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O curto descanso de António Costa
Opinião Portugal 3 min. 02.12.2020

O curto descanso de António Costa

O curto descanso de António Costa

Foto: LUSA
Opinião Portugal 3 min. 02.12.2020

O curto descanso de António Costa

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
O partido de Catarina Martins “alinhou” com a direita, porque tinha a certeza que os outros partidos da esquerda, com a respectiva abstenção, garantiam a passagem do orçamento.

O Orçamento do Estado para 2021 foi aprovado e António Costa pode, para já, ficar tranquilo. Resta saber quanto tempo vai durar esse sossego.

Apesar de o Bloco de Esquerda ter juntado o seu voto ao da direita, contra o orçamento, ninguém no PS acredita que, numa outra circunstância, essa junção se repita, com o exclusivo propósito de derrubar o Governo. O bloco é suficientemente responsável, para saber que se um dia facilitar o regresso da direita ao poder, será fortemente penalizado, pelo eleitorado. O mesmo se pode dizer a qualquer partido da esquerda.

O partido de Catarina Martins “alinhou” com a direita, porque tinha a certeza que os outros partidos da esquerda, com a respectiva abstenção, garantiam a passagem do orçamento.

E os bloquistas sabem também que a pandemia vai obrigar a gastos não previstos, forçando a aprovação de um orçamento rectificativo. Isso deve acontecer no final da próxima Primavera. E, nessa altura, os bloquistas terão uma oportunidade de reconciliação com o PS e de se juntarem de novo, aos outros partidos da geringonça.

Tudo o que até agora disse, prevê um quadro idílico que volte a unir a esquerda que tornou possível o afastamento da direita do poder e uma governação de quatro anos que foi do agrado geral, como provaram os resultados das últimas legislativas.

Mas os acontecimentos podem desenvolver-se num outro sentido. Imagine-se que os sectores mais radicais do Bloco de Esquerda exigem de Catarina Martins uma rutura total e definitiva, com o Partido Socialista e o seu Governo. Imagine-se ainda que, nas próximas eleições presidenciais, João Ferreira, o candidato comunista, não passa dos três por cento, como prevêem as sondagens e que a ala mais ortodoxa dos comunistas atribui esse desastre à colaboração com o executivo e exige um afastamento estratégico.

Qualquer destes cenários, ou a conjugação dos dois, pode ser um desastre para o Partido Socialista, para a liderança de António Costa e para o Governo.

Depois, há uma previsível crise económica que pode fazer baixar os índices de popularidade do executivo. António Costa e os seus tecnocratas podem ser tentados a desenvolver uma política de austeridade e, se isso acontecer, é certo que tanto o Bloco de Esquerda como o Partido Comunista se afastarão.

Portugal espera ainda os dinheiros da bazuca europeia, indispensáveis para a salvação da economia. A distribuição desses fundos tem de agradar a muita gente, uma ubiquidade impossível. Primeiro virão as pressões, depois as críticas dos que se julgam mais prejudicados. E tudo isto pode provocar grande desgaste ao Governo que a oposição de direita tentará aproveitar.

Para dificultar as coisas, em janeiro Portugal assumirá a presidência rotativa da União Europeia, num momento particularmente crítico. Desde logo, porque António Costa, provavelmente, terá de convencer os problemáticos chefes de Governo da Hungria e da Polónia a deixarem passar a proposta de orçamento europeu. E só depois disso se pode dedicar a uma agenda terrivelmente exigente.

Com tantos problemas fora de casa, António Costa fará todos os possíveis e impossíveis para contornar as dificuldades domésticas. Tendo em linha de conta que os primeiros só duram seis meses e as segundas terão um horizonte de dois anos, pelo menos.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)


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