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O "ditador" levou uma reguada

O "ditador" levou uma reguada

Foto: AFP
Editorial Portugal 4 min. 19.09.2018

O "ditador" levou uma reguada

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Orbán levou uma reguada nas mãos. Não chega.

Há um político português que é provavelmente mais conhecido na Hungria do que no seu próprio país: Rui Tavares. O antigo deputado europeu, no quadro das suas funções, estudou profundamente a atual democracia húngara e produziu um relatório preocupante sobre o que o governo de Viktor Orbán estava a fazer ao país. Esse documento foi depois votado e aprovado pela comissão de Liberdades Cívicas, incluía recomendações e apontava possíveis caminhos a seguir.

Isto foi há cinco anos. Desde aí, o primeiro-ministro Orbán conquistou nas urnas mais duas maiorias absolutas – a última já este ano –, enquanto as recomendações do relatório Tavares foram caindo no esquecimento. O nome do autor é que não foi esquecido na Hungria; o historiador português recebeu insultos racistas e antissemitas, ameaças de morte anónimas, pressões públicas e privadas e acabou por ser considerado persona non grata em todo o país pelo seu cada vez mais controverso externamente (e popular internamente) líder. Porque sempre foi essa a estratégia de Orbán – a criação de bodes expiatórios e inimigos artificiais cada vez mais virulentos, de forma a justificar uma retórica, e uma ação cada vez mais inflamadas. Em crescendo, a diabolização já recaiu sobre uma sucessão de adversários – a oposição, os media, as universidades, as ONG, Bruxelas, as democracias liberais, George Soros, os judeus, os muçulmanos, os não-cristãos, os refugiados, os imigrantes, etc. Não há nada de novo nestas poses, ou na demagogia de brincar com o fogo e despertar demónios adormecidos.

Segundo o seu líder, a Hungria gaba-se de ser uma “democracia iliberal”, em contraste e oposição aos liberais fracos e “demasiado democratas” da Europa – este tipo de ideia também é reminiscente de outros tempos... Como ele próprio disse mais de uma vez, Orbán prossegue a sua “a dança do pavão”: mudanças cosméticas destinadas a distrair e apaziguar os críticos, recuando apenas aparentemente enquanto passo a passo a deriva autoritária se vai transformando numa ditadura.

A palavra é forte mas não é um exagero, existe para denunciar o que está em causa. Depois de ignorar o problema durante demasiado tempo, e depois de o tentar resolver com fraca diplomacia e avisos pouco credíveis, a União Europeia decidiu levantar-se e lutar pelos seus princípios de base. Na semana passada, os representantes eleitos pelos europeus reuniram-se em Estrasburgo para votar o início de um procedimento de sanção à Hungria, uma medida sem precedentes que, apesar de ser, no fundo, simbólica (o próximo passo seria um voto de condenação unânime dos Estados-membros, que na prática nunca acontecerá), não deixa de constituir um sinal forte. No texto aprovado está, em todas as línguas, linguagem claríssima: “graves preocupações com a situação atual do funcionamento das instituições, da independência do sistema judicial, corrupção e conflitos de interesse, privacidade e proteção dos dados, liberdade de expressão, liberdades académicas e religiosas, liberdade de associação, direito a tratamento não discriminatório, direitos das minorias – nomeadamente os judeus –, direitos fundamentais dos refugiados e requerentes de asilo”. Poderíamos estar a descrever o início de um dos totalitarismos em 1930, mas não, está a acontecer aqui e agora, num dos países que mais beneficiaram de fundos europeus – e foi também quem mais infrações cometeu na sua aplicação, o que não espanta dados os níveis de corrupção patentes no país.

A censura ao autoritarismo do governo húngaro é uma defesa, em primeiro lugar, dos cidadãos húngaros e da sua cidadania; Orbán, o iliberal, o homem a quem Juncker cumprimentou jovialmente com um “anda cá meu ditador”, levou uma reguada nas mãos. Não chega. O terreno na Europa está minado; o medo exacerbado da imigração – e a mensagem populista de “eles só querem é tacho e abandonam o povo à sua sorte, por isso votem em mim” – já criou fenómenos de abandono dos nossos valores fundamentais em vários países-chave, até na bela Itália ou em França, terra humanista. O governo húngaro vai usar esta condenação internacional para se auto-vitimizar, carregando ainda mais no nacionalismo e na repressão, convicto da sua popularidade nas sondagens (o Fidesz tem 56%, e o segundo partido, com 18%, ainda está mais à extrema-direita). É mais do que altura, portanto, para começar a empurrar na outra direção: as democracias precisam de quem lute por elas ou serão feitas prisioneiras.

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