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O americano que quer dar uma nova vida aos jovens traficantes de rua
Portugal 10 min. 09.10.2020

O americano que quer dar uma nova vida aos jovens traficantes de rua

O americano que quer dar uma nova vida aos jovens traficantes de rua

Foto: Diana Tinoco
Portugal 10 min. 09.10.2020

O americano que quer dar uma nova vida aos jovens traficantes de rua

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Brigada de Neptuno sonha unir a cultura e a arte à inclusão social e empoderamento de comunidades marginalizadas de Lisboa. Hoje é mais um projeto em pausa graças à pandemia de covid-19.

 A rua Marechal Saldanha, no Alto da Bica, é conhecida graças ao fluxo de turistas e apreciadores da vista do Miradouro de Santa Catarina que por ela se movimentam. É, por isso mesmo, a zona escolhida de dezenas de jovens rapazes, de idades compreendidas entre os 18 e os 30 que tentam a sorte no tráfico de estupefacientes. Há vários anos que os moradores da zona se queixam da falta de segurança e do “mau aspecto” que este movimento dá à área. Em 2018, Assunção Cristas, na altura presidente do CDS-PP, fez mesmo uma visita pelo Alto da Bica com intenção de denunciar a situação.

Aos jovens que lá param, quando se lhes pergunta porque é que estão tantos no mesmo sítio, um dos rapazes responde que é onde há mais gente a circular “se há mais procura também há mais venda”. Mas Tchad Nelson, norte-americano de 48 anos cujo sonho é mudar-lhes o destino, diz que o caso é mais complexo que isso.

“Eu ficava a observá-los e juro que não entendia que sentido é que fazia estarem aqui todos na mesma rua. Até que me apercebi que isto é muito mais do que vender erva e conseguir uns trocos para pagar as contas, os rapazes estão à procura de comunidade. De se sentirem integrados. A maioria deles vivem em bairros sociais e bairros não são necessariamente comunidades. Comunidades são espaços em que plantas os teus sonhos, as tuas ferramentas, os teus contributos e em conjunto cria-se algo. Aqui não há um comportamento modelo positivo a seguir. Os padrões de comportamento estão desviados”, explica enquanto cumprimenta todas as pessoas que por ele passam.

“Às vezes até tenho medo de dar a impressão errada. Porque os polícias todos me cumprimentam, os rapazes todos me cumprimentam, quem está de fora e não faz ideia quem sou deve pensar que sou um chibo. Mas quem me conhece, graças à minha atitude sabe que não tem nada a ver. Eu só estou aqui para ajudar”, diz com um sorriso. “Não estou habituado a isto, aqui mesmo sem falar a mesma língua há uma conexão, os portugueses são muito amáveis”.

Tchad Nelson estava de visita a Lisboa, em 2015, quando parou no miradouro de Santa Catarina para apreciar a paisagem. Dá-se conta que um rapaz o observava e retribui com o olhar. “Às tantas chegámos um ao lado do outro e aquela interação culminou num abraço prolongado. O rapaz disse-me “tu tens muitas coisas que eu quero” e eu perguntei-lhe “tipo o que?”. Com o passar do tempo percebi a que se referia: confiança. Tudo que este rapaz estava a desejar ter de mim era a minha confiança, a minha atitude que lhe transpareceu eu ser mais do que a sociedade estava à espera de mim baseado na minha cor de pele”, conta com entusiasmo, quase sem piscar os olhos.

“Curiosamente nunca tentou vender-me droga. Estava curioso em perceber quem eu era e em perceber o que é que eu estava ali a fazer. Sabia perfeitamente que eu não era competição, não estava ali a vender. E também deve ter percebido logo que eu não compraria”. Bolicao, que agora está a cumprir pena de prisão, perguntou-lhe de onde era, como era a vida em Nova Iorque e como é que por lá se vivia a vida de rua. Logo a seguir, apresentou Tchad a todos os outros rapazes.

