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O coração português da missão médica francesa em Portugal

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O coração português da missão médica francesa em Portugal


por Paula SANTOS FERREIRA/ 02.03.2021

Rodrigo Cabrita

Sandra Fleury, enfermeira bombeira lusodescendente regressa "orgulhosa" a França, após as duas semanas de trabalho no Hospital Garcia da Orta em Almada. Uma experiência feita de "paixão e solidariedade" como relata ao Contacto a equipa francesa no último dia de trabalho.

“On ne voit bien qu’avec le cœur. L’essentiel est invisible pour les yeux”, ( “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos", em português) é a célebre frase de o 'Principezinho', de Saint-Exupéry, que a enfermeira Sandra Fleury tem tatuada no braço esquerdo, e que tem ditado o seu dia a dia “nesta pandemia”, e “na vida”. Foi este seu lema que a levou a candidatar-se à missão de solidariedade francesa em Portugal, o país dos seus pais que traz sempre no coração e tantas vezes visita.

Durante duas semanas a lusodescendente esteve a trabalhar nos cuidados intensivos do Hospital Garcia da Orta, em Almada, juntamente com as duas outras enfermeiras anestesistas e uma médica, francesas, que compuseram a missão de ajuda hospitalar a Portugal, que França disponibilizou para reforçar o combate à pandemia. Toda a equipa faz parte do corpo de bombeiros franceses que selecionou as candidaturas que chegaram de profissionais de saúde de todas as corporações francesas.

“Decidi logo candidatar-me, fazia todo o sentido e foi uma oportunidade de exercer a minha profissão em Portugal, sobretudo nesta altura tão complicada”, diz ao Contacto Sandra Fleury durante uma pausa no último dia de trabalho no Hospital Garcia da Orta, na passada sexta-feira. O encontro foi marcado no átrio do edifício principal do hospital agora vazio devido à reorganização hospitalar face ao combate da pandemia. E lá estavam as quatro profissionais de saúde francesas à conversa vestidas com fardas hospitalares brancas em vez da farda escura dos bombeiros franceses que diariamente usam no seus serviços. E que voltaram a vestir já esta segunda-feira.

No regresso a casa, em Lyon, a enfermeira bombeira que se exprime num português correto colorido com um ligeiro sotaque algarvio, região de onde eram naturais os seus pais, de Alcoutim, leva o coração cheio. “Foi uma ótima experiência, a equipa dos cuidados intensivos e todo o hospital receberam-nos muito bem e foram incansáveis, muito simpáticos. Gostámos muito de trabalhar aqui”, confessa Sandra Fleury olhando para as suas três companheiras francesas a seu lado. A mesma opinião foi repetida pela médica Bérangère Nion, e pelas enfermeiras anestesistas Isabelle Kulyk e Sandrine Caumont, que com Sandra Fleury formaram a equipa francesa.

Desde há seis anos, que a lusodescendente casada com um francês, dois filhos e já com um neto de cinco meses, deixou a região de Paris e mudou-se para Lyon onde passou a ser bombeira profissional. "Antes era enfermeira no INEM mas também já era bombeira voluntária, pois sempre quis estar ao serviço da população. Foi este desejo que me levou a ser bombeira", conta a lusodescendente que "tem paixão" pelo que faz.

“Os bombeiros franceses têm profissionais de saúde nas suas corporações. O nosso dia a dia é desenvolver o nosso trabalho nas situações críticas a que os bombeiros são chamados”, explica Sandra Fleury. Outra das diferenças é que "em França há enfermeiras anestesistas enquanto que em Portugal só os médicos podem exercer essa especialidade".

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Durante os últimos 15 dias, esta enfermeira lusodescendente com experiência em serviços de urgência e intensivos tratou exclusivamente dos doentes graves internados na unidade de intensivos Covid, no hospital de Almada, um dos mais afetados pela pandemia e que foi obrigado a transferir doentes para outros hospitais por não ter mais camas para tantos doentes.

Em tempos como estes de pandemia a solidariedade e interajuda são muito importantes e o mundo aproximou-se em volta destes valores.

