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O mosquito
Opinião Portugal 2 min. 26.09.2021
Viagem de um voto

O mosquito

Viagem de um voto

O mosquito

Foto: Lusa
Opinião Portugal 2 min. 26.09.2021
Viagem de um voto

O mosquito

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Às 08h05 lá estava no local de voto, com esperanças de ser o primeiro a votar no território nacional. Enganei-me, embora não tanto como se enganaram na freguesia de Monfortinho e Salvaterra do Extremo, onde aparentemente, a avaliar pelos boletins de voto, o PSD tinha desaparecido do mapa autárquico.

Idanha-a-Nova. Seis da manhã, mais coisa, menos coisa. Lá fora, as flores e os pássaros, o chocalho ocasional das ovelhas, um balido ou outro, um latido ou outro do cão de guarda do vizinho, mais dócil que um gatinho dopado, nada que perturbasse a melodia da natureza quando está no seu devido lugar. Lá dentro, das profundezas de um silêncio tão doce, aquele som perfurante, de berbequim voador na sua descida de kamikaze, em espirais, pelo menos parecia, até ao centro nevrálgico da mente, adulterando irremediavelmente a fórmula química do sono. Pronto! Acabou-se oficialmente o período de reflexão.

Às 08h05 lá estava no local de voto, com esperanças de ser o primeiro a votar no território nacional. Enganei-me, embora não tanto como se enganaram na freguesia de Monfortinho e Salvaterra do Extremo, onde aparentemente, a avaliar pelos boletins de voto, o PSD tinha desaparecido do mapa autárquico. Disto só se deu conta horas mais tarde. Segundo a Comissão Nacional de Eleições, para além desta situação detectada no concelho de Idanha-a-Nova, havia uma outra nos boletins de voto para a Assembleia de Freguesia numa freguesia em Águeda, que pecava por excesso. Tinha-se colocado no boletim de voto uma força política que nem sequer concorria a estas eleições. Em ambos os casos, a eleições para as respectivas assembleia de freguesia fica desde já marcada para daqui a duas semanas. 

A dona Albertina tinha chegado primeiro do que eu e estava bastante orgulhosa desse facto. Enquanto vota, tem de fechar o seu café. Não estava com grande tempo para conversas. Chegou cá fora, tirou a máscara, e disse: "Daqui a quatro anos, se quiser ser o primeiro a votar, tem de se levantar mais cedo". Expliquei-lhe que a alvorada tinha sido às seis da manhã por causa de um raio de um mosquito, mas ela apenas sorriu. "Tivesse vindo antes das 08h00. Eu cá cheguei aqui às 07h30". A dona Albertina, pelos vistos, não traduz a participação eleitoral até às 12h00, que começa a dar sinais de abstenção elevadíssima. Era também provável que a pouca afluência àquela hora da manhã tivesse ainda pouco significado em terras de Idanha, onde é hábito tratar primeiros dos assuntos de Deus e só depois do sufrágio. "As pessoas vão primeiro à missa é só depois é que vão votar. Pelo menos, são votos abençoados".

Por volta das 11h30, já a chegar a Lisboa, a avaliar pelas notícias dava a impressão que grande parte dos 9,3 milhões de eleitores ainda estavam na eucaristia dominical. Marcelo Rebelo de Sousa, que não precisa de mosquitos para acordar de madrugada, já tinha votado fazia tempo, em Celorico de Basto (Braga), António Costa também já tinha votado, Catarina Martins, Francisco Rodrigues dos Santos, Jerónimo de Sousa e Rui Rio também já tinham picado o ponto. E, algo que nas últimas semanas parecia impossível, o seu discurso era agora uníssono: "Portugueses, saiam de casa".    

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