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"O maior desafio dos refugiados é encontrar emprego"
Portugal 10 min. 17.03.2021 Do nosso arquivo online

"O maior desafio dos refugiados é encontrar emprego"

"O maior desafio dos refugiados é encontrar emprego"

Foto: Carlota Gomes
Portugal 10 min. 17.03.2021 Do nosso arquivo online

"O maior desafio dos refugiados é encontrar emprego"

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
Refugiados em Portugal apontam a falta de emprego como "o maior obstáculo à integração no país". Segundo o Observatório das Migrações, à saída dos centros de acolhimento, apenas um terço tem autonomia para prosseguir a sua vida em Portugal.

Teresa está em Portugal há dez anos. Saiu sozinha e grávida do Quénia, aos vinte e três. Para trás, deixou uma filha bebé, que, entretanto, conseguiu trazer para Portugal. Quando chegou a Lisboa, viveu na rua, até que a encaminharam para o Centro de Acolhimento para Refugiados (CAR) da Bobadela, onde ficou quase um ano.

Hoje, Teresa vive com os quatro filhos, três nascidos em Portugal, numa casa arrendada perto de Lisboa. O seu maior problema é a falta de trabalho. No centro, teve aulas de português e ajudaram-na a fazer um currículo e a inscrever-se no centro do emprego. Apesar de tudo, queixa-se da falta de oportunidades.

Nos primeiros meses, organizações como o Conselho Português para os Refugiados (CPR) ou o Serviço Jesuíta aos Refugiados (SJR) oferecem proteção e alojamento, alimentação, acesso a cuidados de saúde e outras necessidades básicas. Depois da saírem dos centros, a maior dificuldade enfrentada pelos refugiados, a par com a aprendizagem da língua, é encontrar um trabalho. "É muito difícil. Por causa da cultura, por nunca ter tido uma base para criar relações e misturar-me com as pessoas, por ser mãe solteira", conta Teresa.

"É impossível encontrar um trabalho durante o dia, sem turnos. Não tenho família para me ajudar enquanto os meus filhos estão na creche". Teve trabalhos esporádicos num call center e um estágio num lar durante uns meses, mas não encontra oportunidades que consiga conciliar com o horário escolar das crianças.

Centro de Acolhimento de Refugiados da Bobadela, em Loures.
Centro de Acolhimento de Refugiados da Bobadela, em Loures.
Foto: Carlota Gomes

"Estas pessoas têm uma dificuldade acrescida em arranjar trabalho", diz Vítor Sartóris, coordenador do CPR, "claro que Portugal não é um país com imensas oportunidades e que, por isso, esta população sente as mesmas dificuldades que os portugueses, mas existem aqui vários fatores: de um lado, a cultura, a língua, do outro, talvez alguma ignorância ou preconceito", afirma. "O que é que acontece a estas pessoas depois de lhes darmos cama, comida e roupa louvada? O apoio do Estado tem um tempo limite e não se pensa muito no que vem a seguir. Autonomia é fundamental e a única coisa que permite isto é um emprego", continua.

O destino? A integração

Um relatório do Observatório das Migrações concluiu que, no ano passado, uma grande parte das pessoas que terminou o programa de acolhimento sem emprego ou motivação para procurar ativamente emprego.

O domínio da língua portuguesa é apontado como um dos maiores desafios, com cerca de 40% a concluírem o programa sem entenderem ou falarem a língua portuguesa. Também pouco menos de metade dos beneficiários (44%) concluem o programa de acolhimento já com habitação assegurada – e apenas 34,4% foram consideradas autónomas para prosseguir a sua vida em Portugal à data da saída dos centros de acolhimento.

É o caso de Babalai, em Portugal há menos de um ano. Saiu do Gâmbia há cinco, passou por Itália e pela Alemanha até chegar aqui. Prefere Portugal. Os italianos e alemães, conta, "são racistas". Passou alguns meses no centro de São João da Talha e agora vive num hostel na Praça do Chile, onde divide o quarto com mais duas pessoas. "Já fomos mais". Entretanto, por causa do surto de covid-19 que ocorreu no local há uns meses, a gerência reduziu a lotação máxima dos quartos.

