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"O mundo deveria ser como Portugal: tranquilo". A ucraniana que voltou a "dormir bem" em Leiria
Portugal 4 min. 12.03.2022 Do nosso arquivo online
Guerra na Ucrânia

"O mundo deveria ser como Portugal: tranquilo". A ucraniana que voltou a "dormir bem" em Leiria

Olga Postolenko, refugiada da Ucrânia, está num quarto adaptado de um camarote do Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria
Guerra na Ucrânia

"O mundo deveria ser como Portugal: tranquilo". A ucraniana que voltou a "dormir bem" em Leiria

Olga Postolenko, refugiada da Ucrânia, está num quarto adaptado de um camarote do Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria
LUSA
Portugal 4 min. 12.03.2022 Do nosso arquivo online
Guerra na Ucrânia

"O mundo deveria ser como Portugal: tranquilo". A ucraniana que voltou a "dormir bem" em Leiria

Redação
Redação
Ao quarto dia da guerra, Olga saiu de Kiev com os filhos, os pais, a avó, a cadela e duas gatas. Hoje, está em segurança no Estádio Municipal de Leiria mas não esquece o seu país.

Um misto de emoções invade o coração de Olga Postolenko, que confessa estar mais calma, em segurança, mas com o coração na Ucrânia, onde também ficaram os pais e a avó.

"Saímos do país, mas o país não sai de nós", disse à Lusa esta mulher divorciada, mãe de dois filhos, que vivia em Kiev. As suas palavras são traduzidas pelo ucraniano Dmytro Kovalchynskiy, que já atravessou por duas vezes a fronteira para ir buscar refugiados.


A família de ucranianas que escapou da guerra para o Luxemburgo: a mãe, de 29 anos, a filha, de cinco, e a avó, de 52.
A nova vida das ucranianas acolhidas por família portuguesa no Luxemburgo
Três mulheres – avó, mãe e filha – que fugiram da guerra na Ucrânia chegaram ao Luxemburgo no dia 3 de março. Estão na casa da família luso-romena que as acolheu, em Rumelange.

Apesar de "dormir bem" desde que chegou a Leiria, Olga está "muito preocupada" com tudo o que se está a passar na Ucrânia. "Percebi que tinha pouco tempo para tomar uma decisão. Para fazer alguma coisa, tinha de ser naquele momento ou então já não conseguiria sair do país", conta.

Ao quarto dia da guerra, saiu de Kiev com os filhos, os pais, a avó, a cadela e duas gatas. Ao chegarem a Kalynivs'ke, depois de cerca de sete horas de viagem e de atravessarem vários postos militares, a avó ficou "cansada, afinal, já tem 80 e tal anos", explica. Pais e avó não avançaram. Olga, os filhos e a cadela rumaram à Roménia. 

Foi nesse caminho que ouviram "o barulho das explosões". No processo, garante que "foram muito bem tratados" e que lhes deram comida e roupa. Dias depois estavam num autocarro rumo a Leiria.

Instalada no Centro de Acolhimento Temporário de Leiria, no Estádio Dr. Magalhães Pessoa, pensar no futuro não é premente . Por agora,"só quero ter os bens de primeira necessidade", desabafa.

"Tudo está mais calmo", diz, exemplificando com o barulho das crianças a "'partir'as paredes do estádio", brinca, referindo-se às trocas de bola que acontecem no átrio em frente ao seu camarote.


Este estádio português transformou-se num centro de refugiados
Hanna, 45 anos, e Vyacheslav, 16 anos, são os primeiros refugiados da Ucrânia a chegar ao Centro de Acolhimento Temporário de Leiria, que disponibilizou 54 camas, para já, nos camarotes do Estádio Municipal de Leiria.

Apesar de já conseguir dormir, quando acorda em frente ao verde do relvado, que fica mais intenso com o sol a brilhar, Olga volta a casa. "Está tudo bonitinho, mas começo a pensar na Ucrânia, como é que está agora e como é que o país vai aguentar com tanta coisa ao mesmo tempo. O mundo deveria estar todo como Portugal: tranquilo", sublinha.

Entrar no piso dos camarotes do Estádio Municipal de Leiria faz esquecer que estamos numa infraestrutura desportiva. À saída dos elevadores ouvem-se os risos e as brincadeiras das crianças. Há uma televisão a transmitir desenhos animados e um quadro a giz, onde portugueses filhos de ucranianos ajudam a integrar os novos amigos. O bar foi transformado em cozinha e o novo lar de quem deixou tudo para trás procura fazer esquecer o trauma, o medo e a angústia.

Colocaram nas camas lençóis da mesma cor da bandeira da Ucrânia  

"Quando começamos a perceber que isto ia ter esta dimensão, não hesitámos em encarar este novo desafio com o objetivo de receber e integrar ucranianos que possam vir para Leiria. A primeira coisa que pedi [aos funcionários] foi: ‘Imaginem que isto era um hotel, como é que vocês o decoravam?", adianta à Lusa o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes (PS).

A vontade da equipa da autarquia superou as expectativas do presidente. "Estou muito agradecido. De facto, capricharam muito. Chegaram ao pormenor de colocar as camas com ‘edredons’ e lençóis da mesma cor da bandeira da Ucrânia", exemplifica.


Juliet Ostretsova e Ilia Ostretsov são russos e ajudaram a trazer 19 refugiados ucranianos para o Grão-Ducado.
Casal russo ajudou a trazer 19 refugiados ucranianos para o Luxemburgo
Um casal russo que vive no Luxemburgo decidiu ajudar os ucranianos que estão a fugir da guerra. Ilia e Juliet organizaram uma viagem até à fronteira polaca e trouxeram 19 refugiados para o Grão-Ducado.

“Hoje, felizmente, ao fim de 25 anos de integração da comunidade ucraniana em Leiria, temos já muitos descendentes de ucranianos que são peças muito importantes para a nossa estratégia de desenvolvimento, uma vez que têm muito talento nas mais diversas áreas”, acrescenta Gonçalo Lopes.

Por isso, afirma, "além do caráter solidário humanitário há também aqui um pagamento por aquilo que foi a valorização, o crescimento e o desenvolvimento que este povo teve na região".

Cada pessoa carrega uma história de vida. O autarca impressiona-se com cada caso. "O primeiro casal, uma mãe e filho, ficaram muito agradecidos pelo apoio que lhes ofereceremos e estavam cheios de medo. Chegam todos com muito receio", conta. "O estádio estava a ser pensado só para pessoas e agora também recebe animais domésticos. Esta relação que têm com os animais domésticos, para nós e também para mim, em particular, é uma novidade", diz.

Uma das situações que impressionou Gonçalo foi a história de um menino que ficou assustado ao ouvir a passagem de um F-16 nos céus de Leiria, dada a proximidade com a Base Aérea de Monte Real.

 "A criança ficou assustada com o ambiente que viveu de bombardeamentos na Ucrânia. É um momento em que nós temos que pensar: e se fosse um português que estivesse nessa posição? Não gostávamos que outro país nos ajudasse neste momento de aflição?", remata.

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