Era o início de uma nova vida para o artista e produtor nova iorquino, que daí a cinco anos estaria pronto para largar a sua vida nos Estados Unidos para mergulhar nas profundezas de um projeto que hoje se chama a Brigada de Neptuno e que sonha unir a cultura e a arte à inclusão social e empoderamento de comunidades marginalizadas.

Desde 2015, Tchad já atravessou o oceano Atlântico cerca de 30 vezes, dedicado a dar continuidade ao sonho do amigo que fez naquele ano. “Foi o Bolicao que me disse que tínhamos de começar esta associação. Ele queria mudar de vida. Estava a viver na rua, fala cinco línguas e conhecia toda gente. Apresentou-me a uma porção de figuras da vida cultural lisboeta. Disse-me que se aproveitássemos as melhores ferramentas e talentos de cada um, poderíamos começar a mudar a trajetória de vida de muitos dos rapazes que ali passavam, a começar pela dele. Claro que a trajetória da minha vida também mudaria para sempre a partir daquele momento”, conta orgulhoso.

Para Tchad “a coisa mais bonita em Portugal é a falta de violência”. Diz-se “chocado com a atitude destes rapazes”. “Nos Estados Unidos não encontramos esta doçura de homens nas ruas. Esta humildade. Isto tem de ser preservado. Os vossos líderes deviam vir dar uma voltinha até aos EUA, viajavam até Detroit, Chicago, Baltimore e vinham conhecer a violência, a realidade das ruas lá. O que se passa aqui em Portugal, tem de ser cuidado. Tudo o que estas pessoas precisam é de se sentirem vistas, apreciadas e poderem ter uma nova oportunidade”, explica.

A Associação Cultural e Artística que começou a florir em 2018 e já conta com um programa de “mentorship” para 12 jovens tem como missão “criar oportunidades artísticas, económicas, sociais, ambientais, culturais e comunitárias para todos os residentes através de parcerias com artistas e intérpretes locais, decisores políticos, empresas, e profissionais de desenvolvimento comunitário no sector das artes e cultura de Lisboa”. É dedicada a comunidades desconectadas, marginalizadas, ou aparentemente sem voz que “incluem frequentemente residentes de baixos rendimentos e pessoas de cor”. Nestas comunidades “as artes culturalmente reflexivas servem tanto como espelhos como janelas de identidade e permitem momentos partilhados de dor, alegria, cura e orgulho que são críticos para inspirar o sentido de unidade que une comunidades fortes”, lê-se no site oficial.

O objetivo nos neptunianos é criar um terreno fértil para alcançar, inspirar e capacitar os residentes locais, através das artes e da cultura, que consideram ser “ferramentas para um desenvolvimento equitativo”.

Para o médico psiquiatra Luís Patrício, técnico de saúde que tem dedicado toda a sua vida profissional à prevenção e ajuda de pessoas com adição a substâncias em Lisboa, a situação dos jovens da zona do Alto da Bica “é um problema de inserção social mais do que de tráfico de droga. Aquilo é um tráfico formiguinha, de miséria para subsistência básica. É necessário que as autoridades estudem de onde vêm aquelas pessoas, quais são as aspirações, o que pode ser feito para que mudem de vida”.

O sonho de Patrick é poder voltar a trabalhar em jardinagem.
O sonho de Patrick é poder voltar a trabalhar em jardinagem.
Diana Tinoco

Patrick já não frequenta Santa Catarina. Desde que conheceu Tchad deixou a vida da rua. Mora no Zambujal, no concelho de Loures,e para ir até Lisboa tinha de apanhar sempre dois autocarros e o metro, demorava cerca de uma hora a chegar ao Alto da Bica.

Com 28 anos, natural da ilha do Fogo, em Cabo Verde, fala em tom baixo e com olhar sereno. “Parava lá porque tinha de comer”. Cumpriu pena de cinco anos e três meses. Está desde 2012 com os papéis de residência caducados e não consegue arranjar trabalho enquanto o processo não estiver concluido. “Eu gostava de poder voltar a trabalhar como cantoneiro”, diz baixinho. “Até tenho bom currículo. Acabei o nono ano na prisão, fiz curso de operador de máquinas agrícolas e até tenho carta de trator para levantar quando conseguir os papéis. Tentei tratar disso na prisão mas não consegui. Quando acabei a pena fui ao SEF e o processo está lá desde 2018”.

