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"O agente estava a sufocá-la", afirma testemunha da detenção violenta na Amadora
Portugal 1 6 min. 22.01.2020

"O agente estava a sufocá-la", afirma testemunha da detenção violenta na Amadora

"O agente estava a sufocá-la", afirma testemunha da detenção violenta na Amadora

Fotograma de um dos momentos em que o agente aperta o pescoço a Cláudia Simões
Portugal 1 6 min. 22.01.2020

"O agente estava a sufocá-la", afirma testemunha da detenção violenta na Amadora

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Um distribuidor da Domino's Pizza que passava no local e assistiu à detenção revelou ao Contacto que o agente da PSP abusou da força para proceder à detenção de Cláudia Simões. O polícia Carlos Humberto Canha é acusado de espancar a mulher de nacionalidade portuguesa e angolana.

Adnilson Barros atravessava a Rua Elias Garcia, uma das artérias centrais da Amadora, no Bairro do Bosque, na noite fria de domingo quando se deu conta que algo de estranho se passava. "Eu trabalho na Domino's Pizza e tinha acabado de fazer uma entrega. Estava a regressar quando vi várias pessoas junto à paragem. Pensei que alguém estivesse a sentir-se mal", recorda ao Contacto. 

O jovem de 23 anos aproximou-se e viu o agente Carlos Humberto Canha a apertar o pescoço de Cláudia Simões. "A senhora estava a sentir-se sufocada porque o agente estava a apertar-lhe o pescoço com um mata-leão. Fui lá e falei com o agente e disse-lhe que a senhora se estava a sentir sufocada". Como a própria reconheceu ao Contacto, mordeu o agente porque pensava que ia morrer e Adnilson confirma essa mesma versão. "Ele respondeu-me que ela lhe estava a morder e eu respondi que claro que ela lhe estava a morder. Estava a morder porque se sentia sufocada". 

O jovem distribuidor da Domino's Pizza é, aliás, autor de um dos vídeos da detenção que circulam nas redes sociais. "Eu filmei porque o agente não estava a agir de forma correta. Como viram no vídeo, ela não estava a resistir. Estava a proteger-se. Foi legítima defesa", sublinha antes de deixar claro que em momento algo viu alguém agredir o polícia. "Só estavam eles os dois. Estava mais gente à volta mas afastada. Eu tive que me ir embora porque estava a trabalhar".

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Cláudia Simões voltou ao hospital

No mesmo dia em que o governo ordenou através do Ministério da Administração Interna a abertura de um inquérito ao caso da detenção violenta na Amadora, permaneciam as marcas no rosto de Cláudia Simões que voltou ao hospital por recomendação da juíza de instrução criminal. As imagens e os vídeos que circulam nas redes sociais para além dos que foram publicados pelo Contacto mostram a violência do intervalo de tempo em que a mulher de nacionalidade portuguesa e angolana esteve sob custódia da polícia. Cláudia Simões afirmou ao Contacto que o médico aponta para uma recuperação lenta das feridas no lábio inferior e das lesões oculares, nomeadamente uma inflamação nas córneas, para além do inchaço nas pálpebras.

Segundo o comandante da divisão policial da Amadora da PSP, em resposta ao Contacto, o agente Carlos Humberto Canha, que foi observado no Hospital Amadora-Sintra por ferimentos ligeiros nas mãos e nos braços, encontra-se de “baixa médica”. Na segunda-feira, a Direção Nacional da PSP alegou que para a detenção este agente teria utilizado “a força estritamente necessária para o efeito” face à suposta resistência de Cláudia Simões.

Apesar de ter denunciado ter levado murros e pontapés, enquanto estava algemada, dentro de uma viatura da PSP pelo agente Carlos Humberto Canha, ao contrário do que o Contacto divulgou ontem, só a mulher ficou indiciada do crime de resistência e coação enquanto o polícia não foi constituído arguido. Este é um processo que está a ser investigado pelo Ministério Público da Amadora e que se encontra em segredo de justiça.  