Sandra Fleury

“Neste momento a situação está melhor e temos menos doentes do que quando aqui chegámos, e para mim, foi um enorme orgulho poder ajudar as equipas da unidade de cuidados intensivos”, conta Sandra Fleury, a terceira a contar da esquerda na fotografia de toda a equipa francesa. A médica Bérangère Nion e a enfermeira anestesista Sandrine  Caumont posam à esquerda de Sandra Fleury e a enfermeira anestesista Isabelle Kulyk à direita.

Ana Tomás, do gabinete de Comunicação do hospital especifica que quando a equipa francesa chegou “tínhamos 25 doentes internados, hoje (sexta-feira passada) temos 15. É o número mais baixo desde há muito tempo”.

A colaboração da equipa francesa permitiu um "maior descanso dos 20 médicos e 150 enfermeiros que trabalham atualmente na UCI", não em folgas, “mas num alívio no rácio de utentes por médico” explicou Antero Fernandes, diretor do serviço de medicina intensiva do Hospital Garcia de Orta no dia da chegada de Sandra Fleury e das suas colegas, a 15 fevereiro.

Nesta missão, a lusodescendente foi também “tradutora a tempo inteiro” passando toda a informação para as colegas francesas. Mas, como conta a médica Bérangère Nion, médica de urgências nos bombeiros de Dunkerque, junto a Calais, no norte de França, também comunicavam em francês e inglês com os colegas portugueses. “Mas quando é preciso informações específicas como, por exemplo, o nome e a administração de medicamentos a Sandra traduz”, diz, por seu turno, Sandrine Caumont, enfermeira anestesista, bombeira voluntária na cidade de Foix, situada próximo de Toulouse, a sul de França.

O contacto com os doentes, todos ventilados e sedados, foi feito de afetos e muita atenção, “como estavam todos a dormir não pudemos conversar com eles”, conta a médica.


Reportagem fotográfica com equipas medicas e de enfermagem que vieram do Luxemburgo para o Hospital de Evora, em Portugal. Estas equipas vieram dar apoio aos profissionais de saúde desta unidade hospitalar no combate a COVID-19
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A ajuda do Luxemburgo a Portugal traz de volta uma primavera de esperança
Reportagem da enviada especial do Contacto a Portugal.

Dos afetos, a enfermeira Sandrine Caumont guarda um momento especial: Um dos doentes cuja mulher é francesa e, por isso, “sabe francês”, começou a acordar no início do processo de reanimação, e estava agitado, “então eu falei com ele em francês, contei-lhe, por exemplo, que o dia lá fora estava bonito e ele tranquilizou e o seu o ritmo cardíaco estabilizou”. 

Entrevista com equipa medica proveniente de Franca que veio para Portugal para o Hospital Garcia da Orta, em Almada, ajudar no combate a pandemia COVID-19
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Ricos pastéis de Belém
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Entrevista com equipa medica proveniente de Franca que veio para Portugal para o Hospital Garcia da Orta, em Almada, ajudar no combate a pandemia COVID-19 @Rodrigo Cabrita
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Além da lusodescendente, apenas Sandrine Caumont já conhecia Portugal, tendo vindo visitar a Expo-98 e, passeado por Lisboa, com a família. Mas para Bérangere Nion e Isabelle Kulyk a descoberta do país “terá de ser feita noutra viagem”. “Viemos mesmo só para trabalhar, mas quero muito voltar cá de férias”, assume Isabelle Kulyk, enfermeira anestesista reformada e que agora é voluntária dos bombeiros de Carcassone, cidade também perto de Toulouse. A mesma intenção foi repetida pelas colegas.

Sandra Fleury está orgulhosa de que as suas colegas tivessem gostado do “tão pouco que viram ou quase nada” do país dos seus pais. “A nossa rotina nestas duas semanas tem sido hotel-hospital e vice-versa. Ao final do dia, e até às 20h quando começa o recolher obrigatório passeamos um pouco por Almada, mas está tudo fechado. Jantamos no hotel e vamos dormir”, conta a lusodescendente. Mesmo assim, conseguiu dar a provar algumas especialidades portuguesas às colegas, como “a carne de porco à alentejana, o polvo e o bacalhau” e “gostaram de tudo”, diz a rir. Nem faltou os pastéis de Belém.