Para além das complicações burocráticas – Babalai está ainda a receber apoio jurídico do centro – o jovem aponta o domínio da língua como o seu principal obstáculo. Teve algumas aulas de português no CAR, mas não conseguiu continuar depois de sair do centro de acolhimento. Como tem dificuldades em comunicar, não foi fácil arranjar emprego, mas para já conseguiu trabalho na construção civil.

Foi neste contexto que o Conselho Português para os Refugiados se uniu à Associação de Refugiados em Portugal (ARP) e ao Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE para dar vida ao projeto "Destino: Integração". A iniciativa visa dar as ferramentas necessárias aos refugiados para a entrada no mercado de trabalho e sensibilizar empregadores e sociedade civil para a contribuição económica e cultural das pessoas refugiadas.

Diaby Abdouharamane, presidente da ARP e refugiado em Portugal desde 2006, sabe que um dos maiores desafios da vida de um refugiado é a saída dos centros de acolhimento. Com esta iniciativa, pretende mostrar que "há apoios que têm mais impacto que o dinheiro e que empregar alguém é dar-lhe autonomia para que não precise de depender mais de ajuda", conta Diaby. "No fundo, tentamos ir para além da questão humanitária, estas pessoas precisam de proteção e de integração em Portugal, e mostrar às empresas o que podem ganhar ao contratar um refugiado", diz.

Diaby Abdouharamane é presidente da ARP e refugiado em Portugal desde 2006.
Diaby Abdouharamane é presidente da ARP e refugiado em Portugal desde 2006.
Foto: Carlota Gomes

"Às vezes nem é por mal, mas há aquela ideia de que contratar um refugiado é contratar um problema. Por vezes, perguntam-nos 'um refugiado pode trabalhar'? As pessoas não sabem a diferença entre requerentes de asilo, migrantes, refugiados e os tipos de documentos e que sim, um refugiado pode trabalhar."

Para além dos desafios encontrados no mercado laboral, a população refugiada enfrenta ainda diferenças culturais na adaptação ao trabalho em Portugal e, por isso, o projeto organiza também sessões de formação. "Queremos ter a certeza de que refugiados percebem a importância do emprego. A rotina casa-trabalho-casa, de nos deslocarmos para o local de trabalho, são ideias que estão muito enraizadas na Europa, mas que são completamente estranhas para muita gente", explica Diaby.

"Por vezes, estas pessoas vêm de vidas onde o normal é trabalhar na oficina do tio desde que são crianças – talvez um dia o tio lhes dê uma ajuda e abram a própria oficina. Passar anos a estudar e depois fazer uma candidatura para um emprego ou desenvolver um projeto, é o contexto europeu. Em África ou no Médio-Oriente, onde muitas vezes não há a mesma capacidade económica e onde o sistema social não sustenta o desenvolvimento da criança, a educação formal e o respeito à legislação acabam por não ser uma obrigação", contextualiza.

"Tentamos preparar as pessoas da melhor forma possível para aquilo que é esperado delas – em termos de assiduidade, horários e higiene no trabalho – e explicar-lhes também que é preciso pagar impostos, para que serve a segurança social, o que é um contrato de trabalho, o que não é um contrato de trabalho...".

"Um maço de tabaco ... e aulas de português"

Para isso, contam com o apoio de Nasri Hazmeth que chegou a Portugal como refugiado há quase 15 anos. Apesar de a sua estadia no centro de acolhimento ter sido curta, passou a ser prata da casa. Nasri é muito bem disposto, e vai contando as suas histórias entre os cigarros que fuma em cadeia e alguns trocadilhos atrevidos: "a língua portuguesa tem muitas particularidades", diz divertido.

Descreve-se como "refugiado a vida toda". Era uma criança quando os pais o levaram da Palestina para a Síria em 1948, no início da guerra israelo-árabe. Em 2005, voltou a partir, desta vez rumo a Portugal. Quando soube que vinha para cá, quis aprender português, mas não encontrou aulas. "A vontade de aprender era muita, então comecei pelo espanhol. Sabia que era parecido", diz a sorrir. "Quando cheguei no dia 2 de fevereiro de 2005, só pedi duas coisas. Um maço de tabaco...e aulas de português".