Sindicato da PSP faz publicação racista

Entretanto, numa publicação de teor racista, o Sindicato Unificado da PSP escreveu na sua página no Facebook uma mensagem, entretanto eliminada, dirigida ao agente Carlos Humberto Canha desejando as melhoras e esperando que “as análises sejam todas negativas a doenças graves” numa alusão às mordeduras provocadas por Cláudia Simões. Em consequência, a Direção Nacional da PSP admitiu ao Público poder apresentar queixa ao Ministério Público contra esta estrutura sindical. De acordo com o mesmo jornal, o líder do sindicato, ex-candidato nas eleições europeias pela lista de André Ventura, não quis comentar. 

O agente Carlos Canha pertenceu ao Corpo de Segurança Pessoal, uma equipa de elite integrado na Unidade Especial de Polícia que tem como objetivo proteger altas figuras do Estado português e representantes de outros países em visita a Portugal. Este agente terá até recebido um louvor em 2009 do então ministro da Administração Interna, Rui Pereira, “pela lealdade, o zelo, o aprumo, a discrição e a total disponibilidade de que deu provas”.

Crianças até 12 anos com passe não pagam

Cláudia Simões explicou ao Contacto que foi detida violentamente depois de o motorista do autocarro da Vimeca onde viajava ter chamado o agente Carlos Humberto Canha que estava a passar perto da paragem naquele momento. A filha de Cláudia, de oito anos, esquecera-se do passe em casa e, apesar de ter garantido que na última paragem estaria o seu filho com o respetivo cartão, o condutor da viatura decidiu interpelar o polícia. A administração da Vimeca não respondeu até ao momento às questões enviadas pelo Contacto mas a linha de apoio ao cliente esclareceu que as crianças com o título Navegante até aos 12 anos não pagam qualquer valor.

Passe da pequena Vitória que ficou em casa

Este mês, uma avaliação feita pela PSP a pedido do Diário de Notícias revelava que nos últimos seis anos 76% das queixas apresentadas contra esta força de segurança na Amadora foram arquivadas. Desta contagem, concluiu-se que foram instaurados 243 processos disciplinares "por eventual prática de ofensas à integridade física" de cidadãos. Dos 24% dos casos que não foram arquivados todos aguardam por um desfecho sem que haja registo de qualquer sanção.

Partidos questionam governo

De acordo com a Lusa, o PS entregou um requerimento na quarta-feira na Assembleia da República. “A confirmarem-se as alegações de Cláudia Simões de que foi agredida posteriormente à algemagem e imobilização, tratar-se-á de condutas merecedoras da mais profunda reprovação, com relevância criminal e impróprias de agentes imbuídos de particulares  deveres de respeito pela lei", diz o documento.

"Eventuais condutas censuráveis de Cláudia Simões, em momento anterior ou contemporâneo da sua detenção, poderiam merecer a censura dos tribunais, mas jamais a ação direta que é apanágio de outros contextos civilizacionais onde a vingança é tolerada e os direitos humanos são desrespeitados", sublinha-se no texto, embora salvaguardando que "o Partido Socialista respeitou, respeita e respeitará sempre as forças policiais, o seu papel fundamental na manutenção da ordem e da segurança e o seu papel estruturante na sociedade portuguesa".

Já o BE, segundo o Público, entregou uma pergunta ao governo em que considera que as “lesões apresentadas pela cidadã agredida indiciam uma actuação desproporcional e injustificada por parte dos agentes policiais”. 

Por sua vez, o PCP questiona o executivo destacando também “a gravidade das agressões verificadas” e exige “um total esclarecimento e uma pronta averiguação de responsabilidades por parte das entidades competentes”. O requerimento assinado pelos deputados António Filipe e Alma Rivera pergunta ainda se vão ser tomadas “medidas preventivas de caráter disciplinar relativamente ao agente em causa?”.

Também a deputada Joacine Katar Moreira, do Livre, fez dar entrada no parlamento uma pergunta em que recorda “um longo e infeliz historial de situações de violência policial que têm vindo a ser conhecidas, perante a passividade da Direcção Nacional da PSP”.

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