Diz que conhecer o Tchad lhe mudou a vida. “Eu já não queria aquilo para mim, mas quando o conheci, deu motivação e confiança. Para sair da rua é preciso encontrar alguém que apoie e eu acredito nele”. Apesar do inglês não ser avançado e de Tchad não falar português, há comunicação entre eles, pelo menos o suficiente para Patrick confiar que o futuro dele pode melhorar com a mentoria de Tchad.

“Durante a quarentena ligou-nos para irmos fazer voluntariado e entregar coisas às pessoas que não podiam sair de casa. Eu nunca tinha feito nada assim, foi uma cena fixe, ajudar os outros”, conta.

Tchad pergunta o que é que ele disse. “Ah sim! Este tipo de atividade restaura o sentido de humanidade nas pessoas. Há aqui uma secção de indivíduos que não são desejados na sociedade, só que essas mesmas pessoas de repente podem bater à tua porta e oferecer ajuda. De repente as pessoas olham-se nos olhos, sentem-se úteis e apercebem-se: eu consigo fazer coisas boas, ajudar alguém. E de repente o vizinho vai reconhecê-lo para sempre como o rapaz que o ajudou”, explica. “A tua coluna amanhã já se ergue um bocadinho mais alto. A maioria destes rapazes tem uma postura de ombros completamente cabisbaixa, estão sempre escondidos, metidos para dentro. Tímidos. A postura deles diz “eu não quero ser visto, eu não gosto de quem sou, eu não gosto desta cor de pele”.

Tchad acredita que as autoridades querem mudança e estão empenhadas em fazê-lo, mas faltam meios e organização. “Na rua que visitámos, não havia polícia nenhum lá e de repente no miradouro há três agentes. Isso faz algum sentido? Bastava estar um agente no miradouro, outro na rua a cima e na rua a baixo, assim os rapazes não poderiam parar ali”.

Entretanto, passar dos sonhos à realidade é um processo complexo. Tchad acaba sempre por ter de voltar aos Estados Unidos, onde está de momento sem saber quando consegue voltar. “Estou sempre dividido, já viajei cerca de 15 vezes para Portugal, também graças ao sistema de vistos de permanência. O projeto acaba por ficar em pausa e com a situação pandémica tudo se agravou”, explica.

“As instituições não respondem, está tudo em pausa. E também não podemos unir os rapazes tendo em conta o vírus. Depois a minha experiência em Portugal é que há muitas pessoas que se conectam com as causas e admiram-nas mas quando chega à altura de lhes dispensar tempo e trabalho, saltam fora. É uma ideologia que não entendo. Querem sentir o calor, mas não querem carregar a lenha até à fogueira. Não faz sentido na minha cabeça”, desabafa com um tom de voz já menos feliz.

A associação “é um projeto ambicioso e muito difícil de dar continuidade sem uma estrutura sólida e sem fundos para poder pagar a uma equipa que trabalhe continuamente nisto”, comenta Pedro Cunha, que faz parte do núcleo da Neptune Brigade, juntamente com a sua esposa e que juntos abriram as portas do estabelecimento que gerem, o Hórus Massagem, para o desenvolvimento de um dos workshops.

“É preciso um espaço próprio para poder concretizar este projeto que está alinhado com o bem de toda gente. A Câmara cedeu-nos um espaço mas era aqui na Bica, não podemos fazer este trabalho na da área em que eles costumam frequentar para a venda”, explica Tchad, “por isso continuamos na busca de espaço”.

O nome veio ao acaso, por um sistema de aleatoriedade informático, mas o simbolismo não lhe ficou aquem. São a Brigada de Neptuno, Neptune Brigade em inglês, e carregam com eles sonhos de compaixão, empatia e mudanças radicais de realidade. Sonhos esse que, pelo menos por agora, estão em banho-maria. 

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