia que não se querem misturar. Nisso estão em perfeito ordenamento com a utopia que lhes venderam.

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