Como era despachado e falava a língua, Nasri começou a trabalhar no CAR: às vezes acompanhava outros refugiados às finanças ou ao centro de saúde, ou ajudava na construção do novo centro. Uns meses depois, Teresa Tito de Morais, fundadora e ex-presidente do CPR, ofereceu-lhe trabalho como rececionista, e Nasri passou doze anos a receber aqueles que, como ele um dia, procuram refúgio. "Lembro-me deste no primeiro dia em que chegou", diz, apontando para Diaby, "era eu que estava aqui na porta".

Devido a problemas de saúde, teve de deixar o seu posto habitual, mas não deixou o centro. Agora, como mediador cultural, procura continuar a fazer com que os recém-chegados se sintam em casa e facilitar-lhes o processo de integração.

"Vivi toda a minha vida a causa dos refugiados. Trabalhar aqui é um prazer sem preço. Quando sirvo os refugiados, sirvo-me a mim mesmo", conta. Se a viagem e a chegada são difíceis, a verdade é que a vida depois do centro pode ser mais. Nasri procura utilizar a sua experiência para ajudar os outros. Faz de interprete, mas, sobretudo, de ponte, de ombro amigo, de conselheiro: "Sou o refugiado mais velho em Portugal. Tenho 73 anos, 72 fui refugiado. Sei como pensam, como se sentem, que receios têm, especialmente os da minha cultura".

"É mais o que nos une do que o que nos separa"

A associação Pão a Pão, que por detrás do restaurante Mezze, no mercado de Arroios, em Lisboa, surge precisamente como uma tentativa de dar resposta ao problema do emprego: "Havia já associações encarregues do acolhimento, mas achámos que existiam poucas respostas de empregabilidade", explica Francisca Gorjão Henriques, presidente da associação. A ideia surgiu numa conversa entre amigos em 2016, no pico da chamada crise dos refugiados. "Na altura, perguntámos a uma então estudante de arquitetura síria de é que tinha mais saudades da sua terra, de Damasco. E ela disse 'Do pão'".

Pensaram em abrir uma padaria, mas depressa perceberam que o pão, na verdade, era um símbolo. "É uma colher que vai buscar tudo o que está em cima da mesa. O que fazia sentido era a refeição completa: um restaurante!", conta Francisca. O Mezze abriu portas em 2017 e, até à pandemia, estava sempre cheio. Decidiram fechar no último confinamento porque não lhes compensava manter a porta aberta só para take away, mas estarão de volta assim que a situação pandémica o permitir.

O projeto foca-se sobretudo em mulheres e em jovens adultos, que chegam ao Mezze sobretudo através de parcerias com o ACM e outras organizações, mas também através de candidaturas espontâneas de boca a boca. "Em mulheres porque, tendo trabalhado toda a vida em casa, muito frequentemente não tem uma carreira profissional ou sequer um currículo, o que dificulta a sua inserção do mercado trabalho", explica Francisca, "em jovens, porque com os conflitos a assolar os seus países, também não tiveram oportunidade de terminar um curso ou seguir uma carreira profissional."

Faten, que chegou a Portugal há três anos, é uma das cozinheiras. Em 2016, com a situação na Síria a tornar-se cada vez mais complicada, ganhou coragem e foi até à Turquia onde, por ser curda, nunca pensou em ficar. O próximo destino seria a Grécia. Ao fim de onze meses, disseram-lhe teria de ir para Portugal. Não ficou contente. Do país só tinha ouvido falar da crise. "O problema maior foi a solidão" e a dificuldade em integrar-se. As filhas entraram na escola e Faten começou a aprender português. 

Mas tudo mudou quando entrou nas aulas da Escola de Hotelaria de Lisboa, facilitadas pela Associação Pão a Pão. "Quando as pessoas deixam o seu país para trás, há coisas que trazem consigo sempre: a sua cultura, a sua identidade. A cozinha é uma parte muito importante dessa identidade. Queríamos aproveitar esse saber fazer, essa parte fundamental da cultura síria e iraquiana e aproveitar isso para criar uma ponte para as pessoas refugiadas e a sua nova comunidade", diz Francisca.

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