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O ovo da serpente
Editorial Portugal 2 min. 09.10.2019

O ovo da serpente

O ovo da serpente

Foto: LUSA
Editorial Portugal 2 min. 09.10.2019

O ovo da serpente

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Os resultados destas eleições são uma rutura simbólica com o processo iniciado a 25 de Abril de 1974

Quando nasci a Segunda Guerra Mundial era um momento perdido no tempo que o meu pai insistia em me falar de memória. Em 2019, a Revolução do 25 de Abril de 74 aparece para um jovem eleitor como algo que aconteceu ao mesmo tempo que a Idade Média, do fim dos dinossauros, mesmo a meio das batalhas da Guerra dos Tronos.

“Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir”, cantava Fausto, de alguma maneira, as eleições de 6 de outubro assinalaram uma rutura simbólica com um tempo longo. Os resultados eleitorais de domingo são uma das consequências possíveis do que foi feito. O ser uma consequência não invalida que havia outros rios no passado que poderiam e podem ainda desaguar em outros futuros. Mas quando o eleito deputado André Ventura, do Chega, garantiu, ao início da noite eleitoral, que “a confirmarem-se as projeções, é a primeira vez em mais 45 anos que temos no Parlamento um partido com estas características”, a precisão temporal, do que disse, revela um corte e reivindica uma outra continuidade: o aparecimento de um partido como Chega no Parlamento português é a chegada de uma extrema-direita ao poder legislativo, mas ao sublinhar o “em mais de 45 anos”, Ventura mostra que não descarta a familiaridade com os tempos anteriores, que são os da ditadura do Estado Novo.

Não é só o sucesso relativo da extrema-direita que mostra que assistimos a uma espécie de uma rutura com um ciclo aberto com a instauração da democracia em 74. O programa do Movimento das Forças Armadas afirmava que as prioridades eram democratizar, descolonizar e desenvolver. Este último “d” via-se como a necessidade de criar um modelo de desenvolvimento próprio e independente do país que promovesse o crescimento e redistribuísse mais justamente a riqueza.

A Iniciativa Liberal e o Livre são filhos do mesmo tempo e defendem os mesmos processos embora defendam resultados opostos: ambas as forças políticas querem um mundo em que os processos de globalização económica e integração europeia são para aprofundar. Mas ao contrário da Iniciativa Liberal que confia cegamente no mercado, os segundos consideram possível que estes processos económicos se sujeitem à lógica democrática.

Infelizmente, a economia da globalização, como faz notar o geógrafo Christophe Guilluy, que se baseia na divisão social do trabalho e na robotização e mecanização, não tem mais necessidade das classes populares ocidentais (demasiado protegidas e caras), apenas tem necessidade de operários na China, Índia e África, de administradores muito bem remunerado e de uma chegada constante de imigrantes pagos abaixo dos salários normais aos países desenvolvidos. É deste desespero e da pauperização das classes médias e populares que se alimentam partidos xenófobos como o Chega.


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