Numa manhã de fim de semana, Sandra Fleury fez questão de as levar a Belém para passear e “provar os pastéis de Belém”, conta a lusodescendente. “O meu filho de 13 anos pediu-me pastéis de Belém”, conta Sandrine Caumont. “Mas foi tudo muito rápido, estivemos apenas uma hora e meia pois Portugal está em confinamento e às 13h tínhamos de estar no hotel”, lembra.  Mas por tal iguaria valeu a “aventura”.

Houve ainda outros locais que fizeram questão de conhecer: os quarteis de bombeiros da zona de Almada. Na sexta-feira, após as despedidas do Hospital a equipa foi fazer uma visita a uma das corporações. “Quisemos muito encontrar-nos com os nossos colegas portugueses. Já conseguimos ir visitar um quartel de Almada e agora vamos a outro”, conta Sandra Fleury sublinhando que também foram "muito bem recebidas”. 

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 Apesar da enorme comunidade portuguesa em França, nenhuma das três colegas de Sandra Fleury tinha convivido antes com portugueses ou lusodescendentes. “É a primeira vez que conheço pessoas portuguesas e tem sido muito bom”, avança a médica francesa com a enfermeira Isabelle Kulyk a enfatizar o mesmo “são todos muito gentis e simpáticos”.

Além da “experiência profissional tão enriquecedora”, as quatro profissionais levaram também no regresso a casa, sábado passado, novas amizades.

“Cada uma de nós é de uma região de França e não nos conhecíamos antes. A primeira vez que nos vimos foi no aeroporto antes de embarcar para Portugal”, explica Sandra Fleury. “Tem sido muito bom e damo-nos todas muito bem”, afirmam as quatro. De facto, a empatia e boa-disposição reinaram durante a reportagem do Contacto, com risos sobre os momentos pequenos de lazer e seriedade quando falaram do seu trabalho.

Reencontrarem-se agora em França “será mais complicado”. “Estou a mais de mil quilómetros de distância da Sandrine e da Isabelle e a cerca de 600 quilómetros da Sandra”, contabiliza Bérangère Nion. “Eu e a Sandrine é quem estamos mais próximas, a cerca de 150 quilómetros, na zona de Toulouse”, diz por seu turno, Isabelle Kulyk enfermeira anestesista que após a reforma entrou como voluntária para os bombeiros. Também Sandrine é voluntária e nesta pandemia tem sido recrutada pelos hospitais “que precisam de profissionais de saúde”.

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“A situação hospitalar que se vive em Portugal é semelhante à de França, com os hospitais em pressão, a precisar de profissionais de saúde e de equipamentos, como aqui”, vinca Bérangène Nion, para quem esta foi a sua primeira experiência profissional fora de França. O mesmo aconteceu com Sandra Fleury.

Já Isabelle Kulyk esteve numa missão de ajuda covid na Guiana Francesa por três semanas e Sandrine Caumont voou até às Antilhas Francesas também para reforçar equipa hospitalar naquele país, durante cinco semanas.

“Em tempos como estes de pandemia a solidariedade e entreajuda são muito importantes e o mundo aproximou-se em volta destes valores”, afirma Sandra Fleury.

Esta segunda-feira, as duas bombeiras profissionais começaram já a trabalhar, cada uma no seu quartel de bombeiros, em França. As duas enfermeiras voluntárias esperam agora poder continuar a apoiar as equipas hospitalares francesas nas unidades covid. “Estou disponível e penso que muito em breve vou ser recrutada para outra missão hospitalar, pois como disse, os nossos hospitais também estão sobre muita pressão”, sobretudo os do Grand Est e da zona de Paris, perspetiva Sandrine Caumont. 

Também a médica e Sandra Fleury estão dispostas a repetir esta experiência. “Se precisarem eu vou. Neste momento, a solidariedade é muito importante para travar a covid-19”, defende Sandra Fleury. Quem sabe se esta enfermeira não acrescenta agora mais uma referência da história de o ‘Principezinho’ no seu braço esquerdo, onde já estão tatuadas outras personagens deste conto além da célebre frase que a tem guiado nesta crise pandémica. “Fiz todas estas tatuagens há uns anos, e cada personagem do 'Principezinho' que aqui está representa um momento importante da minha vida”, explica Sandra Fleury com os olhos sorrindo e olhando para o braço.

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