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O ar está irrespirável
Opinião Portugal 3 min. 19.05.2021

O ar está irrespirável

Enfermeiros num protesto em França por maior reconhecimento da profissão e salários mais elevados.

O ar está irrespirável

Enfermeiros num protesto em França por maior reconhecimento da profissão e salários mais elevados.
Foto: AFP
Opinião Portugal 3 min. 19.05.2021

O ar está irrespirável

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Assédio, intimidações e represálias a trabalhadores sindicalizados é muito comum em Portugal. Mas só tem comparação com o discurso de ódio aos sindicatos.

Na semana passada, a historiadora Raquel Varela escrevia no Facebook um post com duas fotos: "Manifestação hoje em Basileia [na Suíça] do pessoal de enfermagem e médicos a exigir contratação de mais pessoal contra a exaustão. E estão em pandemia e contingência. Portugal é um case study na Europa, onde se combinam as piores condições laborais e ausência de lutas, protestos ou greves."

Também é um case study na Europa haver historiadores especialistas em trabalho e no "povo" para quem lutas, protestos ou greves, durante a pandemia e contingência, se limitem a "ausências". Felizmente no mural da historiadora alguém lhe recordou que, no mesmo dia em que enfermeiros se manifestavam em Basileia, também enfermeiros tinham enchido a praça dos Restauradores em Lisboa. 

Resposta de Varela: "Mas eu referia-me a protestos e greves." Se a manifestação do Dia do Enfermeiro não era suficiente, poder-se-ia recordar a Varela que ainda nessa semana milhares de trabalhadores de todo o país tinham enchido (em pandemia e contingência, com devido distanciamento) grande parte da Avenida dos Aliados em protesto contra o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, durante a Cimeira da UE. Dois protestos e concentrações que não foram suficientes para demover a historiadora da ideia de "ausência de lutas".

Noutro comentário alguém explicava porquê: "Aqui está tudo controlado pela esquerda. E pelos sindicatos." É uma visão que se repete, fruto de cobertura mediática medíocre de questões do trabalho por parte dos media (poucos jornalistas são sindicalizados), de uma constante vénia aos grandes empresários, CEOs, grandes empreendedores, grandes filantropos que fazem com que muitas páginas de jornais pareçam a capa da revista Exame.

Aliado ao preconceito da ligação dos sindicatos ao socialismo, o case study português virá também do discurso anti-comunista que grassa como ervinhas da calçada sempre que se fala de direitos laborais.

Repete-se que os "sindicatos estão reféns da esquerda", neste caso, do PS e do PCP. Mas queriam que estivessem reféns do CDS, conhecido pelo seu apoio incondicional aos trabalhadores? O discurso de ódio aos sindicatos em Portugal não tem comparação com países europeus em que a percentagem de sindicalizados é muitíssimo superior. Nos países nórdicos, cerca de 70% dos trabalhadores estão sindicalizados. Isto quer dizer que as negociações colectivas são feitas cobrindo franjas significativas de todos os trabalhadores, o que aumenta o seu poder negocial nos sectores privados e público. Ser sindicalizado é algo perfeitamente natural, desejável, até. Na Irlanda, Espanha e Grécia, as proporções já mais baixas (na casa dos 20%) estão ainda longe da baixa penetração sindical em Portugal (15%).

Assédio laboral, moral, intimidações, represálias, seja de patrões ou de colegas, são absolutamente comuns em Portugal em pessoas sindicalizadas. Aliado ao preconceito da ligação dos sindicatos ao socialismo, o case study português virá também do discurso anti-comunista que grassa como ervinhas da calçada sempre que se fala de direitos laborais.

Menos mal que tem havido "alternativas" ao velho sindicalismo. Como vimos em 2019 com o crowdfunding da greve dos enfermeiros liderada pela actual Bastonária da Ordem, Ana Rita Cavaco. Ou dos motoristas das matérias perigosas que no mesmo ano paralisaram o país. Raquel Varela aplaudiu, dizendo que estavam "a defender a nossa democracia" e explicando que "o perigo da extrema-direita não vem de um sindicato democrático de base não alinhado à CGTP ou à UGT". Como se veio a ver, a Bastonária começou a frequentar congressos do Chega; e o advogado Pardal Henriques, vice-presidente do sindicato não alinhado, foi candidato às legislativas pelo partido de Marinho Pinto (PDR). A democracia e os trabalhadores ficaram assim muito mais protegidos.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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