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O julgamento dos 5 de Lisboa
Opinião Portugal 4 min. 13.04.2021

O julgamento dos 5 de Lisboa

O antigo primeiro-ministro José Sócrates no Campus da Justiça em Lisboa durante a fase instrutória do julgamento sobre o caso Operação Marquês, a 9 de abril.

O julgamento dos 5 de Lisboa

O antigo primeiro-ministro José Sócrates no Campus da Justiça em Lisboa durante a fase instrutória do julgamento sobre o caso Operação Marquês, a 9 de abril.
Foto: AFP
Opinião Portugal 4 min. 13.04.2021

O julgamento dos 5 de Lisboa

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Ao contrário da Chicago dos gangsters – que temiam o FBI e os tribunais federais – em Lisboa os poderosos vivem na impunidade total. E sabem-no.

Favorito na corrida aos Óscares deste ano, "O julgamento dos 7 de Chicago" é-o sobretudo pelo interesse da história verídica, mas também por apresentar um elenco cheio de actores talentosos e célebres; e no entanto, a verdadeira estrela do filme acaba por ser o veterano Frank Langella, um actor bem menos conhecido mas que "rouba" quase todas as cenas encarnando a pele do famigerado juiz Hoffman. Este, que devia aos réus e às suas alegadas vítimas um julgamento justo, procurou em vez disso humilhar, desprezar e condenar a todo o custo, sempre enterrado nos seus preconceitos raciais e fazendo o trabalho sujo dos governos de então – aqueles que enviavam em catadupa jovens para a carnificina sem sentido do Vietname. Ao fazê-lo, Hoffman destruiu um grande pedaço da confiança dos cidadãos no sistema.

Algumas décadas antes, foi também na cidade de Chicago que Al Capone construiu o seu império criminal. O todo-poderoso gangster contrabandeava álcool e cocaína, dominava o negócio do jogo ilegal, falseava eleições, subornava políticos, juízes e polícias, matava quem se lhe atravessasse no caminho... curiosamente, o único crime por que foi julgado foi o de fugir aos impostos. A "Chicago dos anos 20" tornou-se sinónimo de corrupção e crime, uma terra sem lei nem ordem.

Todos na elite lisboeta se conhecem há muitos anos, seja do colégio, de um grande escritório de advogados ou de alguma loja maçónica; logo, a protecção mútua e silenciosa está assegurada, ao melhor estilo Cosa Nostra.

Faz lembrar a Lisboa de 2021. Um lugar de aparências, sem lei nem mérito, onde aviões privados com meia tonelada de cocaína aterram provenientes do Brasil. Onde um processo de compra de submarinos tem corruptores condenados na Alemanha, mas ninguém sequer julgado por ser corrompido em Portugal. Onde o Dono Disto Tudo (nickname de Ricardo Salgado) se vangloria de financiar e influenciar simultaneamente os maiores partidos do sistema, aqueles que alternam os candidatos à câmara municipal da capital (esta, juntamente com ser homem, são as duas condições mais importantes para se chegar a primeiro-ministro e presidente no país). Onde juízes, políticos e polícias aparecem na "comissão de honra" de gigantescos devedores ao fisco. Onde, ao contrário de Capone, ninguém vai preso por fugir aos impostos (bem pelo contrário, a evasão fiscal é todo um modo de vida). Onde, ao contrário dos gangsters de metralhadora – que ainda assim, temiam o FBI e os tribunais federais –, os poderosos vivem na impunidade total (e sabem-no).

Todos na elite lisboeta se conhecem há muitos anos, seja do colégio, de um grande escritório de advogados ou de alguma loja maçónica; logo, a protecção mútua e silenciosa está assegurada, ao melhor estilo Cosa Nostra. E nos casos onde a ganância é tamanha que se torna impossível de esconder (por exemplo uma mansãozinha comprada com a reforma miserável da mãe, ou fazer obras num apartamento em Paris pertencente a um amigo que gosta de andar com maços de notas no bolso)... há sempre um MP estranhamente lento e incompetente, há sempre um pressuroso senhor doutor juiz a apagar 172 dos 189 crimes constantes da acusação – e a ilibar 23 dos 28 acusados.


Operação Marquês. Sócrates e oito arguidos ilibados de 40 crimes de fraude fiscal
O juiz Ivo Rosa decidiu ontem não levar a julgamento nenhum dos acusados pelo Ministério Público, entre eles o ex-primeiro-ministro e o seu alegado testa de ferro Carlos Santos Silva. Dos 189 crimes da acusação só 17 serão julgados.

José Sócrates, Ricardo Salgado, Zeinal Bava, Carlos Santos Silva, João Perna. Os 5 de Lisboa vão a julgamento, ou antes, a julgamentos separados (conveniente, pois fica mais difícil inquirir e mais fácil absolver). Os poucos crimes que sobraram são menores, as penas serão suspensas e qualquer dia ainda teremos de indemnizar os arguidos pela maçada. Para já, os apartamentos, as obras de arte e os milhões sonegados estão-lhes de volta às mãos, enquanto para nós, portugueses contribuintes comuns, só restou o cadáver desmembrado de uma justiça implacável com os fracos mas sempre de joelhos perante a casta de poderosos. Ah, isso e também ficamos com uma enorme dose de raiva.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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