O incêndio do festival Andanças e a história que ficou por contar

 Foram 422 os carros que arderam em apenas hora e meia no festival Andanças, no verão de 2016.
Foram 422 os carros que arderam em apenas hora e meia no festival Andanças, no verão de 2016.
Foto: Lusa

Foram 422 carros destruídos. Não há quaisquer precedentes para o incêndio que no verão passado varreu o estacionamento do festival Andanças, em Castelo de Vide. Mas se nesse fatídico 3 de agosto as imagens se focaram na desolação, no festival prosseguia a música e a dança. Ofereciam-se roupas e tendas, abraços e boleias. Semanas depois surge a “Ajudada”, uma rede de apoio criada por lesados e amigos. A onda de solidariedade culmina neste fim de semana em Lisboa: ao palco do Festival Ajudada sobem os artistas que perderam o automóvel e os bilhetes servem para apoiar os lesados que mais precisam.

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É o terceiro dia do festival Andanças em Castelo de Vide. É a terceira vez que Julien faz o vaivém entre o festival e o estacionamento. Estão 40 graus, o jovem artista plástico está exausto e prepara-se para abandonar a meio o festival onde já trabalha, voluntariamente, há um mês. Mas a caminho do estacionamento, onde o carro está cheio e pronto para partir, vê uma coluna de fumo negro.

Impossível saber como começou. Próximo do local, Paulo descobre várias viaturas a arder. Desiste de salvar a sua, desiste de voltar ao festival para perto dos seus filhos, e junta-se de imediato aos cordões humanos que se formam. Como Julien, em pânico, “chegavam muitas pessoas a correr para tentar salvar os carros”. Travam-nas e afastam-nas do perigo. “Muitas vezes, parávamos e consolávamo-nos uns aos outros”, recorda ao Contacto, estes meses todos depois, Paulo, também ele voluntário. “’É só um carro... O meu também ardeu’”.

O festival de música e dança popular é evacuado por precaução, numa serenidade que contrasta com o ritmo das chamas. “Sem tempo para pensar”, Paulo junta-se às equipas que verificam o recinto e abrem cada tenda a garantir que ninguém fica para trás. Pelo menos garante que os seus filhos saíram.

Quando a Proteção Civil chega já a multidão está em segurança, ao longo da estrada da barragem de Póvoa e Meadas. Ali, longe do descompasso das explosões e da negra cortina de fumo, surgem valsas, quadrilhas e mazurcas – vários músicos haviam trazido consigo os instrumentos. Com carrinhas de caixa aberta Paulo e a organização distribuem água, melancias, pêssegos pela multidão. Por fim, num dos últimos grupos, o reencontro com os filhos: “As crianças lá estavam com os adultos a fazer brincadeiras, cantorias e danças. Só viram o fumo ao longe e foram poupadas àquelas imagens que correram o país.”

Não há qualquer vítima, nem floresta ardida – mas em hora e meia arderam 422 carros. As televisões e fotógrafos chegam e refastelam-se com o fumegante cemitério automóvel. “Nunca tinha acontecido algo tão grande em Portugal, nem aparentemente na Europa”, observa Graça, uma das coordenadoras do festival. “Os jornalistas iam à procura do drama, e ficavam tristes por não encontrar ninguém aos berros”.

(Leia o artigo na íntegra na edição desta quarta-feira do jornal Contacto)

Francisco Pedro Colaço

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